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Ruth Cardoso - professora, pesquisadora e cidadã

JC e-mail 3541, de 26 de Junho de 2008.
Universidades e Fapesp lamentam falecimento de Ruth Cardoso

A Fapesp e o programa de pós-graduação em Antropologia da Unicamp divulgaram nesta quarta-feira notas de pesar ao falecimento da antropóloga Ruth Cardoso, professora aposentada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP

Dona Ruth morreu às 20h40 de terça-feira (24), em SP. A causa da morte foi arritmia cardíaca grave, devido a doença coronariana.

"Ruth Cardoso tornou visíveis para a população diversas de suas qualidades pessoais, dentre as quais têm especial relevo sua dignidade e integridade de caráter, sua simplicidade no trato com as pessoas, sua sensibilidade social e seu profundo conhecimento da realidade brasileira", escreve Celso Lafer, presidente da Fapesp, em nota de pesar.

Para Omar Ribeiro Thomaz, coordenador do programa de Pós-Graduação em Antropologia Social Unicamp, o falecimento de Ruth Cardoso representa uma imensa perda para a comunidade de antropólogos no Brasil: "Ao longo de sua trajetória, Ruth soube aliar o compromisso político com o rigor do trabalho intelectual, além de ter sido uma verdadeira desbravadora de novos campos de pesquisa".

Carreira acadêmica - Ruth formou-se na antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da USP, hoje FFLCH. Doutorou-se em 1972, ao defender a tese Estrutura familiar e mobilidade social - estudo dos japoneses no Estado de São Paulo, orientada pelo professor Florestan Fernandes. Coordenou o curso de pós-graduação em Ciências Políticas, entre 1975 e 1978, e a organização dos seminários de pesquisa do programa de pós-graduação em ciências políticas da FFLCH, de 1986 a 1990.

Realizou pesquisas sobre mobilidade social, violência e política e movimentos populares na América Latina. No exterior, foi professora da Universidade do Chile, da Maison des Sciences de L'Homme (França) e das Universidades de Columbia e Berkley (Estados Unidos). Ajudou a fundar o Núcleo de Estudos da Mulher e Relações Sociais de Gênero (Nemge) da USP. Também atuou como pesquisadora no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Escreveu diversos livros, entre os quais A Aventura Antropológica: Teoria e Pesquisa, e Bibliografia sobre a Juventude, além de participar da coletânea Terceiro Setor, Desenvolvimento Social Sustentado. Casada com o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente da república (1995-2002), Ruth teve três filhos.

Leia a íntegra “Nota de pesar pelo falecimento de Ruth Cardoso”, asinada por Celso Lafer e datada de 25 de junho:

No momento em que a nação brasileira manifesta seus sentimentos em razão do falecimento de Ruth Cardoso, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) gostaria de destacar alguns aspectos que entende fundamentais da vida desta professora que soube, com rara proficiência, aliar virtudes pessoais e acadêmicas com ação social.

Ruth Cardoso, desde que desempenhou relevante papel público como esposa do Presidente Fernando Henrique Cardoso – dando, aliás, inédita dimensão às atribuições usualmente desempenhadas pelo cônjuge do chefe de Estado no Brasil –, tornou visíveis para a população diversas de suas qualidades pessoais, dentre as quais têm especial relevo sua dignidade e integridade de caráter, sua simplicidade no trato com as pessoas, sua sensibilidade social e seu profundo conhecimento da realidade brasileira.

A síntese dessas virtudes resultou no programa Comunidade Solidária, verdadeiro marco em termos de uma nova visão das políticas sociais em nosso país, tendo como essência a utilização do conhecimento como vetor na qualidade de vida da população e como criação efetiva de uma cidadania econômica e política.

A Fapesp, dada sua missão institucional como agência de fomento à pesquisa científica e tecnológica, é particularmente sensível ao modo pelo qual Ruth Cardoso deu um inovador exemplo de utilização do conhecimento como meio de ação social.

Entretanto, cumpre à Fapesp igualmente prestar homenagem à professora universitária que foi pesquisadora vinculada a esta instituição, além de nossa assessora científica, integrando a tradicional parceria existente entre a comunidade acadêmica e a Fapesp – principal razão, aliás, do seu sucesso ao longo dos mais de 45 anos desde sua criação.

