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Phoenix chega a Marte

JC e-mail 3518, de 26 de Maio de 2008.

Após 9 meses, Phoenix chega a Marte

Sonda da Nasa deve aterrissar hoje à noite em missão que não busca seres vivos, mas água, imprescindível para a vida

Carlos Orsi escreve para a “Folha de SP”:

A tarde de ontem (25/5) - noite, no Brasil – pode ter sido tensa no Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da Nasa, em Pasadena, Califórnia. Pouco antes das 17 horas (21 horas no horário de Brasília), nove meses depois de ter sido lançada e após percorrer 679 milhões de quilômetros, a sonda Phoenix, um sofisticado robô-laboratório construído a um custo de US$ 460 milhões, iniciará sua entrada na atmosfera de Marte.

Descer no planeta não é trivial: das 14 tentativas realizadas até hoje, feitas por americanos, russos ou pela Agência Espacial Européia (ESA), apenas seis, ou menos de 50%, foram bem-sucedidas. E isso se for considerado bem-sucedido o caso de uma sonda soviética que só funcionou por 20 segundos após o pouso. A própria Phoenix, programada para descer perto do Pólo Norte marciano, marca o “renascimento das cinzas” da Mars Polar Lander, perdida durante a descida em 1999.

“Estamos bastante cautelosos”, diz o principal executivo da missão no quartel-general da Nasa, Ramon de Paula, engenheiro brasileiro, nascido em Guaratinguetá, no interior de São Paulo. “Há muitos riscos, muitos fatores desconhecidos, mas também muitas oportunidades. Tivemos de enfrentar vários desafios de engenharia para preparar o pouso, e as condições da atmosfera e do solo em Marte serão críticas.”

A descida da Phoenix começará com a separação do “estágio de cruzeiro”. O dispositivo é o responsável pelas manobras realizadas pela nave no caminho entre a Terra e Marte e será descartado. Em seguida, a sonda vai realizar um giro, a fim de garantir que seu escudo térmico aponte para baixo, e mergulhará enfim na atmosfera marciana.

O que segue serão cerca de sete minutos nos quais a sonda Phoenix usará o atrito de seu escudo de calor com o ar marciano, um pára-quedas e, finalmente, foguetes para reduzir a velocidade de 20.000 km/h trazida do espaço.

Foguetes também ajudarão a sonda a manobrar até um local de pouso seguro. Durante a descida, um radar analisará o terreno em busca de irregularidades na superfície ou rochas que possam representar ameaça para a Phoenix.

Se tudo tiver dado certo, 20 minutos depois de tocar o solo, a sonda abrirá seus coletores de energia solar para iniciar uma missão prevista para durar três meses. Entre as atividades programadas estão fazer várias fotos do planeta e escavações do solo marciano e do gelo debaixo dele para recolher e analisar amostras.

Meta modesta

Ao contrário das duas sondas Viking de 1976, que escavaram e testaram solo marciano para tentar detectar vida, a Phoenix tem uma meta mais modesta. Procurará “apenas” matéria orgânica e condições para a vida, não seres vivos.

“Não estamos procurando vida”, diz De Paula. “O que mudou, de lá para cá, foi que descobrimos que esse fator, procurar vida, é muito difícil, e até muito relativo”, explica.

Os resultados das Vikings acabaram sendo considerados inconclusivos. Atualmente, a maioria dos cientistas acredita que os possíveis sinais de vida detectados na época em que as duas sondas esmiuçaram o planeta representaram um falso positivo, provocado pelas propriedades químicas do solo de Marte.

De Paula lembra ainda que, nos anos 70, sabia-se bem menos sobre as propriedades do subsolo marciano. “É provável que as Vikings tenham sido mandadas para uma região seca demais para ter vida”, afirma o brasileiro.

“O que supomos, baseado no que se sabe sobre a vida na Terra, é que a vida, para existir, precisa de água líquida e de matéria orgânica”, diz o executivo. “Então, vamos ver se existem moléculas orgânicas, ou gelo misturado ao solo, o que seria um sinal de que já houve água líquida ali. Com essa informação, poderemos criar experimentos mais específicos para o futuro, por exemplo, para detectar DNA.”

