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28 February 2007

O crepúsculo das Universidades públicas estaduais do Paraná

Reproduzo aqui uma matéria que traduz exatamente o que penso sobre o assunto.


JC e-mail 3212, de 28 de Fevereiro de 2007.

O crepúsculo das Universidades públicas estaduais do Paraná, artigo de Marcos Cesar Danhoni Neves

Existe uma outra ação desse governo que tem servido para catalisar o processo de evasão: a quase proibição de pesquisadores deixarem o país para apresentar trabalhos em conferências/simpósios/congressos internacionais, completar a formação e/ou interagir com outros grupos de pesquisa

Marcos Cesar Danhoni Neves é secretário regional da SBPC no Paraná. Artigo enviado pelo autor ao “JC e-mail”:

Durante os últimos 16 anos (e agora mais outros quatro...) o Paraná foi governado por dois homens públicos de projeção nacional: Roberto Requião e Jaime Lerner.

Figuras políticas divergentes, ambos partilham, porém, uma característica comum: o descaso pelas Instituições Públicas de Ensino Superior do Estado e pelo seu imenso patrimônio humano, de ensino, de ciência, de tecnologia e de cultura.

Lerner, em oito anos de governo, concedeu um reajuste pífio à categoria docente e funcional das Universidades, permitindo que uma greve generalizada nas Instituições se prolongasse por infindáveis seis meses.

Requião, apostando na desintegração da carreira docente, concedeu ajustes diferenciados à categoria docente e aprovou um plano de carreiras para os servidores técnicos e administrativos (PCCS) que estabeleceu uma das mais gritantes “disfuncionalidades” que temos notícia: um funcionário concursado como técnico de nível superior (somente com a graduação) ganha hoje um salário duas vezes superior àquele concedido ao professor auxiliar (piso para toda a carreira docente universitária); um outro, com especialização e com poucos anos “de casa” pode ter seu salário igualado a de um professor assistente (com Mestrado); um outro, com dez anos de Instituição e duas especializações poderá ganhar o equivalente a um professor adjunto (com Doutorado).

Sempre lutamos pela recuperação das perdas salariais e, em última instância, pela valorização do ensino e da pesquisa nas Instituições Públicas de Ensino Superior (IES) do Paraná.

O PCCS veio nessa direção, porém, desacompanhado de uma recuperação da massa salarial docente, as IES públicas transformaram-se em centros meramente de formação técnica, desestimulando a pesquisa, a produção científica de qualidade, a formação de quadros pós-graduados.

A tremenda “disfuncionalidade” acabou por piorar um quadro que já vinha se deteriorando desde a desastrada administração Lerner.

Essa “disfuncionalidade” tem, pois, gerado custos excessivamente elevados para as Instituições e para o povo paranaense que, em última instância, as mantêm com o labor de cada centavo investido de seus impostos pagos.

Poderíamos elencar aqui algumas das conseqüências, imediatas ou não, dessa política deliberada de destruição das IES públicas do Estado do Paraná:

i) a evasão docente qualificada atingiu, nos últimos quatro anos, a impressionante cifra de 15% do quadro de mestres e doutores;

ii) Programas de Mestrado e Doutorado das Universidades Públicas do Paraná, em conseqüência, têm sofrido para manter ou alavancar suas avaliações diante da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Nível Superior-MEC);

iii) queda iminente da produção científica, tecnológica e cultural;

iv) o bizarro quadro de professores auxiliares que estão deixando suas funções docentes para prestarem concursos para cargos de técnicos de nível superior, uma vez que o salário pago é o dobro daquela categoria;

v) a migração para Universidades Federais e Estaduais Paulistas, que pagam salários melhores;

vi) a destruição, a longo prazo, do investimento aplicado na formação de pesquisadores. Um Mestre hoje forma-se em dois anos, e um Doutor, em quatro. Se imaginarmos um “calendário do atraso” que pudesse marcar os anos jogados fora para cada evasão qualificada, teríamos, no caso da Universidade Estadual de Maringá, com 172 docentes que deixaram seus empregos nos últimos quatro anos, um atraso que superaria 600 anos! Esse desestímulo será uma herança trágica de dois governos paranaenses, nos colocando, até o momento, na Idade Média da Academia e da (má) política;

vii) A Fundação de Fomento a Pesquisa do Estado (Fundação Araucária) dispõe de recursos irrisórios pela quantidade e qualidade de pesquisa realizada pelas IES Estaduais. Para se ter uma pálida idéia, a Fundação, até o momento, não tem um programa de concessão permanente de bolsas para a formação de mestres e doutores e seu orçamento é inferior ao menor dos programas do MEC-SESu.

