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31 December 2007

Amor e história

Hoje é dia da parte "outros papos" desta coluna, coisa rara....
Assisti recentemente a dois filmes, para mim emblemáticos neste final de 2007.
O primeiro, "Amor em tempos de cólera", baseado no ótimo livro homônimo, trata da pungente história de um homem que esperou mais de 50 anos, construindo pacientemente a possibilidade de reencontar e viver plenamente o grande e único amor de sua vida. Nem sempre somos abençoados de encontrar um grande amor, muitos passam a vida toda sem encontrá-lo...Mas, é fundamental estar sempre construindo a possibilidade do encontro com o outro. Numa antiga edição do livro "O Encontro Marcado" de Fernando Sabino, há uma carta de Hélio Pelegrino para o autor, tratando exatamente sobre a instrínseca solidão humana e a possibildade do encontro com o outro. Eu era ainda adolecente quando a li pela primeira vez .... aquele texto me marcou até hoje. Estamos em "tempos de cólera", muito pior do que aquele retratado no livro/filme, em que o encontro, embora técnicamente mais fácil, está na prática cada vez mais remoto - daí a importância e atualidade desta questão.
O outro filme, "A vida dos outros", além de uma estória belíssima, trata de história, relembra o cotidiano opressivo, os horrores diários dos regimes totalidatários, tão recentes quanto esquecidos - parece que as pessoas já se esqueceram que até a década de oitenta esta era uma realidade bastante ampla. Esta "amnésia histórica" é muito perigosa. Estamos num período em que muitos ainda dão apoio a antigos regimes totalitários existentes e que estão quase por cair de podres ou tentando se transformar internamente para não perder o poder; os crescentes regimes teocráticos de várias cores cada vez mais são verdadeiras ditaduras, mais terríveis do que as ditas de direita ou esquerda do século passado; assim como multidões flertam ou apoiam abertamente com novos aspirantes a ditatores, travestidos de líderes populares demagogos e nacionalistas, tão fanfarrões como perigosos. Deveria ser obrigatório passar este filme nas escolas de todos os graus, seguido de discussão aberta entre alunos, professores e pais sobre a questão do totalitarismo.
Espero que todos nós tenhamos um ótimo 2008, com saúde, paz, muito amor e boa memória crítica da história!

19 December 2007

Tunelando buracos negros

reproduzido de:
Boletim Agência FAPESP - 19/12/2007

Singularidade exposta

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – Poucos segredos no Universo são tão bem guardados quanto o interior de um buraco negro. O horizonte de eventos – como é conhecida sua região fronteiriça, a partir da qual a força gravitacional é tão imensa que nada pode escapar – mantém escondida a chamada singularidade, um ponto no espaço-tempo no qual as leis conhecidas da física não valem.

Um estudo realizado por dois brasileiros, George Matsas, professor do Instituto de Física Teórica (IFT) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), e o doutorando André da Silva, sugere a possibilidade de se “desnudar” o centro de um buraco negro, desfazendo-se o horizonte de eventos por meio de um processo da mecânica quântica conhecido por tunelamento.

O artigo foi publicado na edição de novembro da Physical Review Letters e motivou uma reportagem na revista Nature, por contradizer a hipótese da “censura cósmica”, conjecturada em 1969 pelo físico inglês Roger Penrose, segundo a qual não seria possível existir singularidades “nuas”, isto é, não revestidas pelo horizonte de eventos.

“A relatividade geral não tem elementos para desvendar a estrutura de uma singularidade. Mas acreditamos que, em uma futura teoria da gravitação quântica, a singularidade nua não será problemática”, disse Matsas à Agência FAPESP.

Segundo o cientista, a singularidade é uma região com densidade tendendo ao infinito – com massa finita e volume próximo a zero – que concentra toda a energia do buraco negro. “Nessas regiões, nossos conceitos de tempo e espaço não se aplicam. Desvendar a natureza da singularidade poderia levar a uma quebra de paradigma, revolucionando esses conceitos”, explicou.

No entanto, segundo o físico, ninguém sabe ao certo as conseqüências de se “desnudar” a singularidade. “O horizonte de eventos protege o resto do Universo de ser contaminado pela singularidade. Segundo a relatividade geral, ao se expor uma singularidade parte do Universo pode sofrer perturbações imprevisíveis”, afirmou.

