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30 June 2008

150 anos da teoria de Darwin

JC e-mail 3543, de 30 de Junho de 2008.
Um começo tão simples

Teoria da evolução, uma das idéias mais importantes do pensamento ocidental, nasceu há 150 anos, mas seu real impacto passou despercebido na ocasião

Claudio Angelo escreve para a “Folha de SP”:

Quase ninguém notou na hora, mas o mundo mudou no dia 1º de julho de 1858. Há 150 anos, um grupo de naturalistas reunidos na Sociedade Lineana de Londres ouviu a leitura conjunta de três textos. Seus autores eram o galês Alfred Russel Wallace e o inglês Charles Robert Darwin.

Os documentos delineavam uma "teoria muito engenhosa" para explicar "o aparecimento e a perpetuação de variedades e formas específicas no nosso planeta". Nascia a teoria da evolução pela seleção natural. Depois dela, o pensamento ocidental e a biologia nunca mais foram os mesmos.

Os membros do clubinho dos naturalistas não se deram conta do tamanho da revolução que testemunhavam. Estavam assoberbados com cinco outros trabalhos lidos na mesma ocasião, entre eles uma carta "sobre a vegetação em Angola" e a descrição de um novo gênero da família das abobrinhas. Questionado sobre o que havia sido publicado naquele ano, Thomas Bell, presidente da Sociedade Lineana, respondeu: "Nada de revolucionário".

Bell se arrependeria de seu julgamento no ano seguinte, quando Darwin detalhou a teoria evolutiva no livro "A Origem das Espécies". Na Inglaterra vitoriana, dominada pelo pensamento cristão, a obra caiu como uma bomba. Nela Darwin sugeria que todos os organismos da Terra, da mais humilde ameba até os seres humanos, descendiam de um único antepassado.

Homem e macaco, na imagem mais ilustre, partilhavam um ancestral comum (mais tarde, o bispo de Oxford perguntaria a Thomas Huxley, amigo de Darwin, se ele descendia de um macaco por parte de avô ou de avó).

Mais importante, no entanto, foi a maneira como Darwin e Wallace solucionaram o "problema das espécies". A teoria postulava que a variedade entre os indivíduos numa população surge ao acaso. Indivíduos possuidores de características que os favoreçam na "luta pela sobrevivência" na natureza tenderão a deixar mais descendentes, modificando uma população.

O acúmulo dessas modificações ao longo das eras acaba produzindo novas espécies. Não há, portanto, a necessidade de invocar a atuação divina na criação de todas as espécies. A teoria eliminou o sobrenatural da biologia, criando um cisma que se aprofundaria nas décadas posteriores.

No ano que vem, o mundo comemora o "Ano de Darwin", com os 150 anos da "Origem" e o bicentenário do nascimento do naturalista (1809-1888). Mas a revolução darwinista teve seu início de forma acanhada, no "não-evento" científico de julho de 1858 -no qual o próprio Darwin foi um mero coadjuvante.
(Folha de SP, 29/6)
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=57004

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JC e-mail 3543, de 30 de Junho de 2008.
Teoria está mais jovem do que nunca, artigo de Marcelo Nóbrega

“Preceitos centrais do darwinismo tornaram-se o eixo de toda a pesquisa biomédica moderna”

Marcelo Nóbrega é professor-assistente do Departamento de Genética Humana da Universidade de Chicago, EUA. Artigo publicado na “Folha de SP”:

Diz-se que, ao ouvir sobre a teoria de Darwin, uma senhora da sociedade vitoriana resumiu assim seu desconforto: "Vamos torcer para que o Sr. Darwin esteja errado. Mas, se estiver certo, vamos torcer para que essas idéias não se espalhem muito".

Darwin, mais do que ninguém, entendia as implicações desalentadoras de sua teoria para a noção de que os humanos ocupam uma posição especial na natureza. "É como confessar um crime" dizia.

Foram necessários 70 anos para provar que Darwin estivera certo desde o início. Vários remendos foram necessários à teoria evolutiva original. O mais importante deles foi o reconhecimento de outras forças evolutivas além da seleção natural.

No que é conhecido como "deriva genética", é amplamente aceito que várias características genéticas podem se disseminar em uma população puramente ao acaso, sem que a seleção natural precise ficar "escrutinando dia e noite cada variação", como escreveu Darwin na "Origem das Espécies".

Curiosamente, há um recente clamor, especialmente nas ciências sociais, de que uma mudança radical nas nossas idéias sobre hereditariedade e evolução se faz mister, frente a supostas descobertas bombásticas na biologia molecular que traem os preceitos "genocêntricos" do darwinismo.

Entre estas, a descrição de que certos traços podem ser herdados de uma geração para outra sem correspondente variação no DNA -fenômeno chamado de "epigenética"-, ou que modificações ou surgimento de certos traços às vezes precedem variação genética nessas populações, violando o preceito de que evolução se dá exclusivamente em variações genéticas preexistentes, randômicas.

Acredita-se, por exemplo, que variações genéticas que tornaram humanos adultos tolerantes à lactose podem ter aparecido somente depois de estes terem instituído o consumo de leite, há cerca de 10 mil anos.

Se esses são os melhores argumentos justificando tal revolução conceitual, a cruzada é quixotesca, e o exército, maltrapilho. Esses novos mecanismos e conceitos vêm simplesmente agregar-se a um sem número de outras descobertas, que se tornaram possíveis nas últimas quatro décadas com o advento da biologia molecular.

O verdadeiro testemunho da herança de Charles Darwin pode ser aferido ao andar-se pelos corredores de qualquer departamento de biologia moderno. Rapidamente se verá que o anseio da senhora inglesa de abafar as idéias sobre evolução não se concretizou. Os preceitos centrais de teoria evolutiva tornaram-se o eixo de virtualmente toda a pesquisa biomédica.

Graças às teorias de genética e evolução de populações, uma nova forma de medicina, chamada farmacogenética ou "medicina individualizada", tem rapidamente se desenvolvido nos últimos anos. Hoje já é possível analisar diferenças genéticas entre pessoas e usar essa informação para escolher que remédios serão mais eficazes e terão menos efeitos colaterais para cada paciente em uma série de doenças.

Evolução e seleção natural são o motivo pelo qual ainda não existe uma cura para a Aids e pelo qual estamos perdendo a guerra contra bactérias resistentes a antibióticos.

Mas são também os conceitos que têm nos permitido procurar novas formas de combater essas doenças -por exemplo, tentando entender o que na genética faz com que algumas pessoas que são verdadeiras cartilhas ambulantes de fatores de risco nunca adoecem. Desvendados esses mecanismos, novas estratégias terapêuticas poderão ser desenvolvidas.

A procura das causas genéticas de doenças é hoje pesquisada usando os genomas de múltiplas espécies e procurando trechos de DNA que foram mantidos intactos durante longos períodos evolutivos.

O entendimento de como as proteínas -os produtos dos genes- interagem em redes complexas para desenvolver uma função biológica é também amplamente sustentado pela teoria evolutiva. São novos rearranjos e interações entre proteínas que promovem o aparecimento de "novidades" evolutivas em espécies.

Assim, uma esponja-do-mar já tem a maioria dos genes que são responsáveis pela organização do plano corporal humano. Os genes que são usados para formar dentes em peixes foram recrutados para funções diferentes quando nossos ancestrais saíram da água. Esses mesmos genes hoje coordenam a formação de estruturas aparentemente distintas como pele, glândulas mamárias e penas em aves.

Tentar descrever qualquer fenômeno biológico fora da esfera conceitual de evolução de Darwin equivale a conceber personagens sem um enredo que os contextualize e una.
(Folha de SP, 29/6)
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=57005

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JC e-mail 3543, de 30 de Junho de 2008.

Por que Darwin rejeitou o design inteligente?
artigo de Frank J. Sulloway

Britânico chegou às galápagos imbuído da mentalidade criacionista, que lhe impediu de enxergar evidências da evolução

Frank J. Sulloway é historiador da ciência, estudioso de Darwin e professor visitante do Departamento de Psicologia da Universidade da Califórnia em Berkeley. Em 1968, refez a viagem do Beagle para produzir um documentário. Este texto foi primeiro publicado, em formato diferente, pela Vintage Books em "Intelligent Thought", editado por John Brockman. Artigo publicado na “Folha de SP”:

Um dos sinais de uma teoria científica verdadeiramente revolucionária é o fato de demorar muito para ser aceita pela maioria das pessoas. Foi apenas recentemente que o Vaticano admitiu ter errado na infame condenação a Galileu, em 1633, por sua defesa da teoria de que a Terra gira em torno do Sol.

Do mesmo modo, hoje, 150 anos após primeiro serem publicadas, as teorias de Charles Darwin continuam a suscitar hostilidade em muitos países, devido à rejeição por Darwin da idéia de que a vida manifesta um propósito inteligente.

É irônico o fato de que o próprio Darwin, em certa época, esteve fascinado pela teoria de que todas as espécies surgem em função de um design inteligente -a mesma teoria que, mais tarde, ele procurou eliminar da ciência em seu livro "A Origem das Espécies" (1859).

Popularizada no século 17, essa doutrina buscava unir uma celebração da obra de Deus com o estudo da ciência. Esses argumentos alcançaram seu ápice nos escritos do reverendo William Paley, que expôs suas idéias em "Teologia Natural" (1802). As muitas provas que ele apresentou em favor do design inteligente fascinaram e convenceram o jovem Darwin.

O que desencadeou a dramática mudança de opinião de Darwin em relação à origem das espécies foi a viagem de cinco anos que ele fez em volta ao mundo no navio "HMS Beagle", e, especialmente, sua visita de cinco semanas às ilhas Galápagos em setembro e outubro de 1835. Reza a lenda que Darwin converteu-se à teoria da evolução durante essa visita breve, vivendo algo como um momento "eureca!".

A história real da conversão de Darwin, que só se deu um ano e meio mais tarde, após seu retorno à Inglaterra, nos diz muito mais sobre como a ciência é feita de fato, especialmente sobre como a teoria guia a observação e prepara a mente e como é necessária persistência obstinada para transformar teorias controversas em fatos aceitos.

Durante a permanência de Darwin nas Galápagos, a teoria criacionista o preparou para aquilo que ele observou e compreendeu nas ilhas. Essa teoria também ditou o que ele deixou de observar e compreender. Num primeiro momento, ele esforçou-se com diligência para conciliar com o paradigma criacionista as criaturas novas e estranhas que encontrou naquele arquipélago isolado.

Segundo essa teoria, diferentes "centros de criação" explicavam por que a flora e a fauna da Terra diferiam de uma região a outra -ou de um continente a outro. Darwin ainda não se dera conta de que uma parcela do planeta tão minúscula quanto o arquipélago de Galápagos poderia ser, ela própria, um "centro de criação".

Certos fatos inesperados relativos a Galápagos solaparam a credibilidade de qualquer explicação criacionista daquilo que Darwin, mais tarde, descreveria como "o mistério dos mistérios -o primeiro surgimento de novos seres nesta terra".

Em particular, várias espécies distintas evoluíram ao longo do tempo em cada uma das ilhas do grupo das Galápagos, de acordo com o povoamento dessas ilhas por colonos ocasionais que ali conseguiram chegar desde a América Central ou do Sul. Darwin foi alertado para essa possibilidade pelo vice-governador das ilhas, Nicholas Lawson, que insistiu que "as tartarugas das diferentes ilhas diferem entre elas, e que ele poderá perceber com certeza de que ilha qualquer uma for trazida".

