Hoje é dia da parte "outros papos" desta coluna, coisa rara....
Assisti recentemente a dois filmes, para mim emblemáticos neste final de 2007.
O primeiro, "Amor em tempos de cólera", baseado no ótimo livro homônimo, trata da pungente história de um homem que esperou mais de 50 anos, construindo pacientemente a possibilidade de reencontar e viver plenamente o grande e único amor de sua vida. Nem sempre somos abençoados de encontrar um grande amor, muitos passam a vida toda sem encontrá-lo...Mas, é fundamental estar sempre construindo a possibilidade do encontro com o outro. Numa antiga edição do livro "O Encontro Marcado" de Fernando Sabino, há uma carta de Hélio Pelegrino para o autor, tratando exatamente sobre a instrínseca solidão humana e a possibildade do encontro com o outro. Eu era ainda adolecente quando a li pela primeira vez .... aquele texto me marcou até hoje. Estamos em "tempos de cólera", muito pior do que aquele retratado no livro/filme, em que o encontro, embora técnicamente mais fácil, está na prática cada vez mais remoto - daí a importância e atualidade desta questão.
O outro filme, "A vida dos outros", além de uma estória belíssima, trata de história, relembra o cotidiano opressivo, os horrores diários dos regimes totalidatários, tão recentes quanto esquecidos - parece que as pessoas já se esqueceram que até a década de oitenta esta era uma realidade bastante ampla. Esta "amnésia histórica" é muito perigosa. Estamos num período em que muitos ainda dão apoio a antigos regimes totalitários existentes e que estão quase por cair de podres ou tentando se transformar internamente para não perder o poder; os crescentes regimes teocráticos de várias cores cada vez mais são verdadeiras ditaduras, mais terríveis do que as ditas de direita ou esquerda do século passado; assim como multidões flertam ou apoiam abertamente com novos aspirantes a ditatores, travestidos de líderes populares demagogos e nacionalistas, tão fanfarrões como perigosos. Deveria ser obrigatório passar este filme nas escolas de todos os graus, seguido de discussão aberta entre alunos, professores e pais sobre a questão do totalitarismo.
Espero que todos nós tenhamos um ótimo 2008, com saúde, paz, muito amor e boa memória crítica da história!
Publicado em 31 de dezembro de 2007 às 15:49 por appoloni