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28 January 2008

Tempestades em Júpiter

Reproduzido de:
JC e-mail 3439, de 28 de Janeiro de 2008.

Tempestades mudam a face de Júpiter

Grupo de astrônomos, incluindo um brasileiro, observa astro ser varrido e ficar tingido de vermelho

Igor Zolnerkevic escreve para a “Folha de SP”:

Quando estiver preso em um engarrafamento causado pelas chuvas, relaxe. Olhe para o céu e pense: "Podia ser dez vezes pior, podia ser uma tempestade monstro de Júpiter". Ano passado, nuvens tempestuosas com mais de 100 km de altura varreram o planeta Júpiter, dando uma retocada em seu famoso visual de faixas coloridas.

Uma equipe internacional de 25 astrônomos profissionais e amadores, incluindo um brasileiro, observou duas dessas tempestades tingir de vermelho uma faixa branca no hemisfério norte do maior planeta do sistema solar.

Fotos tiradas no início de 2007 no quintal de casa por Fábio Carvalho, de São Carlos (SP), e por mais dois astrônomos amadores na Austrália, chamaram a atenção de pesquisadores que consultavam na internet os arquivos de associações internacionais de astrofotógrafos.

Eles notaram o que parecia o topo redondo de uma coluna de nuvens brancas tempestuosas crescendo e emergindo, como um cogumelo de bomba atômica, acima da eterna cobertura jupiteriana de nuvens em redemoinhos.

Em 25 de março de 2007, nove horas depois do telescópio espacial Hubble começar a monitorar a tempestade em Júpiter, outra coluna surgiu na mesma região do planeta. As duas se formaram na crista da corrente de ar mais veloz de Júpiter, situada no meio de seu hemisfério norte.

Em pouco mais de um dia atingiram 2.000 km de extensão, e mais tarde cobriam uma área maior do que a da Lua. Elas circundaram Júpiter a uma velocidade de 600km/h, deixando um rastro rubro de turbulência que coloriu a faixa branca.

Durante mais de 45 dias, astrônomos amadores em vários países ajudaram a acompanhar o movimento das duas tempestades, complementando as observações pontuais do Hubble e do Telescópio Infravermelho da NASA, no Havaí.

A análise dessas observações, publicada na revista científica "Nature" da semana passada, ajuda a entender melhor ventos fortes e estreitos chamados de correntes de jatos, que circulam tanto na alta atmosfera de Júpiter quanto na terrestre. "Em Júpiter, há 16 desses jatos que, ninguém sabe como, criam o padrão de faixas coloridas do planeta", explica Augustín Sánchez-Lavega, da Universidade do País Basco, Espanha, principal autor do estudo.

Na Terra, há apenas dois jatos, um em cada hemisfério. Eles serpenteiam constantemente ao redor do globo a uma altura de mais ou menos 12 km. Suas freqüentes mudanças influenciam o tempo em todo o planeta. "Muitas entradas de frentes frias em São Paulo são causadas por variações nas correntes de jato", diz o meteorologista Amauri de Oliveira, da Universidade de São Paulo, que não participou da pesquisa.

Os jatos de Júpiter, pelo contrário, são quase retos e mudam pouco. Muito raramente -como foi observado em 1975, 1990 e agora em 2007-, duas tempestades brotam do pico dos jatos e perturbam os céus do planeta. "Parece um fenômeno periódico, algo surpreendente em uma atmosfera turbulenta e caótica como a de Júpiter", diz Sánchez-Lavega.

O estudo dele indica que as tempestades se formam quando uma coluna de 120 km de nuvens sobe 30 km acima do topo da cobertura normal de nuvens da atmosfera de Júpiter. Essas nuvens trazem à tona cristais de gelo de água, amônia e sulfidrato de amônio, que em contato com a luz do sol deixam o ar avermelhado.