Num primeiro momento, Darwin não deu atenção às observações de Lawson, ainda tendo a mente dominada pela teoria criacionista. Ela dizia que as espécies podem modificar-se, e se modificam, reagindo aos ambientes locais. Como um elástico que resiste ao ser esticado, qualquer modificação do tipo específico e supostamente imutável que fosse verificada entre as variedades era vista como desvio temporário.

Devido à sua visão criacionista, durante sua estadia nas Galápagos, Darwin não coletou um espécime sequer de tartaruga-gigante para finalidades científicas. Em vez disso, as 48 tartarugas capturadas pelo Beagle na ilha de San Cristóbal foram mais tarde comidas por Darwin e seus companheiros de navio, sendo suas carapaças atiradas ao mar.

Essa mesma mentalidade criacionista ajuda a explicar porque, num primeiro momento, Darwin deixou de compreender o mais célebre exemplo das Galápagos da evolução em ação: os famosos tentilhões de Darwin.

Quatorze espécies de tentilhões se desenvolveram nas Galápagos a partir da forma ancestral encontrada nas Américas Central e do Sul. Nos últimos 2 milhões de anos, esse processo de evolução resultou numa radiação adaptativa tão impressionante em nichos ecológicos diversos que algumas dessas espécies não se parecem com tentilhões típicos. Num primeiro momento, Darwin pensou que algumas delas nem sequer fossem tentilhões.

O caso dos tentilhões-das-galápagos confundiu Darwin a tal ponto que, no momento em que capturou os pássaros, ele não se deu conta de que todas as espécies eram estreitamente aparentadas ou que o número de espécies em um grupo de aves poderia resultar do fato de elas terem evoluído em ilhas diferentes. Por isso, ele não fez qualquer esforço para classificar suas coleções ornitológicas por ilha -um erro que lamentou sinceramente mais tarde.

Darwin tampouco teve a oportunidade de observar esses tentilhões de maneira suficientemente detalhada para aperceber-se de que os tamanhos e formatos de seus bicos guardavam relação estreita com suas dietas -um "insight" importante que a lenda equivocadamente lhe atribui.

Apesar de ter estado armado de uma teoria inadequada durante sua estadia em Galápagos, Darwin era um naturalista bom demais para não observar que os quatro espécimes de "mockingbirds" que coletou, cada uma de uma ilha diferente, ou eram variedades ou espécies distintas.

Não sendo ornitólogo, Darwin não sabia ao certo como interpretar essa anomalia. Em julho de 1836, nove meses após sua visita às Galápagos, ele refletiu sobre o caso dos "mockingbirds" e recordou o que lhe tinha sido dito sobre as tartarugas:

"Quando vejo essas ilhas visíveis umas desde as outras e possuindo apenas uma quantidade escassa de animais, habitadas por essas aves mas ligeiramente distintas em sua estrutura e ocupando o mesmo lugar na natureza, devo suspeitar de que são apenas variedades ... Se existe fundamento para essas observações, então a zoologia dos arquipélagos valerá a pena ser examinada, pois tais fatos enfraqueceriam a estabilidade das espécies."

A chave para interpretar esse trecho célebre -que aventa a revolução darwinista mas em seguida afasta-se dela- está na frase "devo suspeitar de que são apenas variedades", premissa que Darwin compreendia ser plenamente coerente com a teoria criacionista.

O que o impedia de dar o passo crucial da ortodoxia científica para a heterodoxia era a ausência de informações sobre a classificação ornitológica correta, algo que só lhe estaria disponível após seu retorno à Inglaterra.

Darwin retornou à Inglaterra em 2 de outubro de 1836. Três meses depois, deixou suas coleções de aves com John Gould, ornitólogo da Sociedade Zoológica de Londres. Gould imediatamente se deu conta da natureza extraordinária dos espécimes colhidos por Darwin nas Galápagos.

Em março de 1837, Gould informou Darwin de que três de seus quatro espécimes de "mockingbird" eram espécies distintas, até então desconhecidas da ciência. Gould também informou a Darwin que sua coleção incluía 13 ou possivelmente 14 espécies de tentilhões muito incomuns. De repente, após as análises taxonômicas de Gould, as Galápagos se haviam convertido num "centro de criação" distinto.

As conclusões de Gould parecem ter deixado Darwin estarrecido. Ele rapidamente se deu conta de que, se Gould estivesse certo, a barreira entre as espécies distintas tinha sido de alguma maneira rompida por esses pássaros, isolados nas diferentes ilhas.

A evolução gradual graças ao isolamento geográfico era a única explicação plausível, a não ser que se pensasse que Deus, como um jardineiro obsessivo-compulsivo, tivesse ido de uma ilha a outra no arquipélago, caprichosamente criando espécies separadas mas estreitamente aliadas, com a intenção de ocupar os mesmos nichos ecológicos.

Reforçado por uma perspectiva evolutiva da natureza, Darwin foi capaz de enxergar os tentilhões sob uma ótica radicalmente nova. Apenas agora ele passou a compreender a extensão de seu descuido anterior, quando deixou de rotular por ilha a maior parte das aves que trouxera das Galápagos.

Felizmente, Darwin sabia que três outros colecionadores que tinham viajado no Beagle (o capitão FitzRoy entre eles) também tinham coletado espécimes. E todos esses espécimes tinham sido rotulados segundo a ilha de sua procedência. É sintomático que tenham sido os não-cientistas do Beagle, que não eram movidos por uma teoria, como Darwin, que registraram as evidências científicas que Darwin, partindo de uma abordagem criacionista, havia visto como sendo supérfluas.

Darwin passou a entender que o isolamento geográfico era uma parte crucial da resposta quanto a como as espécies se transformam no decorrer o tempo. Mas o isolamento, por si só, não bastava para explicar as adaptações das espécies a seus ambientes locais.

Malthus explica

Depois de estudar e rejeitar uma série de hipóteses, Darwin, em setembro de 1838, leu por acaso a edição de 1826 de "Ensaio sobre o Princípio da População", de Thomas Malthus. Este argumentava que as populações têm a tendência inata a crescer geometricamente. Na natureza, porém, a oferta de alimentos é limitada, de modo que a maioria da prole não sobrevive, sendo morta por predadores, fome e doenças.

Ao ler o livro de Malthus, Darwin se deu conta imediatamente de que, na eterna luta pela sobrevivência, variações ligeiras benéficas tenderiam a ser naturalmente selecionadas, levando à sobrevivência maior e, com isso, a um aumento nas características adaptativas, do mesmo modo em que o criador de animais domesticados obtém características desejadas selecionando as qualidades valorizadas nos animais.

"Aqui, então, finalmente encontrei uma teoria com a qual trabalhar", observou Darwin em sua "Autobiografia". Ali, também, estava uma resposta digna de crédito a William Paley. Darwin percebeu que a seleção natural não era outra coisa senão o "projetista" de Paley.

Olhando através da lente poderosa da evolução pela seleção natural, Darwin então começou a reexaminar as premissas básicas do criacionismo e a comparar as previsões que se fariam com base nessas duas teorias radicalmente distintas.
Quanto mais extenso se tornava seu reestudo, mais ele foi compreendendo que o design inteligente era contradito de maneira avassaladora pelas evidências disponíveis.

A reavaliação feita por Darwin atingiu seu ápice 22 anos mais tarde com "Sobre a Origem das Espécies por Meio da Seleção Natural", livro que o próprio Darwin descreveu, corretamente, perto de seu final, como "um só longo argumento". Era igualmente um argumento contra o criacionismo e, especialmente, contra o design inteligente.

As evidências relativas à distribuição geográfica, especialmente das ilhas oceânicas e suas relações biológicas com os continentes mais próximos, desempenham papel substancial no argumento de Darwin.

As ilhas Galápagos, por exemplo, abrigam várias espécies de animais e plantas estreitamente aparentadas com as do vizinho continente americano; no entanto, as características ambientais dessas ilhas não se assemelham em nada às das partes mais próximas do continente, que são tropicais.

Contrastando com isso, o árido ambiente vulcânico das Galápagos se assemelha estreitamente ao das ilhas de Cabo Verde, a 650 km da África. No entanto, a flora e a fauna de Cabo Verde guardam mais semelhança com espécies que vivem no continente africano, não com as das Galápagos.

Por que um possível projetista inteligente, indagou Darwin, colocaria dois carimbos criativos completamente diferentes -um africano e outro americano- sobre espécies que vivem em ambientes quase idênticos e ocupam nichos ecológicos semelhantes? Não fazia sentido.

Como Darwin trabalhou durante 20 anos sobre rascunhos da obra que acabaria virando "A Origem das Espécies", ele conseguiu explicar o mundo natural de uma maneira como ninguém nunca fizera antes. Em última análise, o que sua transformação de criacionista em evolucionista revela sobre ela -e sobre a ciência, de modo mais geral- é que a melhor ciência é feita a serviço de uma teoria realmente boa.
(Folha de SP, 29/6)
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=57007

27 June 2008

Ruth Cardoso - professora, pesquisadora e cidadã

JC e-mail 3541, de 26 de Junho de 2008.
Universidades e Fapesp lamentam falecimento de Ruth Cardoso

A Fapesp e o programa de pós-graduação em Antropologia da Unicamp divulgaram nesta quarta-feira notas de pesar ao falecimento da antropóloga Ruth Cardoso, professora aposentada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP

Dona Ruth morreu às 20h40 de terça-feira (24), em SP. A causa da morte foi arritmia cardíaca grave, devido a doença coronariana.

"Ruth Cardoso tornou visíveis para a população diversas de suas qualidades pessoais, dentre as quais têm especial relevo sua dignidade e integridade de caráter, sua simplicidade no trato com as pessoas, sua sensibilidade social e seu profundo conhecimento da realidade brasileira", escreve Celso Lafer, presidente da Fapesp, em nota de pesar.

Para Omar Ribeiro Thomaz, coordenador do programa de Pós-Graduação em Antropologia Social Unicamp, o falecimento de Ruth Cardoso representa uma imensa perda para a comunidade de antropólogos no Brasil: "Ao longo de sua trajetória, Ruth soube aliar o compromisso político com o rigor do trabalho intelectual, além de ter sido uma verdadeira desbravadora de novos campos de pesquisa".

Carreira acadêmica - Ruth formou-se na antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da USP, hoje FFLCH. Doutorou-se em 1972, ao defender a tese Estrutura familiar e mobilidade social - estudo dos japoneses no Estado de São Paulo, orientada pelo professor Florestan Fernandes. Coordenou o curso de pós-graduação em Ciências Políticas, entre 1975 e 1978, e a organização dos seminários de pesquisa do programa de pós-graduação em ciências políticas da FFLCH, de 1986 a 1990.

Realizou pesquisas sobre mobilidade social, violência e política e movimentos populares na América Latina. No exterior, foi professora da Universidade do Chile, da Maison des Sciences de L'Homme (França) e das Universidades de Columbia e Berkley (Estados Unidos). Ajudou a fundar o Núcleo de Estudos da Mulher e Relações Sociais de Gênero (Nemge) da USP. Também atuou como pesquisadora no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Escreveu diversos livros, entre os quais A Aventura Antropológica: Teoria e Pesquisa, e Bibliografia sobre a Juventude, além de participar da coletânea Terceiro Setor, Desenvolvimento Social Sustentado. Casada com o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente da república (1995-2002), Ruth teve três filhos.