Como acadêmica, os caminhos percorridos por Ruth Cardoso a levaram da antropologia à ciência política, permitindo que, nesta última área, enfrentasse temas fundamentais, até então não muito presentes nas pesquisas em nosso país, tais como a sociedade civil e seu modo de ação em organizações não-governamentais; os movimentos sociais; e as reivindicações de gênero.

O foco de Ruth Cardoso estava, desse modo, mais fixado sobre o ambiente da sociedade civil, em sua relação com o Estado, do que sobre o ambiente interno do próprio Estado. E a consciência do papel dos movimentos sociais é elemento essencial para a adequada compreensão da realidade da sociedade contemporânea. Nas palavras de Ruth Cardoso, ao prefaciar o livro O poder da identidade, de Manuel Castells, “aprendemos como se formam novos atores sociais, como sua atuação é fragmentada, muitas vezes isolada, mas sempre em interação com os aparatos do Estado, redes globais e indivíduos centrados em si mesmos. Todos esses elementos não se articulam, pois suas lógicas são diferentes e sua coexistência não será pacífica; mas certamente será ‘produtiva’ para a transformação da sociedade. A globalização não apagou a presença de atores políticos. Criou para eles novos espaços pelos quais se inicia um processo histórico que não tem direção prevista. A criatividade, a negociação e a capacidade de mobilização serão os mais importantes instrumentos para conquistar um lugar na sociedade em rede”.

Mas também, a par de veicular a manifestação institucional da Fundação que presido, não poderia deixar de mencionar, pessoalmente, a amizade que por longos anos tive o privilégio de manter com Ruth Cardoso, cujo conselho tantas vezes busquei na minha vida acadêmica e pública, bem como minha admiração sincera de seu conjunto de virtudes que a tornou uma pessoa especial.

É com grande tristeza, portanto, que compartilho o momento de dor que todos agora sentem, particularmente meu amigo Presidente Fernando Henrique Cardoso, seus filhos Luciana, Bia e Paulo Henrique, netos e demais familiares.”
(Agência Fapesp, 26/6)
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=56941

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JC e-mail 3541, de 26 de Junho de 2008.
Ruth Cardoso, editorial da “Folha de SP”

Foi de fato, num sentido muito próprio do termo, a "primeira-dama" do Brasil

Leia a íntegra do editorial:

O tratamento de "primeira-dama", como se sabe, desagradava a Ruth Cardoso. Durante os oito anos do governo Fernando Henrique, os meios de comunicação consolidaram, desse modo, a praxe de utilizar apenas o corriqueiro "dona Ruth" para referir-se a ela. Depois de seu súbito falecimento, nesta terça-feira (24/6), talvez não seja impróprio, entretanto, recuperar a qualificação que sua simplicidade pessoal, e sua ojeriza pelo oficialismo de Brasília, faziam questão de rejeitar.

Ruth Cardoso foi de fato, num sentido muito próprio do termo, a "primeira-dama" do Brasil. Numa época tão propensa à vulgaridade midiática e ao desrespeito com a opinião pública, ela deixa um exemplo raro de elegância sem afetação, de naturalidade sem demagogia, e de firmeza sem arrogância.

Em diversos países do mundo, as mais admiradas "primeiras-damas", para usar a palavra em seu sentido convencional, procuraram apenas adequar-se a uma atitude de discrição. Uma escolha desse tipo não seria concebível para alguém com a trajetória intelectual e política de Ruth Cardoso.

Ao contrário, foi marcante seu papel durante o governo FHC. A criação da Comunidade Solidária -base dos programas de inclusão social em vigor atualmente- foi um dos feitos administrativos mais fecundos daquele período.