Essas nuvens sobem movidas pelo calor produzido no interior de Júpiter, concluíram os pesquisadores. Ao contrário da Terra, onde a força de ventos e chuvas vem do calor do Sol, acredita-se que a principal fonte de energia da circulação atmosférica em Júpiter é o calor produzido quando o seu núcleo de hidrogênio líquido e metálico encolhe, comprimido pelo próprio peso.

O planeta é essencialmente uma bola de gás 1.300 vezes maior que a Terra, mas que diminui de tamanho mais ou menos 3 cm todo ano.

"Nós examinamos só o creme por cima de um bolo de informações", diz Glenn Orton, do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, co-autor do estudo. A campanha de observações de 2007 coincidiu com a passagem por Júpiter da sonda New Horizons da NASA, em sua jornada rumo a Plutão. A New Horizons fotografou de perto tempestades estranhas no hemisfério sul que os pesquisadores também estão analisando.
(Folha de SP, 28/1)

http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=53970

24 January 2008

Quatro anos em Marte

Reproduzido de:
JC e-mail 3437, de 24 de Janeiro de 2008.

Robôs completam 4 anos em solo marciano

Já são mais de 200 mil imagens, 30 gigabaites de informação e a certeza de que houve água

Roberta Jansen escreve para “O Globo”:

A mais ambiciosa missão jamais realizada em solo marciano já contabiliza a geração de mais de 200 mil imagens, um total de 30 gigabaites de informação e uma certeza agora incontestável: houve água em abundância no passado de Marte e pode ter havido formas microbiológicas de vida.

O balanço dos quatro anos da missão dos robôs Spirit e Opportunity no planeta vermelho é bastante positivo, na análise de Paulo Souza, o especialista brasileiro que integra a Mars Explorer Rover, da Agência Espacial Americana.

A missão, lançada em janeiro de 2004, tinha como objetivo principal buscar evidências geológicas e climáticas da presença de água no planeta. Até então, havia uma discussão incessante sobre o tema, com diversos estudos contraditórios publicados.

Buscar comprovação da presença de água era apontado como o ponto de partida para estudar a existência de formas de vida.

— Mudamos muito o nosso conhecimento sobre Marte — afirma Paulo Souza. — Há quatro anos (ainda que houvesse alguns indícios) não tínhamos a comprovação de nenhum robô atestando a presença de minerais que precisam de água para se formar. Os que pousaram antes encontraram apenas deserto. E a água é a questão mais importante. Porque não há forma de vida, na Terra ao menos, que não precise de água.

Presença de água no subsolo ainda é mistério

Nesse sentido, sustenta o cientista, a missão foi muito bem sucedida ao atestar, por meio da composição química das rochas encontradas e analisadas pelos robôs, que houve muita água em estado líquido no passado do planeta.

— Marte teve vários tipos de água: sistemas hidrotermais, gêisers, oceanos — sustenta Souza. — Tivemos água aparecendo com uma diversidade muito interessante, como acontece na Terra.

Uma outra certeza obtida com os dados enviados pelos robôs é que, hoje, não há água em estado líquido na superfície do planeta. Há fortes indícios de que existe gelo nos pólos e a missão Phoenix está a caminho com o objetivo de testar essa hipótese in loco — uma missão anterior, em 2001, falhou ao tentar o pouso. Se há água no subsolo, diz Souza, é mais difícil de inferir por enquanto, embora não seja uma hipótese descartada.

— Toda essa água que havia na superfície, nós acreditamos que tenha evaporado — conta o cientista. — É certo que não há água líquida hoje na superfície e, ainda que houvesse, ela duraria muito pouco tempo; se evaporaria e se perderia na atmosfera. Mas não temos praticamente nenhuma informação sobre o que ocorre abaixo da superfície. Pode sim, haver lençóis freáticos, água subterrânea e, portanto, pode haver formas de vida.

Missões anteriores já atestavam a presença, em Marte, de outros nutrientes que sustentam a vida, como nitrogênio, fósforo, carbono e energia, tanto a do Sol quanto a proveniente de processos térmicos. O que faltava na equação era a água.