Leia a íntegra “Nota de pesar pelo falecimento de Ruth Cardoso”, asinada por Celso Lafer e datada de 25 de junho:

No momento em que a nação brasileira manifesta seus sentimentos em razão do falecimento de Ruth Cardoso, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) gostaria de destacar alguns aspectos que entende fundamentais da vida desta professora que soube, com rara proficiência, aliar virtudes pessoais e acadêmicas com ação social.

Ruth Cardoso, desde que desempenhou relevante papel público como esposa do Presidente Fernando Henrique Cardoso – dando, aliás, inédita dimensão às atribuições usualmente desempenhadas pelo cônjuge do chefe de Estado no Brasil –, tornou visíveis para a população diversas de suas qualidades pessoais, dentre as quais têm especial relevo sua dignidade e integridade de caráter, sua simplicidade no trato com as pessoas, sua sensibilidade social e seu profundo conhecimento da realidade brasileira.

A síntese dessas virtudes resultou no programa Comunidade Solidária, verdadeiro marco em termos de uma nova visão das políticas sociais em nosso país, tendo como essência a utilização do conhecimento como vetor na qualidade de vida da população e como criação efetiva de uma cidadania econômica e política.

A Fapesp, dada sua missão institucional como agência de fomento à pesquisa científica e tecnológica, é particularmente sensível ao modo pelo qual Ruth Cardoso deu um inovador exemplo de utilização do conhecimento como meio de ação social.

Entretanto, cumpre à Fapesp igualmente prestar homenagem à professora universitária que foi pesquisadora vinculada a esta instituição, além de nossa assessora científica, integrando a tradicional parceria existente entre a comunidade acadêmica e a Fapesp – principal razão, aliás, do seu sucesso ao longo dos mais de 45 anos desde sua criação.

Como acadêmica, os caminhos percorridos por Ruth Cardoso a levaram da antropologia à ciência política, permitindo que, nesta última área, enfrentasse temas fundamentais, até então não muito presentes nas pesquisas em nosso país, tais como a sociedade civil e seu modo de ação em organizações não-governamentais; os movimentos sociais; e as reivindicações de gênero.

O foco de Ruth Cardoso estava, desse modo, mais fixado sobre o ambiente da sociedade civil, em sua relação com o Estado, do que sobre o ambiente interno do próprio Estado. E a consciência do papel dos movimentos sociais é elemento essencial para a adequada compreensão da realidade da sociedade contemporânea. Nas palavras de Ruth Cardoso, ao prefaciar o livro O poder da identidade, de Manuel Castells, “aprendemos como se formam novos atores sociais, como sua atuação é fragmentada, muitas vezes isolada, mas sempre em interação com os aparatos do Estado, redes globais e indivíduos centrados em si mesmos. Todos esses elementos não se articulam, pois suas lógicas são diferentes e sua coexistência não será pacífica; mas certamente será ‘produtiva’ para a transformação da sociedade. A globalização não apagou a presença de atores políticos. Criou para eles novos espaços pelos quais se inicia um processo histórico que não tem direção prevista. A criatividade, a negociação e a capacidade de mobilização serão os mais importantes instrumentos para conquistar um lugar na sociedade em rede”.

Mas também, a par de veicular a manifestação institucional da Fundação que presido, não poderia deixar de mencionar, pessoalmente, a amizade que por longos anos tive o privilégio de manter com Ruth Cardoso, cujo conselho tantas vezes busquei na minha vida acadêmica e pública, bem como minha admiração sincera de seu conjunto de virtudes que a tornou uma pessoa especial.

É com grande tristeza, portanto, que compartilho o momento de dor que todos agora sentem, particularmente meu amigo Presidente Fernando Henrique Cardoso, seus filhos Luciana, Bia e Paulo Henrique, netos e demais familiares.”
(Agência Fapesp, 26/6)
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=56941

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JC e-mail 3541, de 26 de Junho de 2008.
Ruth Cardoso, editorial da “Folha de SP”

Foi de fato, num sentido muito próprio do termo, a "primeira-dama" do Brasil

Leia a íntegra do editorial:

O tratamento de "primeira-dama", como se sabe, desagradava a Ruth Cardoso. Durante os oito anos do governo Fernando Henrique, os meios de comunicação consolidaram, desse modo, a praxe de utilizar apenas o corriqueiro "dona Ruth" para referir-se a ela. Depois de seu súbito falecimento, nesta terça-feira (24/6), talvez não seja impróprio, entretanto, recuperar a qualificação que sua simplicidade pessoal, e sua ojeriza pelo oficialismo de Brasília, faziam questão de rejeitar.

Ruth Cardoso foi de fato, num sentido muito próprio do termo, a "primeira-dama" do Brasil. Numa época tão propensa à vulgaridade midiática e ao desrespeito com a opinião pública, ela deixa um exemplo raro de elegância sem afetação, de naturalidade sem demagogia, e de firmeza sem arrogância.

Em diversos países do mundo, as mais admiradas "primeiras-damas", para usar a palavra em seu sentido convencional, procuraram apenas adequar-se a uma atitude de discrição. Uma escolha desse tipo não seria concebível para alguém com a trajetória intelectual e política de Ruth Cardoso.

Ao contrário, foi marcante seu papel durante o governo FHC. A criação da Comunidade Solidária -base dos programas de inclusão social em vigor atualmente- foi um dos feitos administrativos mais fecundos daquele período.

Ruth Cardoso "foi, talvez, o único consenso do partido", disse o peessedebista Tasso Jereissati ao saber de seu falecimento. A frase, a que não falta uma saudável dose de autocrítica, mereceria ser expandida: o valor de sua pessoa, o reconhecimento por sua atuação, e a tristeza por seu falecimento, são hoje um consenso no país inteiro.
(Folha de SP, 26/6)
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=56942

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JC e-mail 3541, de 26 de Junho de 2008.
Ruth, artigo de Augusto de Franco

Em 1999, uma pessoa me dizia que Ruth não seria bem compreendida porque estava dez anos à frente da sua época

Augusto de Franco escreve no blog 24 horas (http://www.vintequatro.com) e é autor, entre outros livros, de "Alfabetização Democrática" (2007). Foi conselheiro e, com Ruth Cardoso, integrou o Comitê Executivo do Conselho da Comunidade Solidária durante o governo Fernando Henrique (1995-2002). Artigo publicado na “Folha de SP”?:

A história não anda para a frente. Aliás, ela não vai para lugar nenhum. Nós é que vamos. Ou não vamos. No final de 1999, o responsável pelas relações do Banco Mundial com a sociedade civil, freqüentador assíduo de nossas atividades, me dizia, num restaurante no aeroporto do Galeão, que Ruth fazia um trabalho extraordinário, mas não seria bem compreendida porque estava dez anos à frente da sua época.

O que diria ele agora, quando depois de Ruth fomos parar em algum lugar do passado, 20 anos atrás? A morte não tem sentido. A menos aquele que os vivos lhe emprestamos.

É uma característica dessa qualidade da alma que chamamos humanidade buscar na morte um sentido para a vida. Eis a origem do elogio fúnebre. No passamento de Ruth vejo o sentido daquelas coisas que não quero que passem: o apego à força da verdade e a rejeição a qualquer forma de manipulação do outro, sobretudo as formas hierárquicas de poder que exigem obediência.

Em quase uma década de convivência, Ruth jamais nos disse, a nós, que trabalhávamos com ela como conselheiros da Comunidade Solidária, o que deveríamos fazer. Nunca tomou uma decisão em assuntos nos quais estivéssemos envolvidos sem antes nos consultar. Recusava o mando, o controle que transforma colaboradores em objetos ou em instrumentos de qualquer propósito pessoal ou coletivo de que não compartilhassem como pares, sempre como iguais.

Curiosamente, era fácil irritá-la. Bastava elogiá-la para tentar captar-lhe a confiança com vistas a obter dela algum favor ou benefício. Bastava, aliás, chamá-la de primeira-dama. Se começasse assim, o interlocutor já podia desistir do seu intento. Nossa professora o desqualificaria antes mesmo da prova. Por sua banca pessoal não passavam os interesseiros.

Ruth conseguia promover essa unidade, estranha para muitos nos tempos que correm, entre vida pessoal e vida política. Embora nunca tenha misturado a esfera privada com a pública, era sempre a mesma pessoa, estivesse numa recepção palaciana a um chefe de Estado, conversando com agricultores no São Francisco ou almoçando conosco, seus parceiros, em um restaurante em São Paulo.

Mas tinha opinião, ah!, isso ela tinha. Não acreditava no velho sistema político que agora se derrama em exaltações póstumas. Durante os oito anos da Comunidade Solidária, jamais vi na sua agenda aqueles célebres atendimentos clientelistas a parlamentares, nem mesmo aos do partido do marido. Sei bem, pois minha sala ficava ao lado da sua.

Seu comportamento inédito causava irritação, é óbvio, mas a serenidade e a firmeza moral que emanavam de seus gestos e atitudes desestimulavam qualquer protesto. E ela em privado ria à solta quando vinham lhe dizer que um deputado, senador ou dirigente partidário tentou apadrinhar ou aparelhar algumas das ações que promovíamos.

Ruth era suave, tinha aquele poder "doce" que os velhos alquimistas percebiam na natureza, mas era também muito crítica, inclusive em relação ao governo Fernando Henrique, ao qual, aliás, nunca pertenceu formalmente. Quando dizíamos isso, as pessoas não acreditavam: mas como? Ela não é a mulher do presidente? Como se o fato de ser esposa do governante a tornasse também uma funcionária do governo: o que não era, nem nunca auferiu nenhuma remuneração por seu trabalho.

Fosse diferente a relação que nossa cultura ocidental estabeleceu com a morte, seria melhor reconhecer que a experiência humana que presenciamos sob o nome de Ruth Corrêa Leite Cardoso foi uma vida realizada e emprestar-lhe um sentido para a caminhada que continuamos do que lamentar o seu desaparecimento.

Claro, todos nós sentimos a perda, que, a mim, em particular, me afeta profundamente, depois de dez anos de trabalho conjunto, muitos diálogos e convivência praticamente cotidiana. Dez anos não são dez dias. A gente sofre porque é como se perdesse uma parte do próprio corpo.

Mas Ruth cumpriu bem seu tempo nesta terra, com elegância e, mais do que isso, com sublimidade. Sofreu, sim, nos últimos anos, ao assistir ao derruimento sistemático das bases de um novo padrão de relação entre Estado e sociedade que tanto se esforçou por construir. Passou-se a tempo de não sofrer mais. Foi poupada do que ainda virá.

Pobres de nós, que teremos de agüentar sozinhos, por muito tempo ainda, todos os efeitos associados à volta regressiva de um passado do qual ela quis se desvencilhar.
(Folha de SP, 26/6)
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=56943

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JC e-mail 3541, de 26 de Junho de 2008.
Antropóloga se destaca por ter inovado políticas sociais do país, dizem amigos

Professores, pesquisadores e ex-orientandos foram se despedir daquela que consideravam uma "inspiradora e amiga"

O velório de Ruth Corrêa Leite Cardoso foi, além de um encontro político, uma demonstração da importância da antropóloga e ex-primeira-dama como referência acadêmica e figura pública. Professores, pesquisadores e ex-orientandos foram se despedir daquela que consideravam uma "inspiradora e amiga".