De acordo com o professor do IFT da Unesp, a conjectura de Penrose propõe que o próprio Universo teria encontrado no horizonte de eventos uma forma para se proteger da imprevisibilidade inerente das singularidades, impedindo sua exposição.

“Podemos dizer que a conjectura postulada por Penrose realmente ‘censura’ a obscenidade de uma singularidade nua. O Universo teria nos protegido de vislumbrar o impensável”, disse.

Mas a singularidade só seria “censurada” dentro da relatividade geral. “Acreditamos que ela poderia ser desvendada em uma teoria da gravitação quântica, que levaria em conta tanto ingredientes quânticos como da relatividade. O problema é que ainda não temos essa teoria completa”, destacou.


Chute com efeito

Matsas conta que no estudo foi utilizada uma teoria semiclássica, com aplicação de ingredientes da mecânica quântica e da teoria da relatividade geral a fim de saber se existe um mecanismo quântico que possa gerar singularidades nuas na natureza.

“Sabe-se que um buraco negro não pode ter mais rotação do que um certo limite. Se isso ocorrer, o horizonte de eventos desaparece e a singularidade passa a ficar exposta. O problema era saber como um buraco negro poderia rodar muito mais rápido”, disse Matsas.

Segundo os cientistas, isso poderia ser feito por uma partícula lançada tangencialmente no buraco negro que – de modo similar a uma bola chutada “com efeito” – aumentasse a rotação do buraco ao ser absorvida. Mas, no contexto da relatividade geral, isso ainda não seria suficiente para rodar o buraco com velocidade capaz de expor a singularidade.

“Por conta disso, levamos em consideração o efeito quântico do tunelamento. Com ele, uma partícula lançada tangencialmente, mas com muito pouca energia, seria capaz de ser absorvida ao atingir o horizonte de eventos, rotacionando o buraco negro além do limite que pode suportar, expondo, em conseqüência, sua singularidade”, disse.

Matsas explica que, de acordo com a mecância quântica, as partículas quânticas têm a estranha propriedade de “tunelar” por meio de barreiras que, de acordo com a mecânica clássica, não teriam energia suficiente para suplantar.

“Nossa idéia é que essa partícula tunelaria buraco adentro por um potencial gravitacional. A probablidade é muito pequena, por isso ser improvável para corpos macroscópicos, mas nosso problema é conceitual. Em princípio calculamos a propriedade de tunelamento e concluímos que ela é diferente de zero. Dentro de uma teoria da gravitação quântica, não há por que não acreditar que singularidades nuas não se formassem”, afirmou o físico.

Mas, para ter certeza de que as singularidades nuas podem ser formadas, será preciso dispor de uma teoria completa da gravitação quântica, adverte Matsas. “Sem ela, não podemos ter certeza de que outros efeitos ainda não contemplados poderiam interferir na formação de uma singularidade nua. Por enquanto temos apenas uma evidência semiclássica”, afirmou.

Embora a teoria da gravitação quântica esteja incompleta, segundo Matsas há um híbrido teórico semiclássico bastante sólido com o qual se pode trabalhar.

“Não se espera que um avião vá à Lua. Basta que ele cumpra sua função dentro de suas limitações. Da mesma forma, uma teoria não tem obrigação de ser completa, mas de ser sólida em relação àquilo a que se presta”, ressaltou.

O artigo Overspinning a nearly extreme charged black hole via a quantum tunneling process, de George E.A. Matsas and André R. R. da Silva, pode ser lido por assinantes da Physical Review Letters em http://prl.aps.org.

10 December 2007

Pesquisa em SP tem apoio histórico

reproduzido do Boletim Agência FAPESP de 10/12/07

Pesquisa tem apoio histórico

Agência FAPESP – O Relatório de Atividades 2006 da FAPESP registra o maior desembolso para o fomento à pesquisa científica e tecnológica na história da Fundação. Em 2006 foram investidos R$ 521 milhões, superando em 8,33% o desembolso de 2005.

Segundo o documento que acaba de ser lançado, o destaque da expansão foram as bolsas e auxílios regulares, que receberam 16,5% e 13% a mais do que no ano anterior, respectivamente. O aumento no desembolso total se sobrepôs a uma expansão de 22,3% verificada em 2005, em relação a 2004.

O número de novos projetos concedidos aumentou 23,3%, também com destaque para a expansão no número de bolsas e de auxílios regulares concedidos (26,7% e 27,1%, respectivamente). Em fevereiro de 2006 foi aprovada uma proposta de ampliação do número anual de concessões de bolsas regulares.