Além de todo esse quadro desalentador (e devastador!), existe uma outra ação desse governo que tem servido para catalisar o processo de evasão: a quase proibição de pesquisadores deixarem o país para apresentar trabalhos em conferências/simpósios/congressos internacionais, completar a formação (Doutorado ou Pós-Doutorado no exterior) e/ou interagir com outros grupos de pesquisa.

Através de um mecanismo que beira ao fascismo, o Decreto 5098, de 19/07/2005 (“dispondo sobre pedidos de afastamento ao exterior, dos servidores das instituições estaduais de ensino”), o governador do Paraná estipula os seguintes critérios para afastamento ao exterior:

- uma única saída por ano;

- dois ou mais docentes, em trabalhos de co-autoria ou mesmo com trabalhos diferentes, não podem ter atendidos seus pedidos para o mesmo evento: somente um poderá ser autorizado a sair;

- os pedidos de saída devem vir acompanhados das seguintes exigências: i) aceite da Instituição receptora traduzido pelo docente; ii) documento que comprove o financiamento da viagem (se do exterior, com tradução); iii) o trabalho a ser apresentado se, em língua estrangeira, deve ser também traduzido.

Todas as exigências demonstram características peculiares desse governo:

- a mais básica: a extrema incompetência da Secretaria de Ciência e Tecnologia do Estado do Paraná, incapaz de ler e compreender diferentes línguas (e aqui estou limitando-me à língua inglesa e espanhola);

- a necessidade de traduzir documentos que já estão aprovados, seja na Instituição receptora, seja nas Agências de Fomento;

- a necessidade do pesquisador-docente passar pelo constrangimento de re-submeter um trabalho ao Estado que já foi aprovado seja pela Instituição receptora, seja pela Agência de Fomento.

Ano passado, durante uma conferência internacional que participei em Amsterdam (Holanda), discuti com vários colegas da Itália, França e Alemanha a situação que vige hoje no Paraná sobre a questão de afastamento para o exterior, quando eu próprio fui vítima de uma negativa do governo, mesmo tendo recebido apoio do CNPq.

Eles sorriram desconcertados e, jocosamente, disseram que isso seria aceitável se eu fosse um cidadão da Coréia do Norte, da China ou do Afeganistão...

É esse o estado de “Direito” que vivemos em nossas Academias públicas de Ensino Superior do Paraná. Enquanto isso o fluxo da evasão docente qualificada continua se intensificando dia-a-dia.

No relógio do atraso, somando todos os anos de qualificação perdidos com a evasão, não é de se espantar que o atual governo do Estado nos mergulhe na Idade da Pedra. Falta pouco ... O estrago está feito ... mas ainda é possível um ponto de inflexão. A pergunta que resta é: será realmente possível?!?

06 February 2007

O Cometa McNaught

Aqui na Terra o ano de 2007 começou com a continuidade das péssimas notícias de sempre: na esfera tupiniquim a cratera do metrô em São Paulo, a “cratera ética” em Brasília, as “crateras” do crime organizado e do “caos aéreo” em todo o país, e no mundo, dentre outras barbaridades, nenhum sinal dos conflitos diminuírem, pelo contrário, se acirraram, em especial no Oriente Médio que, do terrorismo passou para a guerra civil. Para compensar um pouco, o ano também começou com um inesperado cometa, o mais brilhante dos últimos 42 anos, que embelezou os céus e desviou a atenção das desgraças correntes, para pensarmos um pouco sobre o que acontece além deste planetinha na periferia da Via Láctea. Batizado com o nome de seu descobridor, o escocês radicado na Austrália Robert McNaught, o cometa McNaught tem uma órbita enorme, quase aberta, vindo provavelmente da Nuvem de Oort, nos confins do Sistema Solar, com um período de cerca de 100.000 anos! Robert, que se dedica a um projeto de procura de asteróides e cometas com risco de colisão com a Terra, não se considera um pesquisador, mas um astrônomo amador. Começou o curso de física, mas o deixou porque suas notas eram péssimas, acabou por fazer psicologia, outro assunto de que gostava, mas logo depois de formado conseguiu um emprego em astronomia, sua paixão de sempre. Robert já descobriu 32 cometas, 29 deles no Observatório Siding Spring, perto de Sydney. O período de 100 mil anos deste cometa nos leva a pensar sobre outros importantes fatos correlacionados.


