60 anos da Reunião Anual da SBPC
JC e-mail 3554, de 15 de Julho de 2008.
SBPC em três tempos
Presidente da entidade destaca período de fundação da SBPC, da luta durante o governo militar e o papel de reivindicação e proposição após redemocratização
O aniversário de 60 anos da Reunião Anual da SBPC foi tema de mesa-redonda nesta segunda-feira, em Campinas, reunindo o presidente da entidade, Marco Antonio Raupp, o presidente da Academia Brasileira de Ciências, Jacob Palis, e o físico Fernando Galembeck.
Para Raupp, a história e o papel da SBPC na luta pela ciência e para a melhoria da vida do povo brasileiro, pode ser dividida basicamente em três períodos, dividindo os 60 anos em três períodos de 20 anos. “Nos 20 primeiros anos, a SBPC se pautava pela valorização do trabalho do cientista e num esforço de aglutinação de pesquisadores de diversas áreas para a construção de propostas coerentes, sempre para a ciência e para o nosso desenvolvimento”.
Algumas dessas propostas, ressalta ele, foram a criação por Anísio Teixeira, que foi presidente da SBPC, e Darcy Ribeiro, da Universidade de Brasília. “A proposta de reforma universitária teve sua gestação dentro da SBPC”, disse ele.
Ele citou ainda a criação do CNPq, na década de 50, e da Fapesp, no início década de 60, como momentos de efetiva participação da SBPC em momentos decisivos da ciência nacional. “Esses casos mostram que a SBPC sempre teve focada em seu papel construtivo. Quando tínhamos que criticar, nós criticávamos, mas na hora de uma efetiva ampliação da melhoria institucional da área de C&T, também estávamos lá, com uma visão propositiva”, defendeu.
Um segundo momento, dividido por Raupp, é o governo militar. Apesar de segundo ele não ter partido da SBPC os debates pela redemocratização, os fóruns de discussão foram minguando até que restou somente as reuniões da Sociedade para a defesa da liberdade. “A ciência precisa de liberdade para pensar, para o debate, então foi um caminho natural se tornar palco para os discursos pela redemocratização”.
Mas segundo ele, mesmo durante os anos de chumbo, a SBPC continuou a debater e lutar também pela pesquisa científica, com a realização conjunta, durante a Reunião anual, de diversos congressos de sociedades científicas associadas.
Palis concordou dizendo que durante a ditadura, os militares pensaram em colocar o CNPq dentro da estrutura do Ministério da Indústria. Segundo Palis, esse seria um terrível revés para a já combalida área.
“Fomos à Casa Civil eu e outros representantes do Conselho Deliberativo do CNPq e Ennio Candotti e Carolina Bori, pela SBPC. Assim que chegamos, o então ministro da Casa Civil nos disse: ‘A SBPC mudou, veio buscar o diálogo!’. Na hora, Ennio respondeu: ‘E vice-versa!’”, contou. Palis disse que, após a conversa, o plano não se concretizou.
O terceiro momento, enxerga o presidente da SBPC, teve como pontos iniciais a redemocratização e a criação do Ministério da C&T, em 1985. “A partir desse momento, entramos num ciclo de críticas, mas também num momento de efetiva participação na construção da política e novos mecanismos de apoio à C&T”, diz Raupp.
Ele lembra de quando o primeiro ministro Renato Archer organizou num Auditório da Fapesp uma reunião com cientistas para saber qual a melhor forma de se montar o ministério. “Ele foi publicamente pedir ajuda e dicas para compor o ministério. Neste momento, houve uma clara colaboração, mas alguns anos depois já houve novos problemas”.
Raupp cita a entrada no poder de Fernando Collor. “Foi um momento pouco propício, mas nos esforçamos para propor melhorias, mas a ciência não era encarada como um programa de médio e longo prazo, algo essencial para o seu desenvolvimento”. O momento presente, diz ele, é de total colaboração com o governo. Segundo Raupp, tanto a Sociedade como a Academia Brasileira de Ciências são chamadas a participar e debater os rumos da área.