De acordo com o relatório, a expansão do apoio a pesquisa por parte da FAPESP reflete a solidez da instituição e a estabilidade macroeconômica, que permitiu um crescimento de 11,45% nas transferências do Tesouro Estadual em relação a 2005, totalizando R$ 463 milhões. As transferências representam cerca de 75% da receita da Fundação.

Outro destaques foram os valores significativos destinados aos programas Pesquisa Inovativa na Pequena e Micro Empresa – Pipe (R$ 24,5 milhões), Equipamentos Multiusuários (R$ 23,6 milhões), Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão – Cepid (R$ 22,3 milhões) e Apoio a Jovens Pesquisadores (R$ 19,4 milhões).

Segundo o relatório, tais valores refletem as muitas vertentes da preocupação e atuação da Fundação: infra-estrutura de pesquisa, com a garantia aos laboratórios da disponibilização de equipamentos de ponta; formação de novas lideranças científicas em centros emergentes; pesquisa tecnológica; e fortalecimento de centros de excelência para a realização de pesquisa em nível internacional para o avanço do conhecimento e sua aplicação em diversas áreas.

O relatório ressalta o desenvolvimento do sistema de informatização de atividades da FAPESP, por meio do Sistema de Apoio à Gestão (SAGe). No início do exercício, todas as etapas de análise e avaliação, que vão da apresentação da proposta ao despacho final, estavam implantadas. A partir do segundo semestre, tiveram início os trabalhos de desenvolvimento do sistema para atendimento das etapas administrativas posteriores à aprovação das solicitações.

Como ocorre desde 2003, o Relatório de Atividades 2006 publica dados de valores referentes ao desembolso feito pela Fundação, não contemplando os referentes às concessões ou investimentos, que são os recursos aprovados e comprometidos para dispêndios em vários anos, isto é, pelo tempo de vigência de cada proposta de pesquisa concedida pela Fundação.

No relatório, a FAPESP homenageia o artista plástico Aldo Bonadei (1906-1974), cujos trabalhos ilustram a publicação. Um caderno especial reúne uma amostra da pintura de Bonadei, marcada pela pesquisa de materiais, de meios de expressão e das tendências estéticas de sua época.

A seleção das obras de Aldo Bonadei que ilustram o relatório foi feita por Lisbeth Rebollo Gonçalves, diretora do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da Universidade de São Paulo (USP), estudiosa do pintor e curadora da exposição Bonadei Percursos Estéticos, mostra do centenário de nascimento do artista realizada em 2006 no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo.

O Relatório de Atividades 2006 pode ser lido na seção de publicações no site da FAPESP, no endereço www.fapesp.br/publicacoes/relat2006.pdf (pdf com 5,6 MB).

06 December 2007

61% dos estudantes brasileiros estão no pior nível em Ciência

reproduzido de
JC e-mail 3404, de 05 de Dezembro de 2007.

Pisa: Em ciência, 61% estão no pior nível

27,9% dos alunos não chegam nem ao grau mais baixo de compreensão

Resultado do Pisa divulgado ontem mostra que 61% dos alunos brasileiros estão abaixo ou no pior dos 6 níveis de desempenho em ciência determinados pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Ao dividir por área de conhecimento, a avaliação evidencia que os brasileiros tiveram melhor desempenho em biologia, deixando outras áreas, como astronomia, ainda com piores resultados.

Em uma escala de 800 pontos, 390 foi a nota do Brasil em ciência no Pisa, o que rendeu ao país o nada honroso 52º lugar entre as 57 nações que participaram da avaliação.

O Brasil ter ficado no pior nível de desempenho representa que 33,1% dos estudantes que fizeram a prova têm conhecimento científico muito limitado e só conseguem elaborar explicações científicas óbvias ou seguidas de informações já evidenciadas.

Entretanto, o Pisa traz outro dado crítico: 27,9% dos alunos nem sequer atingiram tal escala, pois tiveram desempenho abaixo do nível 1.

Segundo Maurício Bacci, coordenador do curso de Ciências Biológicas da Unesp/Câmpus Rio Claro, os resultados do Pisa ilustram a realidade do ensino de ciência no Brasil.

“Os alunos chegam às universidades sem formação prática. Com isso, os professores universitários acabam tendo de recuperar conteúdos de ciência que deveriam ser adquiridos na educação básica.”