Ruth já tinha uma longa carreira como antropóloga dedicada a estudos de gênero e de aculturação quando, em 1995, se tornou conhecida nacionalmente como a mulher do então presidente FHC.

Antes de chegar a Brasília, Ruth se destacou, na área acadêmica, ao criar na USP o Núcleo de Estudos da Mulher e Relações Sociais de Gênero. A relevância de suas duas teses sobre aculturação dos japoneses no Brasil voltou a repercutir neste ano, em razão do centenário da imigração japonesa.

Na academia, fez grandes amigos. A socióloga Gilda Figueiredo Portugal Gouvea estava ontem (25/6) entre os mais emocionados. "Era uma mulher incrível, independente e crítica. Ser mulher de Fernando Henrique não era nada fácil, e ela nunca foi sombra." Para Gouvea, a maior perda é a da amiga Ruth. "Uma mulher que cozinhava bem, assistia novelas e era dedicada aos amigos."

Seus estudos não tiveram a mesma repercussão que os de FHC, conhecido internacionalmente pela teoria da dependência, mas a levaram a lecionar em Berkeley (EUA) e Cambridge (Inglaterra).

Para a socióloga Anna Peliano, Ruth foi responsável pela mudança no perfil das políticas de combate à pobreza, que ganharam maior importância no governo. Na gestão tucana, de 1995 a 2002, o programa Comunidade Solidária, implantando por ela, alfabetizou 3 milhões de jovens, capacitou 114 mil para o mercado de trabalho e estimulou a organização de mulheres artesãs em cooperativas de produção.

Apesar disso, o programa foi criticado por aliados do governo, como o senador Antonio Carlos Magalhães, do então PFL, e pelo então ministro das Comunicações, Sérgio Motta, que declarou: "Essa masturbação sociológica me irrita". FHC respondeu: "Ministro não critica governo". Motta calou.

Amigo de Ruth desde os anos 60, o governador José Serra disse que um dos legados da antropóloga foi ter elevado as políticas sociais a outro patamar. Discreta, Ruth criticou várias vezes a imprensa por considerar que tinha sua vida privada invadida com freqüência. Durante sua última internação, voltou a reclamar do assédio ao tucano Clóvis Carvalho.

Também reclamava do título de primeira-dama e, em 1997, chegou a dizer a jornalistas: "Eu não sou primeira-dama. Isso é coisa dos Estados Unidos e vocês é que inventaram aqui".

Decidida a estudar filosofia, Ruth mudou-se de Araraquara (SP), onde nasceu em 19 de setembro de 1930, para São Paulo aos 19 anos. Na USP, conheceu FHC, um ano mais novo do que ela. Eles se formaram em 1952, se casaram no ano seguinte e tiveram três filhos.
(Folha de SP, 26/6)
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=56944




26 June 2008

Brasil tira nota baixa na avaliação da UNESCO

JC e-mail 3539, de 24 de Junho de 2008.
Brasil tira nota baixa em outra avaliação

Exame da Unesco revela resultado pífio, especialmente em matemática

Lisandra Paraguassú escreve para “O Estado de SP”:

A metade dos alunos da 3ª série do ensino fundamental do Brasil não demonstra o conhecimento esperado em leitura e matemática. Na 6ª série, há avanços em leitura e a metade dos estudantes está dentro da meta. Em matemática, a situação continua ruim.

Os dados, que confirmam os resultados ainda muito baixos do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), são de uma pesquisa do Laboratório Latino-Americano de Avaliação da Qualidade da Educação, ligado à Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), feita em 16 países da América Latina.

O estudo mostra que, com algumas raras exceções, o Brasil partilha da mesma sina de má qualidade educacional dos demais países latino-americanos. O único que realmente foge à regra em todos os níveis estudados é Cuba, em que a maioria dos estudantes, em ambas as séries e em todas as disciplinas, aparece no nível mais alto de aprendizagem. Alguns, como Chile e Costa Rica, México e Uruguai, têm situações melhores do que a brasileira, mas ainda têm muitos alunos nos níveis mais baixos de aprendizagem.

‘Sub-1’ em matemática

O estudo foi feito com provas em turmas de 3ª e 6ª série do ensino básico em leitura, matemática e ciências - o Brasil, no entanto, não participou do exame de ciências. Incluiu 100.752 estudantes de 3ª série e 95.288 de 6ª série de 16 países. Para serem considerados aptos para a série que estão, os alunos teriam que ter alcançado os níveis 3 e 4 de uma escala que começa em “sub-1”.

A única série em que pelo menos a metade dos estudantes chega aos níveis 3 e 4 é a 6ª, mas apenas em leitura. Nesse caso, a nota brasileira supera a média da região, mas o mesmo acontece com Cuba, Costa Rica, Chile, Colômbia México e Uruguai.

Nas outras séries, o Brasil fica na média da região e metade dos estudantes brasileiros fica apenas nos níveis 1 e 2 de aprendizagem. Mais do que isso, em matemática na 3ª série, mais de 10% ficam no nível sub-1 - ou seja, não conseguem identificar informações básicas em textos simples.

De um modo geral, República Dominicana, Nicarágua e Panamá tiveram os piores resultados. Do outro lado, além de Cuba, com os melhores resultados, aparecem normalmente Chile e Costa Rica.

Desigualdade

O estudo mostrou, ainda, a influência que o Produto Interno Bruto (PIB) e a desigualdade social têm nos resultados educacionais. Quanto maior o PIB, melhores os resultados. Quanto maior a desigualdade, piores os resultados.

Apesar de ter a maior riqueza da América Latina, os resultados brasileiros apenas razoáveis na comparação com os vizinhos podem ser explicados pelo fato de o Brasil ser o país mais desigual das Américas e um dos mais desiguais do mundo.

No Ideb

Levantamento divulgado pelo Ministério da Educação na sexta-feira (20/6) mostrou que apenas 62 dos mais de 5,5 mil municípios brasileiros alcançaram Ideb igual ou maior do que 6 para alunos de 1.ª a 4.ª série da rede pública.

Nas turmas de 5.ª a 8.ª série, os avanços foram ainda menores. Somente dois municípios conseguiram chegar a essa média, equivalente a de países desenvolvidos. A escala do Ideb vai de 0 a 10. Acima de 5, o ensino pode ser considerado de boa qualidade.
(O Estado de SP, 24/6)

http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=56892

25 June 2008

Homero, a “Odisséia” e o eclipse de 16 de abril de 1178 a.C.

JC e-mail 3539, de 24 de Junho de 2008.
Astrônomos datam eclipse da “Odisséia” de Homero

Dupla recria o céu que poderia ser visto pelos personagens do clássico grego. Dia em que o rei Odisseu, de Ítaca, teria massacrado os pretendentes de Penélope foi 16 de abril de 1178 a.C., dez anos após Tróia cair

Historiadores, escritores e arqueólogos debatem há muito tempo sobre até que ponto a literatura da Grécia antiga é uma fonte histórica confiável. Se os relatos sobre o que ocorria na Terra naquela época ainda deixam margem de dúvida, porém, astrônomos acabam de mostrar que o grego Homero descrevia com grande rigor cronológico o que ocorria no céu. Um massacre descrito em sua “Odisséia” provavelmente aconteceu logo após um eclipse em 16 de abril de 1178 a.C.

A data -que se refere a um evento supostamente ocorrido dez anos depois da guerra de Tróia- surgiu dos cálculos de uma dupla de cientistas da Universidade Rockefeller, de Nova York. Constantino Baikouzis e Marcelo Magnasco vasculharam os textos de Homero atrás de uma série de referências astronômicas para tentar recompor os céus da época e resolver uma série de questões de interpretação sobre o texto.

Uma das dúvidas era se a própria menção do personagem Teoclímeno a uma “escuridão funesta” era mesmo a um eclipse. Ele faz uma espécie de presságio sobre o massacre que seria cometido pelo rei Odisseu ao voltar da guerra de Tróia. Após viagem tumultuada que durou dez anos, o monarca chegou a Ítaca para encontrar um séquito de pretendentes cobiçando sua mulher, Penélope, e decidiu matar todos.

Apesar de a linguagem metafórica da “Odisséia” deixar margem para dúvidas, a tese do eclipse é reforçada pelo fato de Homero mencionar que a noite seguinte ao massacre fora de Lua Nova, uma pré-condição necessária a um eclipse solar.

Como eclipses totais são fenômenos relativamente raros -ocorrem em média a cada 370 anos para cada ponto da Terra- não foi difícil escolher um como candidato: o de 1178 a.C., no oeste da Grécia, o mais próximo da data estimada da guerra de Tróia. Determinar o dia, porém, foi bem complicado.

“Há incertezas envolvidas em rastrear eclipses na antigüidade porque os relatos comprovados de eclipses mais antigos são do século 8 a.C.”, explicam Baikouzis e Magnasco. “A extrapolação para tempos anteriores envolve erros que aumentam exponencialmente, ao quadrado, com o tempo.”

Para tentar solucionar o enigma, a dupla de astrônomos resolveu estudar, então, os ciclos com que ocorrem outros eventos celestes mencionados na “Odisséia”, além do eclipse que marcou o massacre. Três deles pareciam particularmente aplicáveis à verificação.

Hermes e as estrelas

Quatro dias antes do massacre, segundo Homero, a “estrela d”alva” (Vênus) estava visível ao entardecer no alto do céu. Vinte e oito dias antes, as constelações do Boieiro e as Plêiades eram visíveis ao alvorecer. Trinta e três dias antes, Mercúrio estava se pondo no oeste.

“Naquele período, uma única data coincide com nossas referências: 16 de abril de 1178 a.C.”, escreveram Baikouzis e Magnasco em seu estudo, publicado hoje na revista “PNAS” (http://www.pnas.org). “A probabilidade de que referências puramente ficcionais a esses fenômenos coincidam por acaso com o único eclipse daquele século são minúsculas.”

Para incluir no estudo a referência a Mercúrio, porém, os astrônomos tiveram de fazer uma certa extrapolação poética. O que a “Odisséia” diz, na verdade, é que o deus Hermes (Mercúrio, na cultura romana), fez longa trajetória até o oeste para entregar uma mensagem.

“Devemos interpretar essa viagem como uma alusão ao movimento do planeta Mercúrio”, afirmam os cientistas, que reconhecem o risco de atuar, até certo limite, como críticos de literatura. “Se a identificação das passagens poéticas com os fenômenos estiverem incorretas, então todos os nossos cálculos serão um non sequitur [inconsistência lógica].”

Independentemente da verdade cronológica dos fatos, porém, a reconstituição do eclipse feita pelos cientistas sugere mesmo uma paisagem um tanto quanto apocalíptica.

“O eclipse foi espetacular (...), os cinco planetas visíveis a olho nu, a Lua e a coroa do Sol podiam ser vistos simultaneamente”, escrevem. Durante o evento, “a temperatura tem uma queda brusca de alguns graus, os ventos se alteram, os animais ficam inquietos e as faces humanas podem ficar com uma aparência empalidecida sob a luz azulada.”