“Voltamos a ter um planejamento, uma ligação da política de C&T com a política industrial e de desenvolvimento do país, com o foco na inovação. Esta é uma oportunidade para a SBPC propor e participar de atividades que levem o Brasil a um novo patamar”, finalizou.
Palis disse que o pensamento da Academia. Defendendo que a SBPC e ABC sempre tiveram papéis complementares, “desde quando o presidente da Capes era Anísio Teixeira (ex-presidente da SBPC) e o do CNPq era Álvaro Alberto (ex-presidente da ABC), há um entendimento que vem se estreitando cada vez mais”.
Ele destacou lutas contemporâneas, como a defesa da C&T para o desenvolvimento da Amazônia, acesso ao patrimônio genético, valorização da carreira de C&T, melhora da Educação em todos os níveis e integração nacional.
Galembeck não se ateve apenas aos 60 anos passados, mas defendeu um papel preponderante da SBPC na defesa da inovação, incitando os pesquisadores a terem maio contato com o setor produtivo. Ele cita como exemplo o caso do etanol. A seu ver, o programa brasileiro na área é um exemplo sem comparação em todo o mundo e se desenvolveu com muita pesquisa, mas sem a participação das Universidades e institutos de pesquisa.
Ele acredita que o petróleo, a nanotecnologia e outros combustíveis renováveis podem marcar o futuro do país e de todo o mundo, mas para o seu desenvolvimento ele defende como necessária uma maior inserção dos pesquisadores em empresas e projetos inovadores. A SBPC, acredita ele, pode fazer uma ponte entre o mundo acadêmico e empresarial.
Concordando com Galembeck, Raupp, diz que desde a Reunião Anual de Florianópolis, há dois anos, está é uma grande preocupação da entidade. “Inclusive nesta Reunião, estamos promovendo mesas-redondas e conferências com empresários inovadores, como do laboratório farmacêutico Aché e da empresa de carrocerias para ônibus e caminhões Marcopolo”, citou.
(Luís Amorim)
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=57326
SBPC em três tempos
Presidente da entidade destaca período de fundação da SBPC, da luta durante o governo militar e o papel de reivindicação e proposição após redemocratização
O aniversário de 60 anos da Reunião Anual da SBPC foi tema de mesa-redonda nesta segunda-feira, em Campinas, reunindo o presidente da entidade, Marco Antonio Raupp, o presidente da Academia Brasileira de Ciências, Jacob Palis, e o físico Fernando Galembeck.
Para Raupp, a história e o papel da SBPC na luta pela ciência e para a melhoria da vida do povo brasileiro, pode ser dividida basicamente em três períodos, dividindo os 60 anos em três períodos de 20 anos. “Nos 20 primeiros anos, a SBPC se pautava pela valorização do trabalho do cientista e num esforço de aglutinação de pesquisadores de diversas áreas para a construção de propostas coerentes, sempre para a ciência e para o nosso desenvolvimento”.
Algumas dessas propostas, ressalta ele, foram a criação por Anísio Teixeira, que foi presidente da SBPC, e Darcy Ribeiro, da Universidade de Brasília. “A proposta de reforma universitária teve sua gestação dentro da SBPC”, disse ele.
Ele citou ainda a criação do CNPq, na década de 50, e da Fapesp, no início década de 60, como momentos de efetiva participação da SBPC em momentos decisivos da ciência nacional. “Esses casos mostram que a SBPC sempre teve focada em seu papel construtivo. Quando tínhamos que criticar, nós criticávamos, mas na hora de uma efetiva ampliação da melhoria institucional da área de C&T, também estávamos lá, com uma visão propositiva”, defendeu.
Um segundo momento, dividido por Raupp, é o governo militar. Apesar de segundo ele não ter partido da SBPC os debates pela redemocratização, os fóruns de discussão foram minguando até que restou somente as reuniões da Sociedade para a defesa da liberdade. “A ciência precisa de liberdade para pensar, para o debate, então foi um caminho natural se tornar palco para os discursos pela redemocratização”.