— Nosso conhecimento sobre a possibilidade de vida em Marte avança bastante com os dados desta missão — acredita Souza. — Agora podemos falar sobre vida em Marte com a voz mais grossa, com mais propriedade, porque sabemos que havia as condições necessárias para a formação de vida: nutrientes, energia e água. E quando esses três elementos estão juntos, a vida tende a se formar e a se manter.

Mas que ninguém espere por homenzinhos esverdeados. O consenso hoje na comunidade científica é que, se houve vida no planeta vermelho, ela ocorreu na forma microbiológica, como vírus e bactérias. Uma informação chave nessa equação da qual os especialistas ainda não dispõem é saber por quanto tempo houve água em Marte. Esse dado é crucial para que se possa inferir que tipo de vida teria tido tempo de evoluir.

— Se a água existiu por um período longo, em tese houve tempo para a reprodução de formas mais evoluídas — explica o cientista. — Mas essas são questões que ainda não podemos responder. O que temos hoje são dois geólogos em Marte. É possível que, nas próximas missões, tenhamos robôs arqueólogos ou biólogos, que possam analisar possíveis fósseis ou indícios de vida presente.

A primeira missão a pousar em Marte foi a Viking, em 1976. Na época, foram obtidas análises de rochas e gases. Mas como não havia a possibilidade de deslocamento pelo solo, a nave ficou restrita ao seu local de pouso. Mais de dez anos depois, em 1997, a Pathfinder avançou em relação à primeira missão, percorrendo 104 metros.

Robôs estão trabalhando há 1.400 dias marcianos

Quase nada se comparado aos 12 quilômetros já percorridos pelo Opportunity e os 7,5 avançados pelo Spirit.

Além disso, os robôs estão em áreas opostas do planeta, separados por 4 mil quilômetros de distância, o que dá uma diversidade maior aos dados enviados. Ao todo, os robozinhos já trabalharam o equivalente a 1.400 dias marcianos (o dia em Marte é um pouco mais longo que o da Terra, com 24 horas e 40 minutos) e devem trabalhar ainda por um tempo indefinido.

Inicialmente programada para durar apenas três meses, a missão se estenderá enquanto houver verbas e os robôs se mantiverem em funcionamento.

Souza teme pela chegada do inverno marciano, com ventos de até 400 km/hora, mas está otimista: — Eles já passaram bem por outros invernos. Este será mais difícil porque eles estão mais cansados, mas temos esperanças.
(O Globo, 24/1)

http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=53897

23 January 2008

Beleza da Natureza e na Física

reproduzido de:
JC e-mail 3436, de 23 de Janeiro de 2008.

Ciência Hoje On-line: ‘A fundamental beleza da natureza’, coluna de Adilson de Oliveira

Colunista discute o papel essencial da simetria na formulação das leis da física

O físico Adilson de Oliveira aproveita o verão, estação do ano em que muitos buscam ficar em forma e melhorar a aparência, para discutir a simetria, que associamos ao equilíbrio, à beleza e à perfeição. Mas este é também um conceito essencial para a ciência, como mostra o colunista em janeiro: leia e confira como diferentes tipos de simetria estão por trás das leis físicas.

Leia a coluna completa na CH On-line, que tem conteúdo exclusivo atualizado diariamente: http://cienciahoje.uol.com.br/110072

21 January 2008

Criacionismo, não!

Reproduzido de:
JC e-mail 3434, de 21 de Janeiro de 2008.

Criacionismo, não, editorial da “Folha de SP”

“Que a religião fique onde está, e não se faça de ciência: eis uma exigência, afinal modesta, mas inegociável, da modernidade”

Leia o editorial:

Graves e complexos problemas não faltam à ministra Marina Silva, em suas atividades na pasta do Meio Ambiente. Como se estes não bastassem, sua participação no 3º Simpósio sobre Criacionismo e Mídia, promovido pelo Centro Universitário Adventista de São Paulo, veio a colocá-la em dificuldades de outro tipo, diante das quais o cargo que ocupa no Estado brasileiro recomenda cautela que não soube observar.