Há 100.000 anos atrás

Com uma órbita tão grande, a cada revolução sujeito aos “puxões e empurrões” gravitacionais dos outros corpos do sistema solar ao longo do percurso, além da perda de massa ao passar mais próximo do sol, não é possível afirmar que a última vez que o cometa McNaught passou por aqui foi exatamente há 100.000 anos, mas provavelmente foi próximo desta data. Foi nesta época, segundo os indícios descobertos até o momento, que se deu o aparecimento do Homo sapiens anatômicamente moderno! Os primeiros enterramentos conhecidos de Neandertais também datam desta época. Os Neandertais já estavam presentes desde cerca de 200.000 mil anos antes do presente e iriam ainda conviver com o Homo sapiens até serem extintos por volta de 25 mil anos atrás. Também estavam presentes os Homo Erectus, que existiam desde cerca de 1,8 milhão de anos atrás e seriam extintos um pouco antes dos Neandertais, cerca de 32 mil anos atrás. A humanidade desta época remota, além destas três espécies, talvez também tivesse ainda uma quarta espécie, o Homo Floresiensis, que teria sido extinto por volta de 12 mil anos atrás e cujo período de abrangência não é conhecido. Os indícios desta espécie foram encontrados em 2004 e sua existência ainda está sob grande controvérsia na academia. Segundo as pesquisas, também foi neste período, de cerca de 100 mil anos antes do presente, que aconteceram grandes movimentos de populações dos homens modernos primitivos da África Central para o Oriente Médio. A pesquisadora Johana Nichols, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, EUA, depois de estudar cerca de 200 famílias de línguas, concluiu que “a mãe de todas as línguas”, existiu em algum lugar da África Central há pelo menos 100 mil anos. Nichols levantou a hipótese de que a “língua mãe” teria saído da África para o sudeste da Ásia e daí para o resto do mundo, num processo que teria tido início há 50 mil anos. O estudo indica que quando esta dispersão começou, já não era mais uma, mas várias línguas. Já o trabalho da equipe chefiada por Christopher Henshilwood, das Universidades de Bergen (Noruega) e Estadual de Nova York (EUA), publicado na Science (www.sciencemag.org) em 23/06/06, demonstra que as “jóias” mais antigas conhecidas de nossa civilização são 3 conchas, da espécie Nassarius gibbosulus, cada uma delas uma conta de um colar, com furos no mesmo lugar, dos sítios arqueológicos de Skhul, em Israel, e de Oued Djebbana, na Argélia, datadas de cerca de 100 mil anos atrás. Ou seja, muitíssimo antes das pinturas nas cavernas, como as famosas pinturas na caverna francesa de Chauvet, descobertas em 1994 e datadas de 32 mil anos atrás, o Homo sapiens já se guiava pela estética, observando e usando objetos especialmente bonitos da natureza. Assim, quando, provavelmente, o cometa McNaught passou por aqui, o Homo sapiens dava seus primeiros passos rumo à civilização que temos hoje.


Daqui a 100.000 anos

Daqui a cerca de 100 mil anos, um piscar de olhos na escala de tempo dos acontecimentos no Universo, quando, e se, o cometa McNaught passar novamente perto de nosso planeta, o que estará acontecendo por aqui? Estaremos viajando pelo Universo, usando “buracos de minhoca” no espaço-tempo? Estaremos em contato com civilizações extraterrestres? Teremos resolvido os problemas da “agonia do homem”, da miséria humana, física e espiritual, em todos os sentidos? Toda nossa civilização documentada, digamos de uns 5 a 6 mil anos até o presente, a partir da invenção cerâmica, é apenas 1/20 de 100 mil anos! Podemos afirmar que há cem mil anos o homem era irrelevante como força transformadora da natureza, coisa que hoje, com base nos dados do recente relatório da ONU sobre o aquecimento global, podemos dizer que somos a maior força danificadora do planeta, superando tempestades, furacões e terremotos. A civilização do Homo sapiens (êta nome pretensioso) conseguirá superar suas limitações, que tem causado todos estes problemas? Será que nos próximos anos, e terá que ser em muito menos de 5 mil anos, o Homem conseguirá se superar espiritualmente e harmonizar-se com sua própria espécie e com o planeta, aceitando que faz parte e não é proprietário plenipotenciário de Gaia? O século corrente será fundamental para responder a esta questão. Afinal, em cerca de cem anos, mantido o atual desmedido crescimento populacional e a exploração irracional dos recursos do planeta (promovida pela espécie que se autodenomina como a única racional da biosfera), as mudanças climáticas, e não só elas, serão catastróficas e poderão exterminar nossa civilização atual. Bem, não será a primeira civilização destruída pela estupidez humana. Só que desta vez, diferentemente de todas as outras que já acorreram na história, poderá ser um acontecimento global. Quando o cometa McNaught passar por aqui novamente, para o bem ou para o mal, a “agonia do homem” terá sido “resolvida” há muito tempo. Que planeta Terra será que ele vai encontrar?