Um momento macabro como esse bem pode ter sido inspiração para um massacre -ou para um verso.
(Folha de SP, 24/6)

http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=56895

24 June 2008

Gelo em Marte

JC e-mail 3538, de 23 de Junho de 2008.
Sonda americana escavou gelo em Marte

Material, que parecia sal, desapareceu do solo; água congelada pode ter se transformado em vapor

Felipe Maia escreve para a “Folha de SP”:

Técnicos da missão da sonda Phoenix estão convictos de que o material brilhante encontrado na superfície de Marte é gelo e não sal. Eles chegaram a essa conclusão porque quantidades do material que haviam sido fotografadas pela sonda desapareceram do solo -indicando que a água congelada se transformou em vapor após ter sido exposta ao ar rarefeito.

A Phoenix está em Marte desde o dia 25 de maio, com a missão de investigar as características da água e de outros materiais existentes no pólo Norte do planeta -procurando por condições propícias para a vida, como compostos orgânicos. Os cientistas querem saber se o gelo, que abunda no pólo Norte, já derreteu no passado, tornando Marte propício à vida.

"Tudo o que nós vimos nos espectros é consistente com [a existência de] gelo nas valas. As últimas imagens da vala mostram que o material brilhante está desaparecendo. Isso pode ser gelo sublimando, mas não sal", disse Nilton Rennó, cientista da Universidade do Arizona que participa da missão.

Segundo ele, os pesquisadores ainda analisam o assunto, mas "quase não há mais dúvidas" de que o material seja gelo. "Um dos nossos grandes medos na missão era cavar e não achar nada", disse Peter Smith, cientista-chefe da Phoenix.

Para confirmar a informação, a Phoenix vai colocar amostras da superfície em um instrumento chamado Tega (sigla em inglês para Analisador de Gás Térmico e Expandido).

Outra evidência de que o material é gelo é a dureza do solo encontrado próximo ao local em que a Phoenix está. Eles apostam que a sonda está fixada sobre um bloco de gelo. Outro buraco feito anteontem pela sonda achou material da mesma consistência, na mesma profundidade.

Falta de memória

Nesta semana, a Phoenix enfrentou problemas de memória e perdeu alguns dados. Rennó reconhece que o problema atrasou "um pouco" as pesquisas. Mas outras atividades foram mantidas, como cavar o solo e testar técnicas para colocar amostras nos experimentos.
(Folha de SP, 21/6)

http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=56866

22 June 2008

Ultima Era Glacial acabou abruptamente

JC e-mail 3537, de 20 de Junho de 2008.
Gelo mostra mudança abrupta do clima na Terra

Amostra da Groenlândia indica que temperatura subiu 10C de um ano ao outro. Pesquisa analisou gelo entre 1.452 m e 1.642 m de profundidade, do final da última era glacial e da transição para o interglacial

Afra Balazina escreve para a “Folha de SP”:

Um estudo do gelo da Groenlândia localizado entre 1.452 e 1.642 metros de profundidade indica que o clima se alterou abruptamente no fim da última era glacial e que a temperatura aumentou até 10C de um ano para outro. A pesquisa, publicada na revista "Science", lança um alerta para os cientistas em tempos de aquecimento global: transições dramáticas e totalmente imprevistas no clima podem acontecer em períodos extremamente curtos.

Sune Olander Rasmussen, da Universidade de Copenhague, afirmou à Folha que é preciso criar modelos que simulem as alterações abruptas do passado e, mais importante, que verifiquem se o clima tem "pontos de virada" -a partir dos quais ele muda de repente.

Segundo Rasmussen, os aquecimentos observados durante a era glacial (um há 14.700 anos e outro há 11.700 anos) mostram as alterações da circulação atmosférica de um ano para o outro. A última dessas viradas climáticas deu ao planeta a cara que ele tem hoje: as geleiras que cobriam boa parte do hemisfério Norte derreteram e o nível do mar subiu cerca de 100 metros.

Para chegar ao resultado, pesquisadores analisaram a quantidade de poeira, a composição da água e do ar preso no gelo. O gelo também indica que o aquecimento é iniciado com mudanças nas monções da região tropical, o que altera os padrões climáticos subitamente no pólo.

De acordo com Pedro Leite Dias, diretor do Laboratório Nacional de Computação Científica, um ponto notável da pesquisa é a resolução temporal -análise ano a ano do gelo. "Isso requer um nível de precisão no tratamento dessas amostras que seria inconcebível há cinco, seis anos atrás."

Ele também considera interessante o fato de o trabalho fazer conexão entre o que aconteceu na Groenlândia e algumas alterações climáticas na região equatorial. "Eu venho acompanhando alguns trabalhos sobre mudanças abruptas da região equatorial. E, em particular na África, há indícios de mudanças abruptas no clima nesse mesmo período, no final do último glacial", afirmou.

Botão

"Nós analisamos a transição da última era glacial até o presente período interglacial, e as mudanças no clima estão acontecendo tão de repente que é como se alguém tivesse apertado um botão", disse Dorthe Dahl-Jensen, também da Universidade de Copenhague.
Comparando a quantidade de poeira, oxigênio e hidrogênio nas camadas anuais dos testemunhos de gelo, os pesquisadores podem investigar como a mudança de clima se desenvolveu ano a ano. Rasmussen afirma que o próximo passo, agora, é estudar mais o passado do período interglacial.
(Folha de SP, 20/6)

http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=56834

19 June 2008

Novos três planetas extra-solares

JC e-mail 3534, de 17 de Junho de 2008.
Grupo encontra três "irmãos da Terra" em volta de estrela

Descoberta foi feita com telescópio europeu no Chile; é o 1º sistema extra-solar com várias "superterras" já identificado. Com o avanço tecnológico dos telescópios, achados como o feito por europeus serão mais comuns; céu do Atacama também ajudou

Eduardo Geraque escreve para a “Folha de SP”:

O céu sempre aberto do deserto do Atacama, no Chile, e o olhar cada vez mais preciso dos telescópios astronômicos estão por trás de uma descoberta anunciada ontem (16/6) que, tudo indica, será cada vez mais freqüente nos próximos anos.

Três planetas extra-solares, com massas relativamente próximas à da Terra, foram identificados por uma equipe de astrônomos europeus. Todos os astros orbitam a mesma estrela, a 42 anos-luz (400 trilhões de quilômetros) da Terra.

É a primeira vez que se descobre um sistema solar com múltiplos planetas rochosos, potenciais abrigos para vida extraterrestre. A imensa maioria dos planetas extra-solares detectados até agora é de gigantes gasosos como Júpiter, quentes demais e inabitáveis. Eles são mais fáceis de "enxergar".

Os astrônomos consideram parecidos com a Terra planetas que tenham até 15 vezes a sua massa. No novo sistema solar, as três "superterras" têm, respectivamente, 4,2, 6,7 e 9,4 vezes a massa terrestre. E as rotações desses corpos celestes duram 4,3, 9,6 e 20,4 dias.

"Para a astrobiologia é importante que planetas rochosos não muito maiores do que a Terra sejam encontrados. E isso é uma tendência, porque os instrumentos estão mais precisos", disse à Folha o astrofísico Carlos Wuensche, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

Dos 303 planetas identificados até hoje fora do Sistema Solar, segundo a Enciclopédia dos Planetas Extra-Solares (exoplanet.eu/catalog.php), a grande maioria, 246, foram encontrados de forma indireta, medindo-se a influência gravitacional deles sobre a luz emanada por suas estrelas. A mais recente descoberta de um sistema extra-solar, como foi dito ontem, não foge à regra.

A partir do observatório ESO (European Southern Observatory), em La Silla, no Atacama, os cientistas acompanharam a estrela HD40307 e suas três superterras durante cinco anos. "Nós fizemos medidas muito precisas durante esse tempo, que revelaram com clareza a presença dos três planetas", afirmou Michel Mayor, do Observatório Genebra, um dos autores da descoberta e um dos pioneiros da técnica de detecção de exoplanetas.

A relação entre a massa do menor dos três planetas e o seu sol dá a real dimensão da precisão das medidas do ESO. A diferença é de 100 mil vezes. "A perturbação induzida pelos planetas [na velocidade de deslocamento da estrela] é muito pequena, e somente a alta sensibilidade dos nossos instrumentos é capaz de detectar isso", diz François Bouchy, do Instituto de Astrofísica de Paris, na França, que também participou do estudo.

Na conferência científica realizada ontem, outros dois planetas extra-solares, que orbitam estrelas diferentes, foram apresentados. O menor tem 7,5 vezes a massa terrestre e, o maior, 22 vezes.
(Folha de SP, 17/6)

http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=56744

18 June 2008

Por que a revisão por pares está sob pressão no mundo acadêmico?

JC e-mail 3533, de 16 de Junho de 2008.
Por que a revisão por pares está sob pressão no mundo acadêmico?

“Apesar de muitos editores, autores e leitores relutarem em dispensar totalmente a revisão por pares, há várias formas mais práticas em discussão para melhorar o processo. A primeira é eliminar o máximo possível a parcialidade das revisões”

Clive Cookson e Andrew Jack escrevem para o “Financial Times”:

Quando os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos revelaram, na semana passada, planos de gastar US$ 1 bilhão ao longo dos próximos cinco anos em "pesquisa transformadora de alto risco, alto impacto", isso marcou o mais recente esforço de financiadores acadêmicos e editores de lidar com a crescente preocupação em torno de um processo no centro do progresso científico: a revisão por pares.

Pelo menos desde que o médico sírio Ishaq Bin Ali Al Rahwi descreveu como um conselho médico local verificava o cumprimento pelos médicos dos padrões de tratamento há mais de mil anos, a revisão por pares exerce um papel na ciência. Ela se tornou cada vez mais importante nos últimos anos como meio de racionar os financiamentos e publicações diante de uma proliferação de pesquisa acadêmica.

A revisão por pares guarda os portões em ambas as extremidades do processo de pesquisa -na obtenção de dinheiro para execução de um projeto e na publicação dos resultados em uma revista. Especialistas no campo, trabalhando individualmente ou em painéis, identificam as falhas e avaliam a importância do trabalho; a identidade dos revisores é normalmente desconhecida pelo autor.

Mas o processo está sob ataque dos críticos, que dizem ser ineficaz como filtro de pesquisa ruim, ao mesmo tempo que perpetua trabalhos previsíveis às custas de pensamento mais criativo. A longo prazo todos nós sofremos, argumenta Don Braben, da University College London, porque o crescimento econômico depende de avanços científicos imprevisíveis.

Em resposta às restrições percebidas do processo, pesquisadores estão usando a Internet para abrir novos caminhos de publicação que simplificam a revisão por pares -ou acaba com ela- enquanto várias das maiores entidades mundiais de financiamento científico estão promovendo mudanças radicais na forma como avaliam as propostas de pesquisa.

Na semana passada, 25 cientistas renomados escreveram ao "Financial Times" lamentando o fracasso das agências de financiamento em apoiar pesquisa "nas margens, onde descobertas imprevisíveis e transformadoras são feitas". Eles pediram por um fundo global para apoiar cientistas inspirados, livres da revisão por pares.

Então a Sociedade Real, a academia nacional de ciências do Reino Unido, disse estar preparando um projeto piloto para um fundo de pesquisa "céus azuis", que evitaria as restrições da revisão por pares convencional ao empregar um painel generalista para considerar propostas de qualquer campo, com base em sua novidade e potencial de abrir novas áreas de ciência e tecnologia.

