Por que os jovens não querem ser cientistas?
JC e-mail 3557, de 18 de Julho de 2008.
Por que os jovens não querem ser cientistas?
Pesquisa ibero-americana de percepção social da ciência, apresentada na 60ª Reunião Anual da SBPC, busca entender por que a procura de jovens por carreiras científicas está em queda
Carla Almeida escreve de Campinas para o "JC e-mail":
Pesquisas de opinião pública realizadas na América Latina, Europa e Estados Unidos têm mostrado que a ciência é uma atividade socialmente prestigiosa e que a sociedade reconhece sua função positiva na educação, economia e bem estar.
Os cientistas, por sua vez, gozam de boa reputação, possuem credibilidade e uma profissão considerada prestigiosa. Além disso, segundo a opinião pública, gostam do que fazem.
Sendo assim, o que explica a queda na procura por cursos científicos, como química e física? Por que os jovens não querem ser cientistas?
Isto é o que um grupo de pesquisadores ibero-americanos, vinculados a distintas instituições e com experiência em estudos de percepção pública da ciência, está tentando entender.
Em 2007, o grupo entrevistou 7.700 pessoas de sete grandes centros urbanos, sendo seis na América Latina – Bogotá, Buenos Aires, Caracas, Cidade do Panamá, São Paulo e Santiago – e um na Espanha – Madri.
Considerando as diferenças de sexo, idade, educação e nível informativo sobre temas de ciência e tecnologia dos entrevistados, o estudo procurou medir especificamente o poder que a ciência tem de atrair jovens que se dediquem profissionalmente a ela e a opinião sobre a remuneração dos cientistas.
Os resultados da pesquisa foram apresentados em simpósio sobre a percepção pública da ciência, nesta quinta-feira, na Reunião Anual.
No quesito atratividade, as cidades se dividem em dois grandes grupos. Em Caracas, Santiago e Panamá, a maioria dos entrevistados considera a ciência muito atrativa para os jovens. Já em Buenos Aires, Bogotá, Madri e São Paulo, a maioria pensa o contrário, que os jovens são pouco atraídos pela ciência.
O que chamou a atenção dos pesquisadores nesse ponto é que, ao cruzarem os dados, eles perceberam que os jovens entre 16 e 24 anos são os mais avessos à idéia de que a ciência é atrativa. Em Buenos Aires, por exemplo, 70% dos entrevistados nessa faixa-etária responderam que a ciência é pouco atrativa.
"Isto mostra a necessidade premente de uma política pública de educação e comunicação da ciência", disse Carmelo Polino, da Rede de Indicadores de Ciência e Tecnologia (RICYT) e do Centro de Estudos sobre Ciência, Desenvolvimento e Educação Superior (REDES), e um dos pesquisadores que conduziu o estudo.
Quanto à remuneração salarial dos cientistas, a maior parte dos entrevistados em São Paulo, Caracas, Santiago e Cidade do Panamá afirmou que a profissão do cientista é bem remunerada, enquanto em Buenos Aires e Madri grande parte acredita que os cientistas são mal remunerados. Em Bogotá houve empate técnico: 40,1% dos entrevistados consideram a profissão bem remunerada e 38,8% pensam que o salário dos cientistas é baixo.
Dessa vez, o que chamou a atenção do grupo foi o percentual de pessoas que não souberam responder à pergunta, sendo 20% a média em todas as cidades.
"A pergunta pode ter sido mal formulada, mas não me parece que foi o caso. É possível que muitas pessoas simplesmente nunca tenham parado para pensar nisso", disse Carmelo.
Um outro dado interessante é que em algumas cidades, quanto maior o nível de informação dos entrevistados, maior a crença de que os cientistas são mal remunerados.
Embora não sejam dados conclusivos, Carmelo acredita que é possível fazer algumas considerações a partir deles. Ele aponta, por exemplo, que as carreiras científicas tendem a ser vistas como carreiras difíceis, com resultados a longo prazo, o que desestimularia os jovens a segui-la.
