Magnetar - estrela supermagnética
reproduzido de:
JC e-mail 3456, de 25 de Fevereiro de 2008.
Telescópio vê surgimento de estrela supermagnética
Sonda espacial que enxerga raios-X flagra transformação inédita na astronomia. Astro de campo magnético 100 bilhões de vezes mais forte que o do Sol nasce a partir de estrela "queimada" com rotação hiper-rápida
Um grupo de astrônomos americanos anunciou na semana passada ter conseguido observar um fenômeno totalmente inesperado pela física. Enquanto monitoravam uma estrela de nêutrons -estrela "queimada", que explodiu após queimar todo seu combustível nuclear- cientistas a flagraram se transformando em um "magnetar", o tipo de objeto cósmico com o campo magnético mais forte que se conhece.
"Estamos vendo um tipo de estrela de nêutron literalmente se transformar em outro, bem na frente dos nossos olhos", diz o astrofísico Fotis Gavriil, do Centro Goddard da Nasa (agência espacial americana), de Greenbelt (EUA), em comunicado à imprensa. Gavriil e colegas relataram sua descoberta na última sexta-feira (22/2), em estudo no site revista "Science" (http://www.sciencexpress.org).
A estrela de nêutrons que o grupo do cientista estava observando com o RXTE (telescópio espacial Rossi, detector de raios X) era do tipo "pulsar", que gira extremamente rápido. A transformação era inesperada pelos cientistas porque pulsares e magnetares são tipos de estrelas de nêutrons com comportamentos bem diferentes.
Um pulsar tem esse nome porque emite pulsos de ondas de rádio. É como observar um farol giratório em uma ilha distante; cada vez que o feixe de luz passa por nossos olhos, vemos sua torre acender e apagar. Um pulsar, porém, tem uma taxa de giro muito mais rápida -dando dezenas ou centenas de voltas por segundo- e emite ondas de rádio em vez de luz.
Já um magnetar é uma estrela de nêutrons bem diferente, que não possui rotação tão rápida nem emite ondas de rádio no mesmo padrão observado pelos pulsares. Sua característica mais distinta é a abundante emissão de raios X e raios gama -tipos de radiação extremamente energética-, propelidos por um campo magnético incrivelmente forte.
Enquanto uma estrela como o Sol tem um campo magnético de cerca de 0,001 tesla (unidade de medida para magnetismo), o campo de um magnetar possui algo da ordem de 1 bilhão de teslas. A descoberta de Gavriil foi importante porque os cientistas não sabiam muito bem como um magnetar surge.
"Magnetares são, na verdade, objetos muito raros", explica a astrofísica Victoria Kaspi, da Universidade McGill, de Montreal (Canadá), que também participou do estudo. "A existência deles só ficou estabelecida nos últimos dez anos, e nós conhecemos apenas um punhado deles em toda a galáxia."
Enquanto o número de pulsares catalogados está na casa dos 1.800, o número de magnetares não passa de 12. Segundo Kaspi, a observação do RXTE que identificou uma fonte de raios X em um pulsar fornece o primeiro indício de que há uma relação estreita entre magnetares e pulsares.
Evolução estelar
"Essa fonte pode estar evoluindo para se tornar um magnetar, ou pode estar apenas exibindo propriedades similares às de um magnetar", diz a astrofísica. "Só que ainda não sabemos. Estamos muito ansiosos para descobrir."
A estrela de nêutrons na qual o RXTE detectou o estranho comportamento, a 20 mil anos luz da Terra, ainda não foi batizada. É identificada pelo código "PSR J1846" e fica no meio dos restos de uma supernova -explosão estelar- registrada com o código Kes 75. O que os cientistas acharam estranho é que seu campo magnético era baixo demais para que ela estivesse se transformando num magnetar.
Kaspi afirma que será importante a partir de agora acompanhar com zelo o comportamento desta e de outras estrelas de nêutrons para ter certeza se os magnetares nascem a partir dos pulsares ou se apenas apresentam comportamento hipermagnético de vez em quando. "O campo magnético de PSR J1846 pode ser muito mais forte do que apontou a medição, sugerindo que muitas estrelas de nêutrons jovens classificadas como pulsares possam ser magnetares disfarçados", diz.
