JC e-mail 3519, de 27 de Maio de 2008.
Brasileiro vai investigar meteorologia de Marte
Engenheiro considerou pouso de sonda "perfeito"
O engenheiro brasileiro Nilton Rennó, 48, professor da Universidade de Michigan, é o líder do grupo que investigará as condições atmosféricas de Marte na missão com a sonda espacial Phoenix, que aterrissou anteontem (25/5) no pólo Norte do planeta vermelho.
Existem quatro grupos de investigação -de química, biologia, ciências atmosféricas e geologia. No caso do grupo do brasileiro, os principais interesses são estudar a composição da atmosfera de Marte, verificar a troca de gases entre solo e atmosfera e investigar o ciclo da água -que é essencial para a existência de vida.
Ontem (26/5), a espaçonave-robô começou a testar seus instrumentos. E já enviou diversas imagens de Marte. Uma delas mostra um padrão poligonal no solo perto da sonda -similar em aparência ao solo congelado ("permafrost") do Ártico. Esse aspecto pode ser resultado de congelamentos e descongelamentos da superfície do solo.
Algumas fotos mostram uma paisagem desoladora, de solo pedregoso. Outras confirmam que os painéis solares, indispensáveis para a provimento de energia à Phoenix, abriram conforme o previsto.
A sonda coletará amostras de gelo e de solo com um braço robótico para verificar se o local pode ser um habitat propício para a vida microbiana. "Agora, a primeira coisa é entender bem o lugar onde a sonda pousou para saber onde é melhor cavar e colher amostras", afirmou o engenheiro. A missão está prevista para durar três meses, mas, segundo Rennó, pode ser prorrogada para seis meses.
Lágrimas
Rennó considera que o pouso da Phoenix, a principal preocupação da agência espacial Nasa, "não podia ter sido mais perfeito". "Foi muita tensão. E, depois, muita emoção", afirmou o cientista, que admitiu ter derramado "muitas lágrimas".
O motivo da apreensão era o fato de a Phoenix usar um sistema de aterrissagem com foguetes retropropulsores semelhante ao da sonda Mars Polar Lander, que falhou ao tentar descer em Marte em 1999. "É tudo muito arriscado nesse tipo de missão. Mas o primeiro dia foi incrível, impressionante."
Formado na Universidade Estadual de Campinas, Rennó foi para os EUA para fazer doutorado no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) e não voltou mais. Desde 2001, está envolvido no projeto da Phoenix.
(Folha de SP, 27/5)
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=56306
JC e-mail 3518, de 26 de Maio de 2008.
Após 9 meses, Phoenix chega a Marte
Sonda da Nasa deve aterrissar hoje à noite em missão que não busca seres vivos, mas água, imprescindível para a vida
Carlos Orsi escreve para a “Folha de SP”:
A tarde de ontem (25/5) - noite, no Brasil – pode ter sido tensa no Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da Nasa, em Pasadena, Califórnia. Pouco antes das 17 horas (21 horas no horário de Brasília), nove meses depois de ter sido lançada e após percorrer 679 milhões de quilômetros, a sonda Phoenix, um sofisticado robô-laboratório construído a um custo de US$ 460 milhões, iniciará sua entrada na atmosfera de Marte.
Descer no planeta não é trivial: das 14 tentativas realizadas até hoje, feitas por americanos, russos ou pela Agência Espacial Européia (ESA), apenas seis, ou menos de 50%, foram bem-sucedidas. E isso se for considerado bem-sucedido o caso de uma sonda soviética que só funcionou por 20 segundos após o pouso. A própria Phoenix, programada para descer perto do Pólo Norte marciano, marca o “renascimento das cinzas” da Mars Polar Lander, perdida durante a descida em 1999.
“Estamos bastante cautelosos”, diz o principal executivo da missão no quartel-general da Nasa, Ramon de Paula, engenheiro brasileiro, nascido em Guaratinguetá, no interior de São Paulo. “Há muitos riscos, muitos fatores desconhecidos, mas também muitas oportunidades. Tivemos de enfrentar vários desafios de engenharia para preparar o pouso, e as condições da atmosfera e do solo em Marte serão críticas.”
A descida da Phoenix começará com a separação do “estágio de cruzeiro”. O dispositivo é o responsável pelas manobras realizadas pela nave no caminho entre a Terra e Marte e será descartado. Em seguida, a sonda vai realizar um giro, a fim de garantir que seu escudo térmico aponte para baixo, e mergulhará enfim na atmosfera marciana.
O que segue serão cerca de sete minutos nos quais a sonda Phoenix usará o atrito de seu escudo de calor com o ar marciano, um pára-quedas e, finalmente, foguetes para reduzir a velocidade de 20.000 km/h trazida do espaço.