Em palestra intitulada "Meio Ambiente e Cristianismo", Marina Silva valeu-se de sua formação evangélica para transpor em chave religiosa o tema da preservação dos recursos do planeta.

Nada que inspirasse maiores reparos, portanto -assim como não se discute o direito de um ministro professar, pessoalmente, qualquer tipo de crença ou descrença religiosa.

Os adeptos do criacionismo, entretanto, não se contentam com pouco -e depois da conferência a ministra foi instada, em entrevista, a dar sua opinião sobre o ensino das teorias antidarwinistas. Num estilo próximo ao dos neoconservadores americanos, considerou que "as duas visões" devem ser oferecidas aos alunos, para que "decidam" por si mesmos.

Sob uma aparência de equanimidade, a tese faz parte de uma investida anticientífica que, com firmeza, cumpre repudiar. Pode-se, é claro, sustentar que a fé pessoal é compatível com o espírito científico; que religião e ciência não se opõem.

Talvez não se oponham, mas certamente não se misturam. E é isto o que o criacionismo tenta fazer, sem base comprovada, e com um aparato de falácias que um estudante médio, no Brasil ou em qualquer parte do mundo, não tem condições de identificar.

Que a religião fique onde está, e não se faça de ciência: eis uma exigência, afinal modesta, mas inegociável, da modernidade.
(Folha de SP, 20/1)

http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=53810

15 January 2008

Produção Científica das Universidades Brasileiras

Reproduzido de:
JC e-mail 3429, de 14 de Janeiro de 2008.

ITA lidera em produtividade científica

USP tem maior volume de publicações, mas instituto da Aeronáutica publica mais artigos científicos por doutor, diz estudo. Autores consideraram só as instituições de ensino com mais de 50 publicações de 2001 a 2005; particulares têm produção "baixíssima"

Antônio Gois escreve para a “Folha de SP”:

A USP é a universidade brasileira com maior produção científica, mas, quando são levados em conta critérios como o número de doutores ou de cursos de pós-graduação por trabalho publicado, é o ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) a instituição mais produtiva.

Essas são conclusões de um estudo realizado pelo Instituto Lobo a partir da base de dados Thomson-ISI, que permite a comparação da produtividade das instituições a partir do número de trabalhos publicados em periódicos internacionais.

No levantamento, foram consideradas apenas as instituições de ensino superior que conseguiram publicar ao menos 50 trabalhos no período de 2001 a 2005. Esse corte mostra que o número de instituições privadas com produção significativa é muito baixo. Das 86 universidades particulares do país em 2005, apenas 23 (27% do total) conseguiram publicar ao menos 50 trabalhos no período.

"Dá uma média de dez trabalhos por ano. É um patamar baixíssimo para instituições que, pela lei, têm que realizar pesquisa", afirma Oscar Hipólito, autor do estudo em parceria com Roberto Lobo.

Nas federais, o percentual de universidades com ao menos 50 trabalhos foi de 77% e, nas estaduais, 42%. Após esse corte, sobraram 83 instituições com produção significativa. Dessas, apenas 24 são privadas, e a produção delas representou somente 5% do total de trabalhos publicados no período.

Com o objetivo de avaliar também a produtividade de cada instituição, os autores compararam o total de trabalhos publicados com o de doutores em regime integral, de cursos de pós-graduação reconhecidos pela Capes e de recursos recebidos pelo CNPq.

No ranking por doutores, o ITA apresentou a média de 5,4 trabalhos por doutor em regime de dedicação exclusiva, superando Unicamp (5 por doutor), USP (4,9), UFSCar (4,8) e Unifesp (4,7). A média das 83 instituições comparadas foi de 2,25 nesses cinco anos.