Recentemente, a Fundação Bill & Melinda Gates, a caridade mais rica do mundo, revelou um "processo ágil, de concessão acelerada de financiamento", no valor de US$ 100 milhões, chamado Grand Challenges Explorations. "Nós precisamos contornar a revisão por pares -ela é uma anátema para a inovação", disse Tachi Yamada, o chefe de saúde global da fundação. "A inovação não tem pares, por definição."

Críticas à revisão por pares na subvenção e publicação não são novas. Drummond Rennie, professor de medicina da Universidade da Califórnia, San Francisco, escreveu um artigo no "Journal of the American Medical Association", em 1986, que provocou o nascimento de toda uma subdisciplina de análise da revisão por pares, com conferências regulares e uma série de trabalhos.

Ele escreveu na época: "Parece não haver estudo fragmentado demais, nenhuma hipótese trivial demais, nenhuma citação literária tendenciosa demais ou egotista demais, nenhum projeto deturpado demais, nenhuma metodologia atrapalhada demais, nenhuma contradição, nenhuma análise em causa própria, nenhum argumento circular demais, nenhuma conclusão insignificante demais ou injustificada, e nenhum erro de gramática ou sintaxe ofensivo demais para que um trabalho seja publicado".

"A revisão por pares é uma caixa preta um tanto arbitrária", concordou Richard Smith, autor de um livro sobre os fracassos dela e ex-editor da "BMJ", a revista médica britânica. "Ela é muito lenta, cara, uma loteria considerável, completamente sem esperança de detectar erros e fraude, e há evidência de parcialidade."

Ele disse que a análise por editores e pares reforça a "parcialidade na publicação", com artigos alegando que um teste clínico é eficaz sendo publicado, enquanto aqueles que mostram um resultado negativo não. Isto por sua vez cria um problema para a "meta-análise", que tenta entender se um medicamento funciona ao combinar todos os dados.

O dr. Smith agora edita a recém-lançada revista online "Case Reports", que fornece revisão mínima pré-publicação de artigos de medicina. O critério clássico de revisão por pares de originalidade ou importância são evitados, com todos os artigos submetidos sendo aceitos se forem compreensíveis e completos. "Nós simplesmente não começamos a usar as possibilidades da Internet", ele disse.

Outras revistas seguiram uma rota semelhante, como várias publicadas online pela Public Library of Science (Plos), que avalia o conteúdo técnico, mas não julga a importância do novo estudo.

Mas poucos estão dispostos a abandonar totalmente o processo. "A revisão por pares é o padrão ouro", disse Mark Patterson, diretor de publicação da Plos. "Ela ainda é o melhor processo que temos para julgar o rigor do processo científico. Há melhorias de eficiência que precisam ser promovidas, mas não se pode restringi-la caso queira publicar ciência séria."

O que um crescente número de revistas faz online -incluindo a "Plos One" e "BMJ" por meio de suas "respostas rápidas" – é encorajar os leitores a comentarem após a publicação, fornecendo uma forma de avaliação e revisão por pares retrospectiva.

Muitos cientistas em física, matemática e assuntos relacionados vão ainda mais longe. Eles postam os trabalhos sem qualquer revisão por pares no arXiv.org, um arquivo internacional de trabalhos eletrônicos mantido pela Universidade de Cornell, Nova York, que agora contém quase 500 mil "e-prints" -e então permite que outros os contestem.

Mas John Dainton, um professor de física da Universidade de Liverpool, reconheceu: "Às vezes nós queremos a publicação mais rápida possível, mas sempre há um certo orgulho em publicar nas revistas mais citadas, mais renomadas".

Linda Miller, editora-executiva da "Nature", concordou que os cientistas continuam buscando a publicação em revistas de prestígio visando melhorar sua própria posição. Eles também se concentram na leitura das mais renomadas, precisamente porque o tempo deles é precioso. "Você deseja ser direcionado, usar as melhores revistas como um filtro", ela disse. "Eu sou editora há mais de 20 anos e já lidei com muitos trabalhos. Cada um deles foi melhorado pela revisão por pares."

Apesar de muitos editores, autores e leitores relutarem em dispensar totalmente a revisão por pares, há várias formas mais práticas em discussão para melhorar o processo. A primeira é eliminar o máximo possível a parcialidade das revisões, que pode recomendar a não publicação por causa de rivalidades pessoais -ou por esnobismo em relação a pesquisadores que trabalham fora das instituições mais prestigiadas.

Algumas revistas como a "BMJ" identificam os nomes dos revisores em um esforço para responsabilizá-los, apesar disso poder impedi-los de serem francos para não correrem o risco de "retaliação" dos autores. Outras tentaram revisões "duplo-cego" que ocultam a identidade de ambos os lados, maior discussão entre os revisores, feedback ou mesmo uma cotação de seus comentários.

Uma segunda preocupação é a velocidade da publicação. Quando seis voluntários que testavam um medicamento experimental no Northwick Park Hospital de Londres sofreram efeitos colaterais severos em março de 2006, houve um enorme interesse em entender o que saiu errado. Mas foram necessários cinco meses até que os detalhes viessem a público, quando os médicos que salvaram as vidas deles publicaram suas experiências no "New England Journal of Medicine" -um trâmite relativamente rápido no meio das publicações acadêmicas.

Patterson argumenta que as demoras são freqüentemente resultado de "ineficiência editorial" tanto quanto de falhas na revisão por pares: um esboço de artigo pode ser submetido a uma revista de prestígio, rejeitado e então oferecido em seqüência para outras, cada uma com novos revisores atrasando ainda mais a publicação.

A mesma coisa acontece cada vez mais com os pedidos de verbas que são rejeitados por uma agência de financiamento, alterados ligeiramente e então enviados para uma cadeia de outras agências. A solução aqui deve ser uma maior colaboração e referência entre revistas e financiadores, e maior compartilhamento das mesmas revisões para acelerar o processo.

Uma questão final é a capacidade dos revisores de assegurar tanto a alta qualidade quanto as opiniões rápidas. "Um motivo para todo o sistema estar rangendo é a 'fadiga do árbitro'", disse Alf Game, vice-chefe de ciência do Conselho de Pesquisas em Biotecnologia e Ciências Biológicas (BBSRC) do Reino Unido. Na maioria dos campos, o número de propostas de pesquisa e trabalhos científicos está aumentando mais rapidamente do que o número de cientistas ativos qualificados a revisá-los. Os conselhos de pesquisa britânicos recebem mais que o dobro de propostas que recebiam há 20 anos.

"A demanda por árbitros está aumentando", disse o dr. Game. "O BBSRC é uma entidade de financiamento relativamente pequena, mas precisamos de 10 mil comentários individuais de revisão a cada ano para avaliar 2.500 pedidos. E temos que pedir para muito mais pessoas comentarem antes de conseguirmos uma que aceite."

Atualmente a probabilidade é muito maior dos árbitros trabalharem na mesma área estreita que o autor da proposta de pesquisa ou trabalho do que há 20 anos, e eles têm interesse em manter contato com as atividades dos concorrentes. Mas estes árbitros com interesses próprios não podem ter uma visão ampla e objetiva do trabalho.

Como os fundos são limitados, alguma avaliação das pessoas e propostas é necessária. A questão é como fazê-la. "A chave é usar a revisão por pares mais criativamente, porque não dá para escapar da necessidade de fazer escolhas", disse Mark Walport, diretor do Wellcome Trust, a maior caridade de pesquisa do Reino Unido. "Uma coisa é dar aos pesquisadores mais tempo. Nós prolongamos a duração de nossas bolsas para cinco anos. O importante então é escolher os melhores cientistas, com base na empolgação que exibem na entrevista em vez de detalhes de seus projetos propostos."

O Instituto Médico Howard Hughes acabou de dedicar US$ 600 milhões para dar a 56 cientistas "a oportunidade de trabalhar em seus planos de pesquisa mais ambiciosos, mais arriscados", após a realização de sua primeira competição aberta, baseada na Internet. Thomas Cech, seu presidente, disse: "Eles receberão um financiamento irrestrito de longo prazo de cerca de US$ 1 milhão por ano, livre de exigências de revisão."

Até mesmo a União Européia, antes notória por seu processo burocrático de financiamento, apresentou um procedimento de revisão simplificado para o novo Conselho Europeu de Pesquisa, que gastará 7,5 bilhões de euros ao longo de sete anos para apoiar a excelência científica independente da nacionalidade.

"Nós tivemos que descartar muita da antiga bagagem e estamos sendo experimentais, em vez de aceitarmos a forma como as coisas eram feitas no passado", disse Fotis Kafatos, o presidente do Conselho Europeu de Pesquisa. "Por exemplo, nós insistimos para que nossos painéis de revisão fossem pequenos e generalistas. Há um senso geral entre os chefes das maiores organizações de pesquisa (...) de que o processo de revisão por pares é conservador demais."

Após mais de duas décadas debatendo a revisão por pares, o prof. Rennie disse que a questão é muito mais complexa do que ele originalmente pensava. Ele acredita que ainda não surgiu uma alternativa melhor, nem há prova de que ela impeça a inovação. "Eu sou a pessoa mais cética, mas o que faríamos se não tivéssemos a revisão por pares?"

A revisão por pares pode não ser imortal, e pode estar experimentando com formatos diferentes, mas parece que guardará os portões da pesquisa ainda por algum tempo.
(Financial Times, 12/6)


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17 June 2008

Energia e massa escura ainda sem modelo teórico

JC e-mail 3533, de 16 de Junho de 2008.
Energia misteriosa faz dez anos sem ganhar explicação

Força que faz Universo crescer de forma acelerada desafia físicos teóricos, e astrônomos ainda esperam "ajuda do céu". Entidade física de natureza desconhecida -batizada de energia escura-, vai contra a gravidade, afastando as galáxias umas das outras

Rafael Garcia escreve para a “Folha de SP”:

Uma das maiores descobertas da história da astronomia está completando uma década neste ano, mas cientistas não têm muita motivação para comprar um bolo e tornar a data uma comemoração. Em 1998, dois grupos de pesquisa independentes descobriram que o Universo está se expandido de maneira acelerada -algo que ninguém esperava. Passados dez anos, a força que move esse fenômeno já tem um nome -energia escura-, mas ninguém ainda sabe o que ela é.

"Não estamos mesmo muito mais perto da resposta do que estávamos antes", disse à Folha Robert Kirshner, astrônomo da Universidade Harvard, de Cambridge (EUA). "Mas estamos bem convencidos hoje de que essa coisa existe, e esse sinal não se foi nos últimos anos. Na verdade se tornou melhor, mais evidente."

Kirshner foi um dos astrônomos com papel crucial na descoberta de 1998. Ele inventou uma maneira de analisar a luz de supernovas (explosões de estrelas) em galáxias que se afastam da Terra a alta velocidade para estimar quão distantes elas estão. Sob liderança de Adam Riess, ex-aluno de Kirshner, astrônomos usaram essa técnica para fazer um grande mapeamento do Universo, mostrando que as galáxias mais distantes estão se afastando cada vez mais rápido.

Os astrônomos demoraram para acreditar no que estavam vendo. Já se sabia desde 1929 que o Universo estava em um movimento de expansão, que tinha iniciado com o impulso do Big Bang, a explosão que o originou. Todos achavam, porém, que a força da gravidade de toda a massa que existe no cosmo acabaria freando esse impulso alguma hora.