Se alguma bactéria nativa de Marte passar pelos instrumentos da Phoenix, a sonda não será capaz de reconhecê-la, diz o executivo. “Ela provavelmente seria destruída durante os experimentos.”

Braço de titânio

Para evitar contaminar o subsolo do planeta, onde a presença de material biológico é mais provável, o braço-robô da sonda Phoenix, encarregado das escavações, recebeu um revestimento especial. Antes disso, foi esterilizado. E essa proteção extra só será removida depois que a sonda descer em Marte.

O braço, feito de titânio e alumínio, tem mais de 2 metros de comprimento, conta com uma junta, como um cotovelo, e é capaz de escavar até a meio metro de profundidade. Sua ponta é equipada com um coletor e uma lima elétrica, que será usada para raspar o gelo que deve existir por baixo da camada mais superficial de solo. Tem ainda uma câmera montada logo acima do coletor que fará imagens coloridas do interior das valas escavadas.

O material recolhido será analisado por dois instrumentos: um deles é o analisador térmico e de gás, que vai aquecer amostras e examinar os gases liberados, em busca de água, gás carbônico e matéria orgânica. Esse analisador é composto por oito fornos, capazes de aquecer as amostras até 1.000°C, e que só serão usados uma vez cada um.

O segundo instrumento, analisador de microscopia, eletroquímica e condutividade, tem quatro ferramentas. Três delas submeterão as amostras recolhidas pelo braço a diversos testes, como de pH e solubilidade, e a exames de microscópio. A quarta inserirá eletrodos no solo marciano para ver como a superfície conduz eletricidade.

Uma câmera capaz de fazer imagens 3D e em vários comprimentos de onda, e uma estação meteorológica criada pelo Canadá, completam o pacote científico da missão.

Responsável pela missão

O engenheiro Ramon de Paula, de 55 anos, natural de Guaratinguetá, no interior paulista, é o executivo responsável pela missão Phoenix e e pela sonda orbital Mars Reconnaissance Orbiter (MRO) no quartel-general da Nasa, em Washington. Neste domingo, ele está na Califórnia para acompanhar a descida da Phoenix e, na próxima semana, irá a Tucson, Arizona, para supervisionar o início das operações científicas da missão.

“O mais importante é descer direito”, diz ele, sobre a expectativa gerada pela chegada da Phoenix a Marte. “A missão não é só científica, ela representa também vários avanços de engenharia, desafios que tivemos de resolver nos últimos anos para reduzir os riscos do pouso”, afirma.

Até mesmo o descarte do estágio de cruzeiro, um módulo que a Phoenix abandonará no espaço antes de entrar na atmosfera marciana, representa uma ameaça em potencial à missão.

“Há vários conectores que têm de ser separados de um jeito certo”, afirma. Todas as etapas da descida em Marte, envolvendo escudo de calor, pára-quedas, radar e foguetes “precisam funcionar como um relógio”.

Irregularidades na superfície também podem ser um problema para a missão. “A gente procurou tirar muitas fotografias, para ter certeza de que o lugar é plano.”

Filho de militar

De Paula vive nos EUA desde 1969, quando seu pai, militar da Aeronáutica, foi transferido para o país. Ele chegou aos EUA aos 17 anos e não acompanhou a família na volta ao Brasil: completou o ensino médio, fez faculdade, mestrado e doutorado por lá.

“Minha esposa é brasileira, mas a conheci aqui, na faculdade”, diz o executivo, que costuma vir ao Brasil duas vezes ao ano, para visitar os pais e os sogros. “A última vez foi no Natal. Neste ano, ainda não estive aí”, conta.

O engenheiro iniciou sua carreira profissional num laboratório da Marinha americana e, em 1985, foi trabalhar no Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da Nasa, na Califórnia, passando depois para o quartel-general da agência espacial, em Washington.
(O Estado de SP, 25/5)

http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=56280

Publicado em 29 de maio de 2008 às 06:36 por appoloni

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