Mas segundo ele, mesmo durante os anos de chumbo, a SBPC continuou a debater e lutar também pela pesquisa científica, com a realização conjunta, durante a Reunião anual, de diversos congressos de sociedades científicas associadas.
Palis concordou dizendo que durante a ditadura, os militares pensaram em colocar o CNPq dentro da estrutura do Ministério da Indústria. Segundo Palis, esse seria um terrível revés para a já combalida área.
“Fomos à Casa Civil eu e outros representantes do Conselho Deliberativo do CNPq e Ennio Candotti e Carolina Bori, pela SBPC. Assim que chegamos, o então ministro da Casa Civil nos disse: ‘A SBPC mudou, veio buscar o diálogo!’. Na hora, Ennio respondeu: ‘E vice-versa!’”, contou. Palis disse que, após a conversa, o plano não se concretizou.
O terceiro momento, enxerga o presidente da SBPC, teve como pontos iniciais a redemocratização e a criação do Ministério da C&T, em 1985. “A partir desse momento, entramos num ciclo de críticas, mas também num momento de efetiva participação na construção da política e novos mecanismos de apoio à C&T”, diz Raupp.
Ele lembra de quando o primeiro ministro Renato Archer organizou num Auditório da Fapesp uma reunião com cientistas para saber qual a melhor forma de se montar o ministério. “Ele foi publicamente pedir ajuda e dicas para compor o ministério. Neste momento, houve uma clara colaboração, mas alguns anos depois já houve novos problemas”.
Raupp cita a entrada no poder de Fernando Collor. “Foi um momento pouco propício, mas nos esforçamos para propor melhorias, mas a ciência não era encarada como um programa de médio e longo prazo, algo essencial para o seu desenvolvimento”. O momento presente, diz ele, é de total colaboração com o governo. Segundo Raupp, tanto a Sociedade como a Academia Brasileira de Ciências são chamadas a participar e debater os rumos da área.
“Voltamos a ter um planejamento, uma ligação da política de C&T com a política industrial e de desenvolvimento do país, com o foco na inovação. Esta é uma oportunidade para a SBPC propor e participar de atividades que levem o Brasil a um novo patamar”, finalizou.
Palis disse que o pensamento da Academia. Defendendo que a SBPC e ABC sempre tiveram papéis complementares, “desde quando o presidente da Capes era Anísio Teixeira (ex-presidente da SBPC) e o do CNPq era Álvaro Alberto (ex-presidente da ABC), há um entendimento que vem se estreitando cada vez mais”.
Ele destacou lutas contemporâneas, como a defesa da C&T para o desenvolvimento da Amazônia, acesso ao patrimônio genético, valorização da carreira de C&T, melhora da Educação em todos os níveis e integração nacional.
Galembeck não se ateve apenas aos 60 anos passados, mas defendeu um papel preponderante da SBPC na defesa da inovação, incitando os pesquisadores a terem maio contato com o setor produtivo. Ele cita como exemplo o caso do etanol. A seu ver, o programa brasileiro na área é um exemplo sem comparação em todo o mundo e se desenvolveu com muita pesquisa, mas sem a participação das Universidades e institutos de pesquisa.
Ele acredita que o petróleo, a nanotecnologia e outros combustíveis renováveis podem marcar o futuro do país e de todo o mundo, mas para o seu desenvolvimento ele defende como necessária uma maior inserção dos pesquisadores em empresas e projetos inovadores. A SBPC, acredita ele, pode fazer uma ponte entre o mundo acadêmico e empresarial.
Concordando com Galembeck, Raupp, diz que desde a Reunião Anual de Florianópolis, há dois anos, está é uma grande preocupação da entidade. “Inclusive nesta Reunião, estamos promovendo mesas-redondas e conferências com empresários inovadores, como do laboratório farmacêutico Aché e da empresa de carrocerias para ônibus e caminhões Marcopolo”, citou.
(Luís Amorim)
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=57326
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