"Há barreiras culturais. Os jovens hoje acham que para ter êxito na vida, para ter dinheiro, não é preciso estudar muito. É possível escolher uma carreira de resultados econômicos mais rápidos. A cultura do esforço, que é a cultura da ciência, vem perdendo terreno no gosto da sociedade", apontou Carmelo.
Para ele, o papel da divulgação e da educação em ciência também é relevante na hora do jovem decidir o futuro profissional. "Há evidências que mostram que alunos que tiveram professores estimulantes, bons, têm uma visão diferente sobre as ciências".
Mas, para entender melhor o quadro atual de desinteresse pela profissão científica, os pesquisadores já estão com outras pesquisas em mente. Ainda este ano, eles irão conduzir estudo sobre como jovens entre 15 e 17 vêem a ciência, as carreiras científicas, o ensino de ciências na escola e um eventual futuro profissional orientado à pesquisa e à carreira de desenvolvimento tecnológico.
Para 2009 já está previsto um estudo com professores de ensino médio para avaliar como eles vêem a ciência e a tecnologia, sua formação profissional e o ensino de ciências.
Esses estudos estão em sintonia com as intenções do Ministério da Ciência e Tecnologia brasileiro, através do Departamento de Difusão e Popularização da Ciência, de realizar pesquisas com jovens e professores de ciência, como informou o diretor do departamento, Ildeu de Castro Moreira, participante do simpósio.
Moreira anunciou também que está em discussão uma pesquisa com cientistas sobre como vêem a relação da ciência com a cultura e disse que haverá uma nova enquête de percepção pública da ciência no Brasil em 2009, utilizando metodologia aprimorada. Em 2007, o MCT divulgou os dados de enquête realizada em todo o país sobre o assunto.
Além de Carmelo Polino e Ildeu de Castro Moreira, participou também do simpósio José Luis Luján, da Universidade de lês Illes Balears, que apresentou os dados de estudo sobre a percepção pública do princípio de precaução, no âmbito do Programa de pesquisa de percepção da Espanha.
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=57407
Por que os jovens não querem ser cientistas?
Pesquisa ibero-americana de percepção social da ciência, apresentada na 60ª Reunião Anual da SBPC, busca entender por que a procura de jovens por carreiras científicas está em queda
Carla Almeida escreve de Campinas para o "JC e-mail":
Pesquisas de opinião pública realizadas na América Latina, Europa e Estados Unidos têm mostrado que a ciência é uma atividade socialmente prestigiosa e que a sociedade reconhece sua função positiva na educação, economia e bem estar.
Os cientistas, por sua vez, gozam de boa reputação, possuem credibilidade e uma profissão considerada prestigiosa. Além disso, segundo a opinião pública, gostam do que fazem.
Sendo assim, o que explica a queda na procura por cursos científicos, como química e física? Por que os jovens não querem ser cientistas?
Isto é o que um grupo de pesquisadores ibero-americanos, vinculados a distintas instituições e com experiência em estudos de percepção pública da ciência, está tentando entender.
Em 2007, o grupo entrevistou 7.700 pessoas de sete grandes centros urbanos, sendo seis na América Latina – Bogotá, Buenos Aires, Caracas, Cidade do Panamá, São Paulo e Santiago – e um na Espanha – Madri.
Considerando as diferenças de sexo, idade, educação e nível informativo sobre temas de ciência e tecnologia dos entrevistados, o estudo procurou medir especificamente o poder que a ciência tem de atrair jovens que se dediquem profissionalmente a ela e a opinião sobre a remuneração dos cientistas.
Os resultados da pesquisa foram apresentados em simpósio sobre a percepção pública da ciência, nesta quinta-feira, na Reunião Anual.
No quesito atratividade, as cidades se dividem em dois grandes grupos. Em Caracas, Santiago e Panamá, a maioria dos entrevistados considera a ciência muito atrativa para os jovens. Já em Buenos Aires, Bogotá, Madri e São Paulo, a maioria pensa o contrário, que os jovens são pouco atraídos pela ciência.