"No final de 1997, quando estavam saindo as primeiras análises de Adam Riess, ele me disse "Cuidado aí! Parece que nós estamos obtendo massa negativa". Eu respondi então: "Você deve estar fazendo algo errado. Tem certeza de que não esqueceu de dividir por pi?"."

Mas não era um erro na fórmula. Os astrônomos ficaram tão chocados quanto Isaac Newton ficaria ao ver uma maçã caindo para cima. Não é possível perceber a energia escura em pequena escala -maçãs costumam cair para baixo aqui na Terra-, mas na escala cosmológica essa força está agindo contra a gravidade, afastando as galáxias umas das outras.

Problema constante

Sem dados experimentais que possam sugerir o que é a energia escura, cientistas voltaram então para a teoria. Algo que poderia explicar a energia escura era um conceito antigo criado por Albert Einstein. Sua teoria da relatividade geral indicava que a gravidade deveria fazer o Universo encolher, mas o grande físico acreditava num cosmo imóvel, parado. Sua solução foi postular uma força repelente para fechar as contas.

A essa nova força -uma tentativa de resolver o problema "na marra"- o físico deu o nome de "constante cosmológica". O que a idéia implicava era um tanto absurdo: o vácuo, ou seja, o nada, conteria energia.

Aparentemente, na década de 1930, Einstein acabou sucumbindo às provas de que o Universo estava mesmo em expansão e se afastou do debate. Após a descoberta da expansão acelerada em 1998, porém, físicos ressuscitaram sua idéia: a energia escura talvez seja a constante cosmológica.

A essas alturas, a energia do vácuo já não era uma idéia tão absurda, e tinha sido até mesmo postulada na forma de "partículas virtuais" pelos físicos quânticos. Com base nisso, então, teóricos calcularam qual seria o valor da constante cosmológica se ela fosse mesmo o impulso do "vazio quântico". Só que a conta não fechou.

"A energia escura é ridiculamente pequena, e a energia do vácuo teórica é ridiculamente grande", explica Raul Abramo, físico da USP (Universidade de São Paulo). "Seria como casar uma ameba com uma baleia."

Outros teóricos postulam que a energia escura seja uma outra força da natureza, uma espécie de "antigravidade". Para isso, porém, precisaria haver evidência de que ela varia no espaço e no tempo. Em outras palavras, seria preciso essa energia não ser "constante". Mas até onde a precisão dos telescópios permite ver, ela é.

Para sair da enrascada, físicos esperam agora a chegada de dados de supertelescópios, mas nada garante que imagens mais precisas tragam novas idéias.

Nova geração de supertelescópios renova esperança

Apesar de cosmólogos estarem um tanto quanto imobilizados na busca de uma solução teórica para o problema da energia escura, cientistas que fazem o trabalho "braçal" na área -construir e operar telescópios- vislumbram uma oportunidade de ouro.

Um congresso no mês passado no Observatório Nacional, no Rio de Janeiro, reuniu representantes de vários novos projetos de observação que podem jogar luz sobre o enigma. Alguns deles, que começarão a operar na próxima década, ajudarão a investigar como a gravidade e a energia escura atuam em cada nível. Uma boa varredura no céu mostra como as estrelas se agrupam para formar galáxias, como surgem aglomerados de galáxias, como estes se juntam em superaglomerados e assim em diante.

"Numa varredura profunda, podemos ver mais objetos, e podemos aprender algo novo", diz John Peoples, um dos idealizadores do DES (Dark Energy Survey), projeto que "turbinou" o telescópio Blanco, no Chile, para essa e outras tarefas. "Pode ser que não aprendamos algo [sobre energia escura] agora, mas a astronomia se trata disso: ampliar a fronteira."

O DES, que será o primeiro projeto desenhado especificamente para tratar da energia escura, deve começar a operar em 2010. O Brasil, que ajudou a projetar os softwares que comandarão o telescópio, participará também da análise científica dos dados. É possível que surja alguma pista sobre propriedades ainda não conhecidas da energia escura ou -mais improvável- da gravidade.

Depois do DES, diversos projetos mais ousados devem entrar em cena. A Europa discute até a construção de um telescópio espacial. Até lá, pode-se descobrir, por exemplo, que a energia escura é variável. O que isso significaria? "Aí não é mais com a gente, aí os físicos de partícula que vão ter que explicar para a gente o que faz isso acontecer", diz Luiz Nicolaci da Costa, do Observatório Nacional, um dos brasileiros no DES.
(Folha de SP, 15/6)

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14 June 2008

Pesquisas científicas destroçadas

JC e-mail 3530, de 11 de Junho de 2008.
Pesquisas científicas destroçadas

Movimento da Via Campesina invadiu Estação Experimental em Carpina

Atos de vandalismo resultaram, ontem, em perdas para a ciência. Numa ação rápida e organizada, os trabalhadores rurais da Via Campesina ocuparam e destruíram parte da Estação Experimental de Cana-de-Açúcar (EECAC), localizada no município de Carpina, Zona da Mata Norte de Pernambuco. Mais do que prejuízos financeiros, o ação causou prejuízo científico.

Cerca de 30 mil mudas de cana melhoradas em laboratório foram pisoteadas. Pesquisas que já duravam dez anos, completamente destroçadas e, no campo, dois hectares inteiros de cana que estavam sendo utilizados para estudos de combate a fungos acabaram sendo destruídos.

Prejuízo também para estudantes que perderam pesquisas para monografias de mestrado e doutorado em andamento na casa de vegetação, onde as mudas eram aclimatadas, e nos estaleiros, onde as plantas eram analisadas no dia-a-dia. A Polícia Federal abrirá inquérito. O movimento, ligado ao MST, justificou o ato como repúdio à monocultura da cana-de-açúcar no estado. Outras ações foram realizadas em várias partes do país.

"Foi um ato de vandalismo sem precedentes. A estação existe há 38 anos e nunca havíamos sofrido nenhuma ocupação porque os movimentos rurais entendiam que aqui nós estávamos procurando avanços para todos, inclusive para os pequenos produtores", explicou o gestor da EEACA, Djalma Euzébio.

A estação faz parte de uma Parceria Público-Privada entre a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e o Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool do estado (Sindaçúcar). O centro desenvolve tecnologia para a Rede Interuniversitária de Desenvolvimento do Setor Sulcroalcooleiro (Ridesa), que repassa os avanços para 28 usinas locais e para programas governamentais de distribuição de sementes, como o Promata.

Perdas

A estação de Carpina é, inclusive, a principal fornecedora de material genético para a produção das mudas de cana nas biofábricas da região. "Todos os setores têm acesso aos projetos que nós desenvolvemos e, com o melhoramento da cana, geramos ainda muitos empregos diretos e indiretos", completou Djalma Euzébio.

"O que eles não pensaram é que essa ação pode resultar em perdas na empregabilidade", disse o presidente do Sindaçúcar, Renato Cunha. A diretora nacional do Movimento Sem Terra, Messilene Gorete, justificou a invasão à Estação Experimental como uma forma de protesto ao monocultivo de cana-de-açúcar em Pernambuco. "O desenvolvimento das mudas é direcionado apenas para os usineiros", disse.

Os membros da Via Campesina chegaram na estação por volta das 4h da madrugada em dois ônibus e duas vans, segundo a direção do centro. "Eles renderam o vigia e invadiram o local quebrando tudo o que viram pela frente. Não respeitaram nada. Eram mais de cem pessoas enfurecidas que em cerca de uma hora deixaram um rastro incomensurável de destruição", afirmou Djalma Euzébio.

No local, são investidos mais de R$ 3 milhões anualmente, dinheiro proveniente das usinas ligadas ao Sindaçúcar e mais outros R$ 3 milhões que são captados por projetos de pesquisa vinculados à UFRPE. Um desses estava sendo desenvolvido pela fitopatologista Andréa Chaves. "Estava há cinco anos trabalhando em novas técnicas de combate às doenças da cana e tive todos os meus experimentos destroçados. Anos de esforço jogados no chão e pisoteados", disse Andréa, que chegou a passar mal quando viu os estragos provocados pelos trabalhadores.

Ato em repúdio à monocultura

O rastro de destruição deixado pelos trabalhadores da Via Campesina em Carpina foi apenas uma etapa da Jornada Nacional de Luta do movimento que teve início ontem no país.

Em Pernambuco, os agricultores protestaram contra o avanço do monocultivo de cana-de-açúcar na Zona da Mata que, segundo eles, tem aumentado ainda mais a miséria e a concentração de terra em uma região que já sofre com a pobreza e a opressão. Outra queixa dos sem-terra foi sobre o uso do terreno para o desenvolvimento de pesquisas voltadas para o setor privado.

"Ao invés da UFRPE, que é uma instituição pública, investir o dinheiro do povo em pesquisas que beneficiem os camponeses, ela usa nosso dinheiro em estudos que promovem o monocultivo de cana-de-açúcar para o mercado externo, provocando a elevação dos preços dos alimentos e aumentando o número de trabalhadores em condições de quase escravidão", disse a diretora nacional do Movimento dos Sem Terra, Messilene Gorete. Ela afirmou ainda que o movimento apoiaria as pesquisas desenvolvidasna estação se elas estivessem sendo usadas para o benefício do povo.

As justificativas, porém, foram rebatidas pelo presidente do Sindaçúcar, Renato Cunha. "O ato dos sem-terra foi mesquinho e lamentável. A estação de Carpina desenvolve tecnologia para todos. Eles destruíram material genético que seria utilizado tanto pelos grandes como pelos pequenos produtores".

Cunha explicou, ainda, que muitas pesquisas que foram destroçadas na manhã de ontem nem ao menos seriam encaminhadas para as usinas. "O que eles acabaram matando foi o trabalho de muitos estudantes da UFRPE que estavam finalizando suas monografias de mestrado e doutorado. Uma incoerência", observou.

Celeiro genético

A Estação Experimental de Cana-de-Açúcar (EECAC) de Carpina constitui o maior celeiro genético dos cruzamentos de cana do Nordeste, gerando anualmente novas variedades da planta e introduzindo o cultivo em outros centros produtores do país.

A estação possui 450 hectares pertencentes à UFRPE e faz parte da Rede Interuniversitária para o Desenvolvimento Sulcroalcooleiro (Ridesa), que engloba também as universidades federais de Alagoas, Sergipe, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Goiás. Essa rede conduz o Programa de melhoramentos Genético da Cana-de-Açúcar no Brasil.

Desde 1993, a estação fechou um convênio com o Sindaçúcar e ampliou o programa, atendendo 28 usinas e destilarias nos estados de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. As variedades criadas no local e introduzidas no mercado são estudadas e direcionadas cientificamente para as condições de solo e clima do Nordeste.

"O local realiza, por exemplo, pesquisas para criar variedades mais resistentes a doenças como escaldadura das folhas e ferrugem", disse o presidente do Sindaçúcar, Renato Cunha.