Foguetes também ajudarão a sonda a manobrar até um local de pouso seguro. Durante a descida, um radar analisará o terreno em busca de irregularidades na superfície ou rochas que possam representar ameaça para a Phoenix.
Se tudo tiver dado certo, 20 minutos depois de tocar o solo, a sonda abrirá seus coletores de energia solar para iniciar uma missão prevista para durar três meses. Entre as atividades programadas estão fazer várias fotos do planeta e escavações do solo marciano e do gelo debaixo dele para recolher e analisar amostras.
Meta modesta
Ao contrário das duas sondas Viking de 1976, que escavaram e testaram solo marciano para tentar detectar vida, a Phoenix tem uma meta mais modesta. Procurará “apenas” matéria orgânica e condições para a vida, não seres vivos.
“Não estamos procurando vida”, diz De Paula. “O que mudou, de lá para cá, foi que descobrimos que esse fator, procurar vida, é muito difícil, e até muito relativo”, explica.
Os resultados das Vikings acabaram sendo considerados inconclusivos. Atualmente, a maioria dos cientistas acredita que os possíveis sinais de vida detectados na época em que as duas sondas esmiuçaram o planeta representaram um falso positivo, provocado pelas propriedades químicas do solo de Marte.
De Paula lembra ainda que, nos anos 70, sabia-se bem menos sobre as propriedades do subsolo marciano. “É provável que as Vikings tenham sido mandadas para uma região seca demais para ter vida”, afirma o brasileiro.
“O que supomos, baseado no que se sabe sobre a vida na Terra, é que a vida, para existir, precisa de água líquida e de matéria orgânica”, diz o executivo. “Então, vamos ver se existem moléculas orgânicas, ou gelo misturado ao solo, o que seria um sinal de que já houve água líquida ali. Com essa informação, poderemos criar experimentos mais específicos para o futuro, por exemplo, para detectar DNA.”
Se alguma bactéria nativa de Marte passar pelos instrumentos da Phoenix, a sonda não será capaz de reconhecê-la, diz o executivo. “Ela provavelmente seria destruída durante os experimentos.”
Braço de titânio
Para evitar contaminar o subsolo do planeta, onde a presença de material biológico é mais provável, o braço-robô da sonda Phoenix, encarregado das escavações, recebeu um revestimento especial. Antes disso, foi esterilizado. E essa proteção extra só será removida depois que a sonda descer em Marte.
O braço, feito de titânio e alumínio, tem mais de 2 metros de comprimento, conta com uma junta, como um cotovelo, e é capaz de escavar até a meio metro de profundidade. Sua ponta é equipada com um coletor e uma lima elétrica, que será usada para raspar o gelo que deve existir por baixo da camada mais superficial de solo. Tem ainda uma câmera montada logo acima do coletor que fará imagens coloridas do interior das valas escavadas.
O material recolhido será analisado por dois instrumentos: um deles é o analisador térmico e de gás, que vai aquecer amostras e examinar os gases liberados, em busca de água, gás carbônico e matéria orgânica. Esse analisador é composto por oito fornos, capazes de aquecer as amostras até 1.000°C, e que só serão usados uma vez cada um.
O segundo instrumento, analisador de microscopia, eletroquímica e condutividade, tem quatro ferramentas. Três delas submeterão as amostras recolhidas pelo braço a diversos testes, como de pH e solubilidade, e a exames de microscópio. A quarta inserirá eletrodos no solo marciano para ver como a superfície conduz eletricidade.
Uma câmera capaz de fazer imagens 3D e em vários comprimentos de onda, e uma estação meteorológica criada pelo Canadá, completam o pacote científico da missão.
Responsável pela missão
O engenheiro Ramon de Paula, de 55 anos, natural de Guaratinguetá, no interior paulista, é o executivo responsável pela missão Phoenix e e pela sonda orbital Mars Reconnaissance Orbiter (MRO) no quartel-general da Nasa, em Washington. Neste domingo, ele está na Califórnia para acompanhar a descida da Phoenix e, na próxima semana, irá a Tucson, Arizona, para supervisionar o início das operações científicas da missão.
“O mais importante é descer direito”, diz ele, sobre a expectativa gerada pela chegada da Phoenix a Marte. “A missão não é só científica, ela representa também vários avanços de engenharia, desafios que tivemos de resolver nos últimos anos para reduzir os riscos do pouso”, afirma.
Até mesmo o descarte do estágio de cruzeiro, um módulo que a Phoenix abandonará no espaço antes de entrar na atmosfera marciana, representa uma ameaça em potencial à missão.