A comparação com o número de trabalhos por cursos reconhecidos pela Capes coloca de novo o ITA no topo do ranking.

Por último, levou-se em conta também os recursos recebidos pelo CNPq. Nesse caso, é preciso considerar que outras fontes importantes de financiamento ficaram de fora, como as fundações de apoio estaduais, a Capes ou a Finep.

Quem mais recebeu recursos dessa fonte única foi a USP (R$ 374 milhões em cinco anos), mas o maior investimento por trabalho publicado está na PUC-SP (R$ 517 mil por trabalho publicado).

Para tentar agregar esses três critérios (doutores, cursos e verba do CNPq) num único indicador, os autores do levantamento elaboraram um índice de produtividade em que, mais uma vez, o ITA aparece como a instituição mais produtiva.

Critérios

A produção medida por meio de trabalhos publicados em revistas científicas indexadas -com critérios mais rigorosos de edição- não é a única forma de avaliar instituições. Outros levantamentos costumam utilizar também critérios como o número de patentes obtidas por uma instituição ou o número de vezes que um artigo é citado em outros trabalhos.

O número de trabalhos publicados por pesquisador, no entanto, é cada vez mais usado por órgãos de fomento.

Particulares reclamam de preconceito dos órgãos públicos de apoio à pesquisa

“A falta de apoio governamental e o excesso de impostos são fatores que limitam o investimento em pesquisa no setor privado”, diz Abib Salim

O presidente da Anup (Associação Nacional das Universidades Particulares), Abib Salim Cury, diz que a falta de apoio governamental e o excesso de impostos -especialmente no caso de instituições com fins lucrativos- são fatores que limitam o investimento em pesquisa no setor privado.

"Temos de tirar dinheiro para a pesquisa daquilo que recebemos das mensalidades porque enfrentamos muita dificuldade para conseguir recursos nos órgãos federais", diz Cury, que é chanceler da Universidade de Franca.

Para ele, há preconceito no momento de analisar um pedido de recursos para um projeto de pesquisa no setor privado ou mesmo no de autorizar novos cursos de pós-graduação.

"Tenho a preocupação em investir em pesquisa, tanto que já temos hoje quatro patentes, inclusive uma para cura da doença de Chagas que foi aceita e registrada nos EUA. Decidi, no entanto, que não peço mais nada à Capes. Se o projeto é bom, não interessa de onde veio, é preciso fomentá-lo. Mas já somos barrados na base. É muito difícil vencer esse ranço contra o ensino particular."

Oscar Hipólito, do Instituto Lobo, concorda que ainda existe preconceito contra o setor privado, mas diz que o problema principal é de gestão: "O preconceito já foi muito pior. É preciso lembrar também que há universidades privadas, como a PUC do Rio, que sempre tiveram bom desempenho e respeito nessa área. O que falta são bons projetos".

Roberto Lobo, co-autor do estudo e ex-reitor da USP e da UMC (Universidade de Mogi das Cruzes), diz que, quando trocou o setor público pelo privado, decidiu apostar em grupos específicos e organizados.

"Muitas universidades privadas acham que fazer pesquisa é separar uma parcela de seu orçamento e contratar professores para desenvolverem projetos por duas horas por semana. Isso pulveriza os poucos recursos que a instituição tem."

Segundo ele, sua estratégia ao assumir a reitoria da UMC foi identificar áreas que tinham mais potencial e formar grupos de pesquisa chamando também gente de fora.

"Quando há foco, mesmo com poucos recursos, é possível obter resultados. Tanto que nosso levantamento mostra que a UMC é uma das mais produtivas hoje", diz.

Humanas distorcem média, afirmam escolas

Pesquisador concorda que há uma tradição menor de publicação na área de humanas, mas também pondera que um trabalho publicado em uma revista científica passa por processos mais rigorosos

O investimento recente em pesquisa e o perfil homogêneo do ITA foram as razões apontadas pelo pró-reitor de Pós-Graduação e Pesquisa da instituição, Homero Maciel, para explicar a boa colocação no levantamento do Instituto Lobo.