A unidade realiza também o monitoramento em fitossanidade, que é o caminho para a aproximação entre a produtividade das duas regiões canavieiras: o Norte e o Nordeste, que são responsáveis por cerca de 14% do total de cana cultivada no país. "Trabalhamos para melhorar os cultivos que já existem, permitindo a otimização das plantações tanto de larga escala, quanto da agricultura familiar", concluiu a fitopatologista Andréa Chaves.
(Thatiana Pimentel, do Diário de Pernambuco, 11/6)


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12 June 2008

Telescópio espacial de raios gama

JC e-mail 3530, de 11 de Junho de 2008.
Telescópio espacial de raios gama decola nesta quarta-feira

Visto de fora, o telescópio é uma caixa quadrada com dois metros de largura sem espelhos ou lentes, mas é justamente sua engenharia diferenciada que permitirá estudar com detalhamento sem precedentes a origem dos raios gama

Rafael Garcia escreve para a “Folha de SP”:

O novo telescópio da Nasa que deve decolar hoje (11/6) rumo ao espaço não se parece muito com um telescópio. Visto de fora, o Glast é uma caixa quadrada com dois metros de largura sem espelhos ou lentes, mas é justamente sua engenharia diferenciada que permitirá estudar com detalhamento sem precedentes a origem dos raios gama, o tipo de radiação mais energético que existe.

"Pela primeira vez, vamos aplicar a tecnologia de detectores de partículas no espaço, e isso vai revolucionar a física de raios gama", diz o brasileiro Eduardo do Couto e Silva, vice-diretor de um dos centros de operações do Glast -sigla em inglês para Telescópio Espacial de Grande Área de Raios Gama.

O observatório é composto basicamente de um rastreador de trajetórias de partículas e de um calorímetro (medidor de energia). Sua missão é fazer uma varredura diária do céu para mapear fontes de raios gama e registrar sua dinâmica.

Essa radiação emana, por exemplo, de núcleos de galáxias com grandes buracos negros, que podem vir a ser melhor entendidos com o Glast. Ele também investigará misteriosas explosões de raios gama registradas diariamente no espaço com origem desconhecida.

"Uma dificuldade de compreender esses fenômenos é que as energias para alimentá-los são muito grandes, e processos nucleares [como os de estrelas] não são capazes disso", diz Couto. "Achamos que está relacionado com buracos negros, mesmo." As observações do Glast, diz, ajudarão a verificar se a hipótese é correta.

Pela primeira vez, também, será possível estudar física de partículas no espaço, da mesma maneira como já se faz nos aceleradores de partículas na Terra. O Glast poderá detectar, por exemplo, uma partícula hipotética batizada de neutralino. Talvez ela seja aquilo que físicos chamam de "matéria escura" -a matéria mais abundante do Universo, mas que, também, ninguém sabe o que é.

Se o tempo ajudar, o foguete que leva o Glast ao espaço decola hoje na Flórida entre 13h45 e 14h40 (hora de Brasília).
(Folha de SP, 11/6)


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09 June 2008

Telescópio Espacial James Webb

JC e-mail 3528, de 09 de Junho de 2008.
Nasa começa a polir espelho de supertelescópio

Projeto do James Webb, sucessor do Telescópio Espacial Hubble, está definido. Observatório que ficará a 1,5 milhão de quilômetros da Terra verá galáxias quase no limite do Universo com seu espelho de 6,6 metros

Rafael Garcia escreve para a “Folha de SP”:

A Nasa já conseguiu tirar do papel todo o projeto do Telescópio Espacial James Webb, o sucessor do Hubble, e já começou há alguns meses a polir os segmentos do espelho gigante que servirá como "lente de aumento" do novo observatório orbital. Segundo Jonathan Gardner, chefe do Laboratório de Cosmologia Observacional da agência espacial, nada deve deter agora os planos de colocar o Webb em órbita até 2013.

"Temos o dinheiro, temos tempo e temos o plano", afirmou o astrofísico durante uma apresentação detalhada do projeto no fim de maio em um congresso no Observatório Nacional, no Rio de Janeiro. "Os EUA estão dando US$ 4,5 bilhões para o projeto. Os europeus não contam quanto estão gastando, mas têm o foguete que vai lançá-lo e contribuem para diversos instrumentos -eu diria que algo na escala de 10% a 15% [do orçamento americano]."

O James Webb -batizado em homenagem ao diretor da Nasa na década de 1960- terá diâmetro quase três vezes maior que o Hubble e permitirá enxergar galáxias a 13,4 bilhões de anos-luz de distância, quase no limite do Universo.
"No ano passado acabamos de desenvolver todas as invenções e novas tecnologias de que precisávamos, e neste ano terminamos o projeto", diz Gardner. "E já começamos a construir o espelho primário, recortado em metal berílio, porque é a coisa que leva mais tempo."

As outras partes do telescópio, como o escudo que vai protegê-lo da radiação solar e o satélite que vai guiá-lo, devem começar a ser construídas em 2009.
O James Webb tem aspecto bem diferente do Hubble por fora, que por fora é como um grande tubo. O sistema de funcionamento, porém, é o mesmo: um espelho côncavo primário que agrupa os feixes de luz da imagem, ampliando-a, e um espelho secundário que direciona os raios para ajustes finais e para a os instrumentos de detecção e análise.

O que tornará o Webb mais potente, em parte, é seu tamanho maior, só que isso implica engenharia diferenciada. "O foguete Ariane [que lançará o Webb] tem 5 m de largura, e para colocar um espelho de 6,6 m nele, teremos que dobrá-lo."

O novo telescópio, porém, terá outro salto de qualidade em relação ao Hubble: ele será capaz de enxergar muito melhor no infravermelho -a forma em que a luz das galáxias mais distantes do Universo chega à Terra. Para isso, porém, o telescópio terá de funcionar a uma baixíssima temperatura (-225C), que será garantida por seu escudo solar de cinco camadas -basicamente, é o guarda-sol mais refrescante já projetado.

"Infravermelho é calor. Se quisermos usar o telescópio para observar no infravermelho, temos que protegê-lo de seu calor para evitar interferências", explica Gardner. "Se não fizermos isso, será como usar um telescópio durante o dia aqui na Terra."

Já se passaram mais de cinco anos desde a concepção original do James Webb, e agora restam mais cinco anos até seu lançamento. Pode parecer muito tempo, mas agenda dos mais de 2.000 cientistas que trabalham no projeto vai estar cheia até lá. O esforço tem de ser concentrado todo nesse período, por uma razão simples: o Webb não poderá falhar no espaço.

Se o telescópio parar de funcionar a 1,5 milhão de quilômetros da Terra, tudo se acabará. "Não temos planos de mandar humanos tão longe para consertá-lo", diz Gardner. É totalmente diferente de trabalhar com o Hubble, que está com uma de suas câmaras quebradas: ele será arrumado por astronautas em outubro. Até 2013, diz Gardner, a maior parte do tempo dos cientistas será gasta com exaustivos testes de cada uma das peças do Webb.
(Folha de SP, 8/6)

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04 June 2008

Nordeste e Sul terão mais 4 usinas nucleares

JC e-mail 3525, de 04 de Junho de 2008.

Nordeste e Sul terão mais 4 usinas nucleares, diz Lobão

Além da construção de novas usinas, obras de Angra 3 serão retomadas neste ano. Lobão disse que estudos para definir detalhes estão em fase final; cada região deverá ter duas usinas, mas localização não foi revelada

Valdo Cruz escreve para a “Folha de SP”:

O ministro Edison Lobão (Minas e Energia) disse à Folha que o governo "vai construir mais quatro usinas nucleares no Nordeste e no Sul do país", além de retomar as obras de Angra 3 ainda neste ano.

Segundo Lobão, já há uma predefinição do governo pela construção das novas usinas nucleares e muito provavelmente "serão duas no Nordeste e duas no Sul". "Estamos na fase final do processo de estudos para definir detalhes, como a localização das novas usinas", revelou o ministro, que defende a energia nuclear como fonte segura para o país.

A escolha do Sul e do Nordeste se deve ao fato de que as regiões enfrentam atualmente dificuldades no abastecimento de energia e dependem das usinas situadas no Sudeste. O governo decidiu optar pela construção de usinas nucleares para evitar falta de energia no país a partir de 2011 e 2012, gargalo que deve surgir no cenário brasileiro caso sejam mantidas as taxas de crescimento na casa de 5% nos próximos anos.

Lobão acredita que hoje o uso da energia nuclear sofre menos resistências do que no passado, principalmente depois que a França desenvolveu um processo de reaproveitamento do lixo atômico. "Havia muito preconceito em relação à energia nuclear, mas ela é supersegura e o problema do lixo foi equacionado", afirmou.

Questionado se a decisão seria criticada pelo ministro Carlos Minc (Meio Ambiente), que é contrário a esse tipo de energia, Lobão afirmou que "ele é um sujeito muito sensato, vai fazer o que é bom para o país, e isso [a energia nuclear] é bom para o país".

Quanto à retomada das obras de Angra 3, o ministro avalia que dentro de "dois a três meses" o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) concederá a licença para o reinício da construção.

Angra 3 deve entrar em operação em 2013, com investimentos de R$ 7,2 bilhões e potência para gerar 1.350 megawatts. As obras, paralisadas há mais de 20 anos, serão tocadas pela construtora Andrade Gutierrez, vencedora da licitação ainda no governo militar.

Baixo investimento

Ao defender as usinas nucleares, Lobão lembrou que, apesar de esse tipo de energia custar o dobro da gerada por hidrelétricas, há a compensação por conta do baixo investimento nas linhas de transmissão.

"Uma coisa compensa a outra. Como as usinas são localizadas perto dos centros consumidores, você nem precisa investir em linhas de transmissão para fazer chegar a energia às empresas e às residências."

A ex-ministra Marina Silva era contra a retomada de Angra 3, defendida pela ministra Dilma Rousseff (Casa Civil). Antes de assumir, Minc disse que respeitaria a decisão do governo.
(Folha de SP, 4/6)

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03 June 2008

CNPq regulamenta política de propriedade intelectual

JC e-mail 3521, de 29 de Maio de 2008.

CNPq regulamenta política de propriedade intelectual

Titularidade da patente caberá à instituição na qual as pesquisas são realizadas

O CNPq acaba de regulamentar a atribuição de direitos sobre criações intelectuais, originadas a partir de auxílios e bolsas concedidos pela Agência, e a participação nos ganhos econômicos decorrentes da exploração de patente ou direito de proteção.

Com esta política, o CNPq espera promover a proteção do conhecimento e a transferência de produtos e processos, obtidos no ambiente acadêmico, para o setor produtivo.

Várias modificações no cenário legal e científico brasileiro demandavam uma atualização e uma revitalização da política de Propriedade Intelectual do CNPq, entre as quais se destacam a entrada em vigor da Lei de Inovação e a conseqüente criação de Núcleos de Inovação Tecnológica (NITs) nas instituições de ensino e pesquisa brasileiras.

Após várias reuniões e discussões, realizadas ao longo de mais de dois anos, das quais participaram gestores de inovação das mais renomadas instituições de pesquisa e ensino brasileiras, definiu-se a norma de propriedade intelectual que já se encontra em vigor. Este processo foi coordenado pela vice-presidente do CNPq, Wrana Panizzi, em colaboração com a Procuradoria Federal junto a esta agência.

De acordo com a norma, a titularidade da patente caberá à instituição na qual as pesquisas são realizadas, e ao CNPq caberá, na condição de agência de fomento, uma participação nos ganhos econômicos eventuais resultantes da exploração comercial das criações protegidas.

O texto completo da Resolução Normativa (RN 013/2008) pode ser acessado em http://www.cnpq.br/normas/rn_08_013.htm.
(Assessoria de Comunicação Social do CNPq)

http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=56358