“Há vários conectores que têm de ser separados de um jeito certo”, afirma. Todas as etapas da descida em Marte, envolvendo escudo de calor, pára-quedas, radar e foguetes “precisam funcionar como um relógio”.
Irregularidades na superfície também podem ser um problema para a missão. “A gente procurou tirar muitas fotografias, para ter certeza de que o lugar é plano.”
Filho de militar
De Paula vive nos EUA desde 1969, quando seu pai, militar da Aeronáutica, foi transferido para o país. Ele chegou aos EUA aos 17 anos e não acompanhou a família na volta ao Brasil: completou o ensino médio, fez faculdade, mestrado e doutorado por lá.
“Minha esposa é brasileira, mas a conheci aqui, na faculdade”, diz o executivo, que costuma vir ao Brasil duas vezes ao ano, para visitar os pais e os sogros. “A última vez foi no Natal. Neste ano, ainda não estive aí”, conta.
O engenheiro iniciou sua carreira profissional num laboratório da Marinha americana e, em 1985, foi trabalhar no Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da Nasa, na Califórnia, passando depois para o quartel-general da agência espacial, em Washington.
(O Estado de SP, 25/5)
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=56280
JC e-mail 3517, de 23 de Maio de 2008.
Grupo flagra "último suspiro" de estrela
Em lance de sorte, telescópio de raios X da Nasa fotografou uma supernova, o instante da morte estelar, desde seu início
Um grupo de astrônomos divulgou ontem as imagens de uma supernova -explosão estelar- documentada desde seu início. Em um golpe de sorte, cientistas que trabalham com o satélite Swift, da Nasa, detectaram uma grande fonte emissora de raios X em 9 de janeiro deste ano, e diversos telescópios poderosos foram apontados para o local a fim de registrar o processo de explosão.
Como as supernovas são eventos relativamente raros, os cientistas não tinham até hoje feito nenhuma detecção precoce de uma delas. Só se conseguia apontar os telescópios para elas quando o processo de explosão já está avançado.
"Durante anos nós sonhamos em observar uma estrela bem no momento de sua explosão", afirma Alicia Soderberg, astrônoma da Universidade de Princeton (EUA), que lidera o grupo autor da descoberta. "Nós estávamos no lugar certo, na hora certa, com o telescópio certo, em 9 de janeiro e testemunhamos a história."
Grosso modo, uma supernova é a morte de uma estrela bem maior do que o Sol. Quando a fusão nuclear que alimenta seu brilho cessa por falta de combustível, o astro colapsa em sua própria gravidade -"cai sobre si mesmo". Toda a matéria em contração então quica no centro da estrela e é lançada para fora, numa violenta expansão. O que resta de matéria, perto do núcleo, forma uma esfera densa e fria, chamada estrela de nêutrons, ou então origina um buraco negro.
A supernova encontrada pela equipe de Soderberg está na galáxia NGC 2770, a 88 milhões de anos-luz da Terra. Como a luz demora para chegar dessa distância até aqui, a observação recente significa na verdade que a estrela explodiu 88 milhões de anos atrás.
Mutirão astronômico
"Usando os telescópios mais poderosos da Terra e do espaço para observar luz visível, ondas de rádio e raios X, nós conseguimos observar a evolução da explosão desde o começo", diz Edo Berger, da Instituição Carnegie de Washington, colaborador de Soderberg. "Isso confirmou que aquela grande explosão de raios X marcou o nascimento da supernova."
O comportamento da supernova, batizada com a sigla 2008D, está descrito na edição de hoje da revista científica britânica "Nature". O trabalho teve a participação de 38 cientistas de diversas partes do mundo. Entre os instrumentos usados para observar o evento estão o Telescópio Espacial Hubble, o Observatório Chandra de Raios X e o telescópio Keck 1.
O "mutirão" reuniu dados que ajudarão a detectar outras supernovas com antecedência. "Instrumentos astronômicos planejados para o futuro poderiam então nos permitir finalmente desvendar o mistério sobre como essas explosões ocorrem", diz Soderberg.
Retrato em raios X
Supernovas são normalmente detectadas visualmente dias ou semanas depois de terem efetivamente iniciado, quando já estão mais brilhantes. Os cientistas, porém, observaram que o início do evento tem forte emissão de partículas conhecidas como neutrinos e produz uma onda de choque que superaquece o gás nas camadas exteriores da estrela. Esse gás emite raios X, então, o que pode ser a primeira pista para o cataclismo que vem depois.
"Essa observação é, de longe, o melhor exemplo de o que acontece quando uma estrela morre e dá origem a uma estrela de nêutrons", afirma Kim Page, da Universidade de Leicester (Inglaterra), que liderou a análise de raios X. (Da Reuters)
(Folha de SP, 22/5)
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=56247