(Folha de SP, 25/2)
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=54473
JC e-mail 3456, de 25 de Fevereiro de 2008.
Telescópio vê surgimento de estrela supermagnética
Sonda espacial que enxerga raios-X flagra transformação inédita na astronomia. Astro de campo magnético 100 bilhões de vezes mais forte que o do Sol nasce a partir de estrela "queimada" com rotação hiper-rápida
Um grupo de astrônomos americanos anunciou na semana passada ter conseguido observar um fenômeno totalmente inesperado pela física. Enquanto monitoravam uma estrela de nêutrons -estrela "queimada", que explodiu após queimar todo seu combustível nuclear- cientistas a flagraram se transformando em um "magnetar", o tipo de objeto cósmico com o campo magnético mais forte que se conhece.
"Estamos vendo um tipo de estrela de nêutron literalmente se transformar em outro, bem na frente dos nossos olhos", diz o astrofísico Fotis Gavriil, do Centro Goddard da Nasa (agência espacial americana), de Greenbelt (EUA), em comunicado à imprensa. Gavriil e colegas relataram sua descoberta na última sexta-feira (22/2), em estudo no site revista "Science" (http://www.sciencexpress.org).
A estrela de nêutrons que o grupo do cientista estava observando com o RXTE (telescópio espacial Rossi, detector de raios X) era do tipo "pulsar", que gira extremamente rápido. A transformação era inesperada pelos cientistas porque pulsares e magnetares são tipos de estrelas de nêutrons com comportamentos bem diferentes.
Um pulsar tem esse nome porque emite pulsos de ondas de rádio. É como observar um farol giratório em uma ilha distante; cada vez que o feixe de luz passa por nossos olhos, vemos sua torre acender e apagar. Um pulsar, porém, tem uma taxa de giro muito mais rápida -dando dezenas ou centenas de voltas por segundo- e emite ondas de rádio em vez de luz.
Já um magnetar é uma estrela de nêutrons bem diferente, que não possui rotação tão rápida nem emite ondas de rádio no mesmo padrão observado pelos pulsares. Sua característica mais distinta é a abundante emissão de raios X e raios gama -tipos de radiação extremamente energética-, propelidos por um campo magnético incrivelmente forte.
Enquanto uma estrela como o Sol tem um campo magnético de cerca de 0,001 tesla (unidade de medida para magnetismo), o campo de um magnetar possui algo da ordem de 1 bilhão de teslas. A descoberta de Gavriil foi importante porque os cientistas não sabiam muito bem como um magnetar surge.
"Magnetares são, na verdade, objetos muito raros", explica a astrofísica Victoria Kaspi, da Universidade McGill, de Montreal (Canadá), que também participou do estudo. "A existência deles só ficou estabelecida nos últimos dez anos, e nós conhecemos apenas um punhado deles em toda a galáxia."
Enquanto o número de pulsares catalogados está na casa dos 1.800, o número de magnetares não passa de 12. Segundo Kaspi, a observação do RXTE que identificou uma fonte de raios X em um pulsar fornece o primeiro indício de que há uma relação estreita entre magnetares e pulsares.
Evolução estelar
"Essa fonte pode estar evoluindo para se tornar um magnetar, ou pode estar apenas exibindo propriedades similares às de um magnetar", diz a astrofísica. "Só que ainda não sabemos. Estamos muito ansiosos para descobrir."
A estrela de nêutrons na qual o RXTE detectou o estranho comportamento, a 20 mil anos luz da Terra, ainda não foi batizada. É identificada pelo código "PSR J1846" e fica no meio dos restos de uma supernova -explosão estelar- registrada com o código Kes 75. O que os cientistas acharam estranho é que seu campo magnético era baixo demais para que ela estivesse se transformando num magnetar.
Kaspi afirma que será importante a partir de agora acompanhar com zelo o comportamento desta e de outras estrelas de nêutrons para ter certeza se os magnetares nascem a partir dos pulsares ou se apenas apresentam comportamento hipermagnético de vez em quando. "O campo magnético de PSR J1846 pode ser muito mais forte do que apontou a medição, sugerindo que muitas estrelas de nêutrons jovens classificadas como pulsares possam ser magnetares disfarçados", diz.
(Folha de SP, 25/2)
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=54473