JC e-mail 3530, de 11 de Junho de 2008.
Pesquisas científicas destroçadas
Movimento da Via Campesina invadiu Estação Experimental em Carpina
Atos de vandalismo resultaram, ontem, em perdas para a ciência. Numa ação rápida e organizada, os trabalhadores rurais da Via Campesina ocuparam e destruíram parte da Estação Experimental de Cana-de-Açúcar (EECAC), localizada no município de Carpina, Zona da Mata Norte de Pernambuco. Mais do que prejuízos financeiros, o ação causou prejuízo científico.
Cerca de 30 mil mudas de cana melhoradas em laboratório foram pisoteadas. Pesquisas que já duravam dez anos, completamente destroçadas e, no campo, dois hectares inteiros de cana que estavam sendo utilizados para estudos de combate a fungos acabaram sendo destruídos.
Prejuízo também para estudantes que perderam pesquisas para monografias de mestrado e doutorado em andamento na casa de vegetação, onde as mudas eram aclimatadas, e nos estaleiros, onde as plantas eram analisadas no dia-a-dia. A Polícia Federal abrirá inquérito. O movimento, ligado ao MST, justificou o ato como repúdio à monocultura da cana-de-açúcar no estado. Outras ações foram realizadas em várias partes do país.
"Foi um ato de vandalismo sem precedentes. A estação existe há 38 anos e nunca havíamos sofrido nenhuma ocupação porque os movimentos rurais entendiam que aqui nós estávamos procurando avanços para todos, inclusive para os pequenos produtores", explicou o gestor da EEACA, Djalma Euzébio.
A estação faz parte de uma Parceria Público-Privada entre a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e o Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool do estado (Sindaçúcar). O centro desenvolve tecnologia para a Rede Interuniversitária de Desenvolvimento do Setor Sulcroalcooleiro (Ridesa), que repassa os avanços para 28 usinas locais e para programas governamentais de distribuição de sementes, como o Promata.
Perdas
A estação de Carpina é, inclusive, a principal fornecedora de material genético para a produção das mudas de cana nas biofábricas da região. "Todos os setores têm acesso aos projetos que nós desenvolvemos e, com o melhoramento da cana, geramos ainda muitos empregos diretos e indiretos", completou Djalma Euzébio.
"O que eles não pensaram é que essa ação pode resultar em perdas na empregabilidade", disse o presidente do Sindaçúcar, Renato Cunha. A diretora nacional do Movimento Sem Terra, Messilene Gorete, justificou a invasão à Estação Experimental como uma forma de protesto ao monocultivo de cana-de-açúcar em Pernambuco. "O desenvolvimento das mudas é direcionado apenas para os usineiros", disse.
Os membros da Via Campesina chegaram na estação por volta das 4h da madrugada em dois ônibus e duas vans, segundo a direção do centro. "Eles renderam o vigia e invadiram o local quebrando tudo o que viram pela frente. Não respeitaram nada. Eram mais de cem pessoas enfurecidas que em cerca de uma hora deixaram um rastro incomensurável de destruição", afirmou Djalma Euzébio.
No local, são investidos mais de R$ 3 milhões anualmente, dinheiro proveniente das usinas ligadas ao Sindaçúcar e mais outros R$ 3 milhões que são captados por projetos de pesquisa vinculados à UFRPE. Um desses estava sendo desenvolvido pela fitopatologista Andréa Chaves. "Estava há cinco anos trabalhando em novas técnicas de combate às doenças da cana e tive todos os meus experimentos destroçados. Anos de esforço jogados no chão e pisoteados", disse Andréa, que chegou a passar mal quando viu os estragos provocados pelos trabalhadores.
Ato em repúdio à monocultura
O rastro de destruição deixado pelos trabalhadores da Via Campesina em Carpina foi apenas uma etapa da Jornada Nacional de Luta do movimento que teve início ontem no país.
Em Pernambuco, os agricultores protestaram contra o avanço do monocultivo de cana-de-açúcar na Zona da Mata que, segundo eles, tem aumentado ainda mais a miséria e a concentração de terra em uma região que já sofre com a pobreza e a opressão. Outra queixa dos sem-terra foi sobre o uso do terreno para o desenvolvimento de pesquisas voltadas para o setor privado.
"Ao invés da UFRPE, que é uma instituição pública, investir o dinheiro do povo em pesquisas que beneficiem os camponeses, ela usa nosso dinheiro em estudos que promovem o monocultivo de cana-de-açúcar para o mercado externo, provocando a elevação dos preços dos alimentos e aumentando o número de trabalhadores em condições de quase escravidão", disse a diretora nacional do Movimento dos Sem Terra, Messilene Gorete. Ela afirmou ainda que o movimento apoiaria as pesquisas desenvolvidasna estação se elas estivessem sendo usadas para o benefício do povo.
As justificativas, porém, foram rebatidas pelo presidente do Sindaçúcar, Renato Cunha. "O ato dos sem-terra foi mesquinho e lamentável. A estação de Carpina desenvolve tecnologia para todos. Eles destruíram material genético que seria utilizado tanto pelos grandes como pelos pequenos produtores".
Cunha explicou, ainda, que muitas pesquisas que foram destroçadas na manhã de ontem nem ao menos seriam encaminhadas para as usinas. "O que eles acabaram matando foi o trabalho de muitos estudantes da UFRPE que estavam finalizando suas monografias de mestrado e doutorado. Uma incoerência", observou.
Celeiro genético
A Estação Experimental de Cana-de-Açúcar (EECAC) de Carpina constitui o maior celeiro genético dos cruzamentos de cana do Nordeste, gerando anualmente novas variedades da planta e introduzindo o cultivo em outros centros produtores do país.
A estação possui 450 hectares pertencentes à UFRPE e faz parte da Rede Interuniversitária para o Desenvolvimento Sulcroalcooleiro (Ridesa), que engloba também as universidades federais de Alagoas, Sergipe, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Goiás. Essa rede conduz o Programa de melhoramentos Genético da Cana-de-Açúcar no Brasil.
Desde 1993, a estação fechou um convênio com o Sindaçúcar e ampliou o programa, atendendo 28 usinas e destilarias nos estados de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. As variedades criadas no local e introduzidas no mercado são estudadas e direcionadas cientificamente para as condições de solo e clima do Nordeste.
"O local realiza, por exemplo, pesquisas para criar variedades mais resistentes a doenças como escaldadura das folhas e ferrugem", disse o presidente do Sindaçúcar, Renato Cunha.
A unidade realiza também o monitoramento em fitossanidade, que é o caminho para a aproximação entre a produtividade das duas regiões canavieiras: o Norte e o Nordeste, que são responsáveis por cerca de 14% do total de cana cultivada no país. "Trabalhamos para melhorar os cultivos que já existem, permitindo a otimização das plantações tanto de larga escala, quanto da agricultura familiar", concluiu a fitopatologista Andréa Chaves.
(Thatiana Pimentel, do Diário de Pernambuco, 11/6)
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=56620
Publicado em 14 de junho de 2008 às 09:10 por appoloni