O que chamou a atenção dos pesquisadores nesse ponto é que, ao cruzarem os dados, eles perceberam que os jovens entre 16 e 24 anos são os mais avessos à idéia de que a ciência é atrativa. Em Buenos Aires, por exemplo, 70% dos entrevistados nessa faixa-etária responderam que a ciência é pouco atrativa.
"Isto mostra a necessidade premente de uma política pública de educação e comunicação da ciência", disse Carmelo Polino, da Rede de Indicadores de Ciência e Tecnologia (RICYT) e do Centro de Estudos sobre Ciência, Desenvolvimento e Educação Superior (REDES), e um dos pesquisadores que conduziu o estudo.
Quanto à remuneração salarial dos cientistas, a maior parte dos entrevistados em São Paulo, Caracas, Santiago e Cidade do Panamá afirmou que a profissão do cientista é bem remunerada, enquanto em Buenos Aires e Madri grande parte acredita que os cientistas são mal remunerados. Em Bogotá houve empate técnico: 40,1% dos entrevistados consideram a profissão bem remunerada e 38,8% pensam que o salário dos cientistas é baixo.
Dessa vez, o que chamou a atenção do grupo foi o percentual de pessoas que não souberam responder à pergunta, sendo 20% a média em todas as cidades.
"A pergunta pode ter sido mal formulada, mas não me parece que foi o caso. É possível que muitas pessoas simplesmente nunca tenham parado para pensar nisso", disse Carmelo.
Um outro dado interessante é que em algumas cidades, quanto maior o nível de informação dos entrevistados, maior a crença de que os cientistas são mal remunerados.
Embora não sejam dados conclusivos, Carmelo acredita que é possível fazer algumas considerações a partir deles. Ele aponta, por exemplo, que as carreiras científicas tendem a ser vistas como carreiras difíceis, com resultados a longo prazo, o que desestimularia os jovens a segui-la.
"Há barreiras culturais. Os jovens hoje acham que para ter êxito na vida, para ter dinheiro, não é preciso estudar muito. É possível escolher uma carreira de resultados econômicos mais rápidos. A cultura do esforço, que é a cultura da ciência, vem perdendo terreno no gosto da sociedade", apontou Carmelo.
Para ele, o papel da divulgação e da educação em ciência também é relevante na hora do jovem decidir o futuro profissional. "Há evidências que mostram que alunos que tiveram professores estimulantes, bons, têm uma visão diferente sobre as ciências".
Mas, para entender melhor o quadro atual de desinteresse pela profissão científica, os pesquisadores já estão com outras pesquisas em mente. Ainda este ano, eles irão conduzir estudo sobre como jovens entre 15 e 17 vêem a ciência, as carreiras científicas, o ensino de ciências na escola e um eventual futuro profissional orientado à pesquisa e à carreira de desenvolvimento tecnológico.
Para 2009 já está previsto um estudo com professores de ensino médio para avaliar como eles vêem a ciência e a tecnologia, sua formação profissional e o ensino de ciências.
Esses estudos estão em sintonia com as intenções do Ministério da Ciência e Tecnologia brasileiro, através do Departamento de Difusão e Popularização da Ciência, de realizar pesquisas com jovens e professores de ciência, como informou o diretor do departamento, Ildeu de Castro Moreira, participante do simpósio.
Moreira anunciou também que está em discussão uma pesquisa com cientistas sobre como vêem a relação da ciência com a cultura e disse que haverá uma nova enquête de percepção pública da ciência no Brasil em 2009, utilizando metodologia aprimorada. Em 2007, o MCT divulgou os dados de enquête realizada em todo o país sobre o assunto.
Além de Carmelo Polino e Ildeu de Castro Moreira, participou também do simpósio José Luis Luján, da Universidade de lês Illes Balears, que apresentou os dados de estudo sobre a percepção pública do princípio de precaução, no âmbito do Programa de pesquisa de percepção da Espanha.
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=57407
Comments
1 commentOs jovens não querem ser cientistas, eles querem ser celebridades.
Querem fama, dinheiro e glamour.
É o que a mídia quer que eles queiram, então é o que eles querem.
Infelizmente é assim que a coisa funciona.
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