Entre os principais problemas apontados por Bacci, estão a falta de salários atraentes aos licenciados em Biologia, Física e Química e as condições de trabalho oferecidas nas escolas públicas. “É preciso estruturar as escolas públicas com laboratórios e, principalmente, investir em material humano.”

Áreas do conhecimento

O Brasil obteve melhor classificação na área dos sistemas vivos (a biologia), com pontuação 403. Em sistemas físicos (ciências químicas e físicas), a nota foi 385. Já em sistema espacial e planeta Terra (cosmologia, geologia e astronomia), fez 375 pontos, melhor apenas que Colômbia, Catar e Quirguistão.

De acordo com Luiz Carlos Menezes, professor do Instituto de Física da USP, a diferença de desempenho entre as áreas é pequena, mas pode ser reflexo da ênfase dada às ciências da vida nos últimos anos do ensino fundamental.

“Hoje, ciência é sinônimo de ciências da vida no ensino fundamental. Os professores que atuam nessa etapa de ensino são licenciados em Ciências e não em Física e Química, com isso há uma tendência a valorizar essa área.”

Embora os Parâmetros Curriculares Nacionais sinalizem para a necessidade de ter astronomia, cosmologia e geologia no ensino fundamental, Menezes diz que essas áreas foram praticamente varridas do currículo. “É preciso dar ênfase a essas áreas na formação de professores e nos livros didáticos.”

O especialista em física explica que faltam professores formados para dar aulas que motivem os alunos a aprender. “Uma coisa é o aluno ser capaz de olhar para o céu e entender as razões que fazem o Sol nascer no leste. Outra é o professor fazê-los decorar os nomes dos planetas, sem relação alguma com a vida prática.”

O Pisa mostra que, em relação às competências adquiridas em ciência, os brasileiros ainda deixam a desejar. Apenas 33% aplicam o conhecimento científico para resolver um problema. Outro dado alarmante: 35% não tiram conclusões por meio de evidências científicas nem refletem sobre as implicações sociais da ciência e desenvolvimento tecnológico.

Marcelo Knobel, professor do Instituto de Física da Unicamp, acredita que o melhor caminho para reverter esse quadro é o investimento no professor. “Um licenciado em ciências, quando ensina a audição do corpo humano tem de apresentar aos alunos conceitos de som. As áreas do conhecimento biológico e físico têm de estar integradas e, para isso, é preciso bons programas de formação.”

Na escola

Vivian Froes, de 17 anos, no 3º ano do ensino médio da Escola Estadual Jair Toledo Xavier, na Brasilândia, zona norte da capital achou a prova fácil. “Caiu bastante aquecimento global.”

Mas Vivian, que quer ser professora de História em escola pública, afirma que o péssimo desempenho do Brasil no Pisa mostra que algo está errado. “Minha escola é boa, temos de fazer até Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Nem todas são assim e tenho medo do que encontrarei quando me formar professora. Os baixos salários e a violência desanimam.” (Maria Rehder)
(O Estado de SP, 5/12)
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=52818

05 December 2007

Brasil perde cada vez mais "cérebros" para o exterior

reproduzido de
JC e-mail 3402, de 03 de Dezembro de 2007.

País perde cada vez mais "cérebros" para o exterior

Número dos que receberam visto dos EUA dado a profissionais qualificados cresceu 185%. Em dez anos, quase dobrou a proporção de brasileiros com nível superior vivendo nos países da OCDE, que reúne nações ricas

Antônio Gois e Denyse Godoy escrevem para a "Folha de SP":

Atraídos pela escassez de mão-de-obra qualificada, brasileiros com alto nível de instrução estão, cada vez mais, migrando para Europa e América do Norte. O fenômeno, chamado de fuga de cérebros, fica claro na análise de dois dados:

1) De 1996 a 2006, o número de brasileiros que receberam visto dos Estados Unidos dado somente a profissionais de alta qualificação aumentou 185%.

2) De 1990 a 2000, quase dobrou -de 1,7% para 3,3%- a proporção de brasileiros com nível superior vivendo nos 30 países da OCDE, que reúne, na maioria, nações ricas de Europa, Ásia e América do Norte.

O Brasil não é o único afetado pela tendência. É a Índia o país com maior número de vistos dos EUA para trabalhadores qualificados, mas são nações de pequeno porte -como Guiana, Jamaica ou Haiti- que têm proporção de população com nível superior vivendo em outros países superior a 80%.