"O fato de sermos uma escola concentrada na área de ciências exatas nos favorece na comparação com uma instituição como a USP, que cobre um universo imenso de áreas. Mas também tivemos uma preocupação, especialmente nos últimos seis anos, de levantar a pesquisa aqui dentro e incentivar a publicação", diz Maciel.

Paulo Saldiva, pró-reitor em exercício de Pesquisa da USP, também destaca o perfil diferenciado das instituições.

"O ITA é como um poço artesiano numa pequena área e que é explorado a fundo com competência e apoio da iniciativa privada [no caso, da Embraer]. Aqui na USP também existem alguns "ITAs", mas também existem áreas como a de Saúde, com alta produtividade medida pela publicação em periódicos, e a de humanas, onde essa cultura de publicação [em periódicos] não é tão forte."

A pouca tradição da área de humanas na publicação em periódicos internacionais também é apontada pela pró-reitora de pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina, Thereza Cristina Monteiro, para explicar por que a instituição cai da 9ª posição do ranking de instituições com mais trabalhos publicados para a 30ª no de produtividade por doutor (de 1,9 trabalho em cinco anos).

"Depois das engenharias, a maior parte dos nossos grupos de pesquisa é da área de humanidades. Muitos pesquisadores dessa área preferem divulgar seus trabalhos em livros ou jornais que não são indexados nessas bases internacionais."

Oscar Hipólito, um dos autores do estudo, critica a baixa publicação nas humanidades.

"No mundo todo, publica-se mesmo na área de humanas. Pode ser que essa baixa publicação [no Brasil] aconteça por uma questão cultural, mas pode ser também porque esse pesquisador não produza ou não consiga publicar numa revista internacional."

Leandro de Faria, pesquisador da UFSCar que trabalha num levantamento sobre a produção científica para a Fapesp, concorda que há uma tradição menor de publicação na área de humanas, mas também pondera que um trabalho publicado em uma revista científica passa por processos mais rigorosos.

"A menor publicação de humanas é uma questão internacional, não só do Brasil. Isso, no entanto, não invalida a avaliação por meio do número de trabalhos publicados em revistas científicas. A publicação num livro tem, em tese, menos validação da comunidade científica porque o critério de edição é, em geral, menos rigoroso."
(Folha de SP, 14/1)

http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=53649

08 January 2008

Acelerador de partículas LHC (sigla em inglês de Grande Colisor de Hádrons)

reproduzido de

JC e-mail 3424, de 07 de Janeiro de 2008.
Europa inaugura a maior máquina da Terra em maio

Experimento em túnel de 27 km investigará alguns dos maiores mistérios da natureza; Empreitada da ordem de US$ 5 bilhões reúne mais de 8.000 físicos e engenheiros em laboratório de física nuclear perto de Genebra

Rafael Garcia escreve para “Folha de SP”:

O experimento aguardado com mais ansiedade pelos físicos desde a virada do milênio deve finalmente começar em 2008, após três anos de atraso em relação à previsão inicial. A maior máquina já produzida pelo homem, -o LHC, um acelerador de partículas gigante- começa a operar em maio, segundo anuncia agora o Cern (Organização Européia de Pesquisa Nuclear), o laboratório que lidera o projeto, na Suíça.

A maior parte dos cientistas trabalhando no acelerador de partículas LHC acredita que o experimento vai cumprir seu objetivo primário: reafirmar o Modelo Padrão, teoria que evoca partículas e forças para explicar o mundo microscópico.

A principal previsão ainda não testada da teoria é o porquê de a matéria possuir massa. Uma resposta final deve surgir nos dois primeiros anos de funcionamento do acelerador. Para o bem ou para o mal.