Ruth Cardoso "foi, talvez, o único consenso do partido", disse o peessedebista Tasso Jereissati ao saber de seu falecimento. A frase, a que não falta uma saudável dose de autocrítica, mereceria ser expandida: o valor de sua pessoa, o reconhecimento por sua atuação, e a tristeza por seu falecimento, são hoje um consenso no país inteiro.
(Folha de SP, 26/6)
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=56942

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JC e-mail 3541, de 26 de Junho de 2008.
Ruth, artigo de Augusto de Franco

Em 1999, uma pessoa me dizia que Ruth não seria bem compreendida porque estava dez anos à frente da sua época

Augusto de Franco escreve no blog 24 horas (http://www.vintequatro.com) e é autor, entre outros livros, de "Alfabetização Democrática" (2007). Foi conselheiro e, com Ruth Cardoso, integrou o Comitê Executivo do Conselho da Comunidade Solidária durante o governo Fernando Henrique (1995-2002). Artigo publicado na “Folha de SP”?:

A história não anda para a frente. Aliás, ela não vai para lugar nenhum. Nós é que vamos. Ou não vamos. No final de 1999, o responsável pelas relações do Banco Mundial com a sociedade civil, freqüentador assíduo de nossas atividades, me dizia, num restaurante no aeroporto do Galeão, que Ruth fazia um trabalho extraordinário, mas não seria bem compreendida porque estava dez anos à frente da sua época.

O que diria ele agora, quando depois de Ruth fomos parar em algum lugar do passado, 20 anos atrás? A morte não tem sentido. A menos aquele que os vivos lhe emprestamos.

É uma característica dessa qualidade da alma que chamamos humanidade buscar na morte um sentido para a vida. Eis a origem do elogio fúnebre. No passamento de Ruth vejo o sentido daquelas coisas que não quero que passem: o apego à força da verdade e a rejeição a qualquer forma de manipulação do outro, sobretudo as formas hierárquicas de poder que exigem obediência.

Em quase uma década de convivência, Ruth jamais nos disse, a nós, que trabalhávamos com ela como conselheiros da Comunidade Solidária, o que deveríamos fazer. Nunca tomou uma decisão em assuntos nos quais estivéssemos envolvidos sem antes nos consultar. Recusava o mando, o controle que transforma colaboradores em objetos ou em instrumentos de qualquer propósito pessoal ou coletivo de que não compartilhassem como pares, sempre como iguais.

Curiosamente, era fácil irritá-la. Bastava elogiá-la para tentar captar-lhe a confiança com vistas a obter dela algum favor ou benefício. Bastava, aliás, chamá-la de primeira-dama. Se começasse assim, o interlocutor já podia desistir do seu intento. Nossa professora o desqualificaria antes mesmo da prova. Por sua banca pessoal não passavam os interesseiros.

Ruth conseguia promover essa unidade, estranha para muitos nos tempos que correm, entre vida pessoal e vida política. Embora nunca tenha misturado a esfera privada com a pública, era sempre a mesma pessoa, estivesse numa recepção palaciana a um chefe de Estado, conversando com agricultores no São Francisco ou almoçando conosco, seus parceiros, em um restaurante em São Paulo.

Mas tinha opinião, ah!, isso ela tinha. Não acreditava no velho sistema político que agora se derrama em exaltações póstumas. Durante os oito anos da Comunidade Solidária, jamais vi na sua agenda aqueles célebres atendimentos clientelistas a parlamentares, nem mesmo aos do partido do marido. Sei bem, pois minha sala ficava ao lado da sua.

Seu comportamento inédito causava irritação, é óbvio, mas a serenidade e a firmeza moral que emanavam de seus gestos e atitudes desestimulavam qualquer protesto. E ela em privado ria à solta quando vinham lhe dizer que um deputado, senador ou dirigente partidário tentou apadrinhar ou aparelhar algumas das ações que promovíamos.

Ruth era suave, tinha aquele poder "doce" que os velhos alquimistas percebiam na natureza, mas era também muito crítica, inclusive em relação ao governo Fernando Henrique, ao qual, aliás, nunca pertenceu formalmente. Quando dizíamos isso, as pessoas não acreditavam: mas como? Ela não é a mulher do presidente? Como se o fato de ser esposa do governante a tornasse também uma funcionária do governo: o que não era, nem nunca auferiu nenhuma remuneração por seu trabalho.

Fosse diferente a relação que nossa cultura ocidental estabeleceu com a morte, seria melhor reconhecer que a experiência humana que presenciamos sob o nome de Ruth Corrêa Leite Cardoso foi uma vida realizada e emprestar-lhe um sentido para a caminhada que continuamos do que lamentar o seu desaparecimento.