Mesmo assim, o aumento da fuga de cérebros do Brasil preocupa e muda o perfil do emigrante. Franklin Goza, professor da Universidade Estadual de Bowling Green (Ohio) que estuda a imigração brasileira para os EUA, afirma que ela está em transição.

"Nos anos 80, a vasta maioria de brasileiros que vinha para cá entrava ilegalmente, tinha baixa qualificação ou eram profissionais que chegavam como turistas, mas acabavam estendendo a estadia e trabalhando sem permissão em empregos não condizentes com sua formação, como professores lavando prato em restaurantes."

Hoje, no entanto, ele define a migração brasileira para lá como bi-modal. O fluxo de ilegais ainda é grande -no ano passado, os brasileiros perderam apenas para os mexicanos entre os que foram apreendidos na fronteira-, mas cresceu significativamente o número de profissionais em situação legal.

No Brasil, os efeitos também já são identificáveis. Para o demógrafo Eduardo Rios-Neto, presidente da Comissão Nacional de População e Desenvolvimento, o principal problema é a escassez de recursos humanos de alta qualidade no Brasil e no mundo.

"O Brasil fornece talentos para esse mercado global. O ponto é saber se é benéfico ou deletério. Se o trabalhador tiver estudado numa universidade pública, é deletério, pois foi o Estado que subsidiou sua educação. Mas, se a tendência é inexorável, há que se desenhar arranjos institucionais, como retornos periódicos e transferências de tecnologia, para minimizar as perdas."

O demógrafo, no entanto, enxerga oportunidades: "Há risco de longo prazo de que a classe média seja insuficiente para prover toda a demanda por qualificação do país. Com isso, pela primeira vez a elite empresarial terá de investir na educação popular como prioridade e devido a interesse econômico, e não por altruísmo."
(Folha de SP, 2/12)

http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=52746

03 December 2007

Paraná na contramão da pesquisa

reproduzido de
JC e-mail 3402, de 03 de Dezembro de 2007.

Na contramão da pesquisa, artigo de Telma Gimenez

Parece desnecessário mencionar o constrangimento a que os professores das universidades estaduais estão submetidos com essa situação e os enormes prejuízos que tais medidas burocráticas trazem para as universidades e para o próprio Estado do Paraná

Telma Gimenez é professora universitária em Londrina. Artigo publicado na “Folha de Londrina”:

No momento em que é anunciado o PAC da Ciência pelo governo federal, com maior aporte de recursos para bolsas e pesquisadores brasileiros, professores universitários do Paraná ainda sofrem o drama de não poderem participar de eventos no exterior para divulgação de suas pesquisas e intercâmbio com outros pesquisadores.

Isto é fruto de dois decretos do governo do Paraná (3498/2004 e 5098/2005) que requerem permissão prévia do governador Roberto Requião em processos burocráticos que podem durar até noventa dias.

Enquanto em outras universidades como a Unicamp, por exemplo, há incentivo a esse tipo de participação, no Paraná prevalece a visão pessoal do governador de que professores viajam ao exterior para ‘‘passear’’, ainda que seus projetos tenham passado por crivo de agências de fomento externas e dos comitês científicos dos eventos. Mais ainda, que as próprias administrações das universidades não têm competência para julgar se os pedidos de licença têm mérito ou não.

O curioso é que o pressuposto só se aplica se a viagem for para fora do país. Assim, pesquisadores renomados, com convites freqüentes de organizações internacionais, que obtiveram apoio de agências de fomento nacionais ou internacionais e até mesmo da Fundação Araucária (que financia pesquisas no Paraná) têm seus pedidos negados, com incontáveis prejuízos para a produção científica.

Parece desnecessário mencionar o constrangimento a que os professores das universidades estaduais estão submetidos com essa situação e os enormes prejuízos que tais medidas burocráticas trazem para as universidades e para o próprio Estado do Paraná.

A internacionalização dos programas de pós-graduação, por exemplo, que é um requisito para que a instituição receba mais recursos, é sensivelmente prejudicada pela falta de laços com a comunidade internacional.

Se cada viagem ao exterior requer a avaliação pessoal do governador sobre o mérito, sem que fiquem claros quais critérios norteiam suas decisões, será cada vez mais difícil, senão impossível, elevar o patamar das pesquisas e da pós-graduação em nosso estado.