Para fazer o teste, físicos tiveram de esperar 40 anos até que surgisse uma tecnologia para criar colisões violentas o suficiente para os experimentos. O LHC -sigla em inglês de Grande Colisor de Hádrons-, finalmente, tem a força necessária. Dentro dela ocorrerão choques de prótons (partículas da classe dos hádrons, encontradas no núcleo de átomos) beirando a velocidade da luz.

Essas violentas colisões são capazes de "quebrar" os prótons, liberando uma quantidade colossal de energia, que se transforma então em novas partículas -algumas delas capazes de escapar com tanta facilidade que é preciso construir detectores monumentais para encontrá-las.

Massa coerente

O Modelo Padrão mostra que as partículas fundamentais são menos de duas dezenas e se dividem em dois tipos: férmions e bósons. Férmions são partículas que constituem a matéria -como os quarks (que formam os prótons) e os elétrons. Bósons são partículas que carregam forças -como o fóton, a partícula da luz, responsável pela força eletromagnética.

A omissão da física com a questão da massa, porém, ainda persiste. Ninguém mostra por que um próton tem 1.800 vezes o peso de um elétron e o fóton tem massa zero. A teoria a ser testada agora LHC, porém, pode ser a resposta.

Elaborada pelo físico inglês Peter Higgs, 78, em 1964, uma derivação do Modelo Padrão indica que o espaço deve permeado por um "campo" que pode influenciar as partículas existentes nele. As partículas mais influenciadas são as mais maciças, e aquelas que não interagem com o campo de Higgs não possuem massa.

Esse campo, previu Higgs deve ser mediado por uma partícula -um bóson, mais precisamente- não previsto nas versões iniciais do Modelo Padrão.

O bóson de Higgs, pois, é justamente o que os físicos mais esperam encontrar nos experimentos do LHC, mas sua existência ainda não pode ser tomada como uma certeza.

"Se não o encontrarem, existem outros mecanismos que não têm a mesma popularidade que o mecanismo de Higgs para fazer a unificação das interações [das partículas com massa], mas que podem vir a ter uma importância maior", disse à Folha, Alberto Santoro, físico da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) que comanda um grupo de brasileiros no CMS, um dos detectores do LHC. "Vamos passar por uma fase mais excitante, do ponto de vista científico, se o bóson de Higgs não for descoberto."

O sumiço da antimatéria

Um problema a ser analisado em um outro detector, o LHCb, diz respeito à natureza da matéria e da antimatéria. Uma é praticamente a mesma coisa que a outra, mas com carga elétrica invertida (prótons negativos, elétrons positivos etc.).

Por alguma razão, porém, a matéria sobrepujou a antimatéria na evolução do Universo, e os cientistas querem entender por quê. Para isso, será analisada a assimetria no surgimento de matéria e antimatéria após à colisão de prótons no LHC.

"A assimetria nós já sabemos que existe; o importante agora é dar números a ela e torná-la uma medida precisa", explica Arthur Maciel, do CBPF (Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas), que trabalha no LHCb. "É possível estudar o infinitamente pequeno, as menores porções de matéria -é o que se faz num acelerador de partículas-, para resolver problemas da estrutura e da evolução temporal do Universo."

Acelera Brasil

Há brasileiros em todos os grandes experimentos do LHC. Uma equipe da USP e da Unicamp participa do Alice, detector que vai simular o estado da matéria nos primeiros instantes após o Big Bang, a explosão que gerou o Universo.

O Atlas, o maior detector detector do LHC -que será um experimento de propósito geral-, também terá participação do Brasil, representado por físicos da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Tanto no Atlas quanto no CMS será possível investigar questões que não estão diretamente relacionadas ao Modelo Padrão.

Há alguma expectativa, por exemplo, de que o LHC possa dar alguma pista sobre a natureza da chamada matéria escura, que compõe 80% da massa do Universo mas que não emite luz nem nenhum tipo de radiação, por isso é invisível.
(Folha de SP, 6/1)

http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=53514