Claro, todos nós sentimos a perda, que, a mim, em particular, me afeta profundamente, depois de dez anos de trabalho conjunto, muitos diálogos e convivência praticamente cotidiana. Dez anos não são dez dias. A gente sofre porque é como se perdesse uma parte do próprio corpo.

Mas Ruth cumpriu bem seu tempo nesta terra, com elegância e, mais do que isso, com sublimidade. Sofreu, sim, nos últimos anos, ao assistir ao derruimento sistemático das bases de um novo padrão de relação entre Estado e sociedade que tanto se esforçou por construir. Passou-se a tempo de não sofrer mais. Foi poupada do que ainda virá.

Pobres de nós, que teremos de agüentar sozinhos, por muito tempo ainda, todos os efeitos associados à volta regressiva de um passado do qual ela quis se desvencilhar.
(Folha de SP, 26/6)
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=56943

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JC e-mail 3541, de 26 de Junho de 2008.
Antropóloga se destaca por ter inovado políticas sociais do país, dizem amigos

Professores, pesquisadores e ex-orientandos foram se despedir daquela que consideravam uma "inspiradora e amiga"

O velório de Ruth Corrêa Leite Cardoso foi, além de um encontro político, uma demonstração da importância da antropóloga e ex-primeira-dama como referência acadêmica e figura pública. Professores, pesquisadores e ex-orientandos foram se despedir daquela que consideravam uma "inspiradora e amiga".

Ruth já tinha uma longa carreira como antropóloga dedicada a estudos de gênero e de aculturação quando, em 1995, se tornou conhecida nacionalmente como a mulher do então presidente FHC.

Antes de chegar a Brasília, Ruth se destacou, na área acadêmica, ao criar na USP o Núcleo de Estudos da Mulher e Relações Sociais de Gênero. A relevância de suas duas teses sobre aculturação dos japoneses no Brasil voltou a repercutir neste ano, em razão do centenário da imigração japonesa.

Na academia, fez grandes amigos. A socióloga Gilda Figueiredo Portugal Gouvea estava ontem (25/6) entre os mais emocionados. "Era uma mulher incrível, independente e crítica. Ser mulher de Fernando Henrique não era nada fácil, e ela nunca foi sombra." Para Gouvea, a maior perda é a da amiga Ruth. "Uma mulher que cozinhava bem, assistia novelas e era dedicada aos amigos."

Seus estudos não tiveram a mesma repercussão que os de FHC, conhecido internacionalmente pela teoria da dependência, mas a levaram a lecionar em Berkeley (EUA) e Cambridge (Inglaterra).

Para a socióloga Anna Peliano, Ruth foi responsável pela mudança no perfil das políticas de combate à pobreza, que ganharam maior importância no governo. Na gestão tucana, de 1995 a 2002, o programa Comunidade Solidária, implantando por ela, alfabetizou 3 milhões de jovens, capacitou 114 mil para o mercado de trabalho e estimulou a organização de mulheres artesãs em cooperativas de produção.

Apesar disso, o programa foi criticado por aliados do governo, como o senador Antonio Carlos Magalhães, do então PFL, e pelo então ministro das Comunicações, Sérgio Motta, que declarou: "Essa masturbação sociológica me irrita". FHC respondeu: "Ministro não critica governo". Motta calou.

Amigo de Ruth desde os anos 60, o governador José Serra disse que um dos legados da antropóloga foi ter elevado as políticas sociais a outro patamar. Discreta, Ruth criticou várias vezes a imprensa por considerar que tinha sua vida privada invadida com freqüência. Durante sua última internação, voltou a reclamar do assédio ao tucano Clóvis Carvalho.

Também reclamava do título de primeira-dama e, em 1997, chegou a dizer a jornalistas: "Eu não sou primeira-dama. Isso é coisa dos Estados Unidos e vocês é que inventaram aqui".

Decidida a estudar filosofia, Ruth mudou-se de Araraquara (SP), onde nasceu em 19 de setembro de 1930, para São Paulo aos 19 anos. Na USP, conheceu FHC, um ano mais novo do que ela. Eles se formaram em 1952, se casaram no ano seguinte e tiveram três filhos.
(Folha de SP, 26/6)
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=56944

Publicado em 27 de junho de 2008 às 10:00 por appoloni

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