Como garantir a excelência das pesquisas e dos programas de pós-graduação - doutorado e mestrado - do Estado do Paraná se os professores são impedidos e/ou desestimulados a saírem do país para apresentarem suas pesquisas em eventos ou para se capacitarem? É, no mínimo, um contra-senso que a política nacional aponte para um incentivo à pesquisa e nosso governador trafegue na direção contrária.
(Folha de Londrina, 2/12)

http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=52762

02 December 2007

Vênus é seco, quente e sem vida

reproduzido de
JC e-mail 3400, de 29 de Novembro de 2007.

Sonda mostra por que Vênus é seco, quente e sem vida

Espaçonave revela como o planeta perdeu seus oceanos e traz prova de que existem raios na região. Orbitadora confirma teorias elaboradas a partir de dados da Pioneer, da Nasa

Uma série de novas descobertas baseadas em dados da sonda espacial Venus Express, da Agência Espacial Européia, deve ajudar a explicar como um planeta tão próximo da Terra apresenta condições tão diferentes.

Uma série de estudos publicados hoje na revista "Nature" (http://www.nature.com) confirmam que Vênus possuía, em um passado distante, grandes oceanos de água -perdidos em razão de um efeito-estufa desenfreado- e apresentam a primeira evidência de raios na atmosfera do planeta.

"À luz dos dados novos, é possível construir um cenário no qual os climas de Vênus e da Terra eram muito semelhantes quando eles nasceram e depois evoluíram para o estado que vemos agora, como gêmeos separados no nascimento", disse Fred Taylor, da Universidade Oxford, um dos cientistas que coordenaram os instrumentos da Venus Express, em entrevista coletiva em Paris para divulgar o trabalho. "Bilhões de anos atrás havia até a possibilidade de Vênus ter sido habitável."

Apesar de terem surgido de maneiras semelhante, o segundo e o terceiro planetas do Sistema Solar têm hoje ambientes bem diferentes. Em Vênus a atmosfera é composta de 96% de gás carbônico (CO2), provavelmente porque o vapor de água remanescente dos oceanos evaporados foi perdido.

As moléculas de H2O teriam sido quebradas pela luz solar, deixando o hidrogênio escapar para o espaço. Os átomos de oxigênio, mais pesados, ficaram no planeta oxidando quase tudo na superfície e contribuindo para o clima seco e estéril visto hoje lá. Essa teoria, reforçada agora, fora proposta a partir dos dados da sonda Pioneer, lançada em 1978 pela Nasa.

Raios extraterrestres

A sonda americana também já tinha colhido evidências de que existem descargas elétricas na atmosfera de Vênus, mas muitos cientistas acreditavam que os dados obtidos eram ruídos de interferência. Com a Venus Express, lançada em 2005, veio a certeza.

"Consideramos esta a primeira evidência definitiva de que há abundância de raios em Vênus", diz David Grinspoon, do Museu de Ciência e Natureza de Denver (EUA), outro cientista da missão.

As descargas elétricas ocorrem entre nuvens acima de 55 km da superfície, afirma um dos trabalhos publicados hoje na "Nature". Os pesquisadores consideram a descoberta importante porque eletricidade afeta a química dos gases, e cientistas terão de levar isso em conta na hora de entender melhor a composição atmosférica de Vênus. Acredita-se que raios também tenham ajudado a criar, na Terra, a química que deu origem à vida.

Mas em Vênus a realidade é outra. Apesar de o passado do planeta ter sido um pouco mais ameno -possivelmente capaz de abrigar seres vivos- hoje Vênus tem um ambiente infernal. A pressão atmosférica lá é 92 vezes a da Terra e as temperaturas de superfície chegam a até 457C. Em uma altitude de 70 km, os ventos no planeta chegam a 360 km/h -três vezes a força de um furacão.

"Ele [Vênus] deve ser o "gêmeo malvado" da Terra", diz Christopher Russell, geocientista da Universidade da Califórnia em Los Angeles, autor principal do estudo que sai hoje sobre os raios em Vênus.

A espaçonave deve continuar operando até 2011. Neste período ela vai colher dados novos para explicar aspectos ainda mal compreendidos sobre o planeta, como o efeito do vento solar -partículas eletricamente carregadas emitidas pelo Sol- sobre sua atmosfera.
(Folha de SP, 29/11)

http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=52675