O Céu e a Terra
<> Nestes últimos tempos a astronomia e a astrofísica têm nos proporcionado notícias do Cosmos bem mais interessantes que os acontecimentos na Terra, onde, seja localmente ou em nível global, não pára de crescer um tremendo cheiro de podridão, hipocrisia, preconceito, falta de ética e sectarismo. Se houvesse vida inteligente em outro lugar do sistema solar, certamente estaríamos sendo processados por "degradação do meio ambiente psico-social do sistema solar". Bem, parto da premissa (otimista) de que existe vida inteligente aqui. . .<>
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Colisão cósmica
<> No final do mês passado a Astronomia conseguiu o raro feito de colocar na primeira página de quase todos os principais jornais do mundo uma grande foto mostrando o choque de dois aglomerados de galáxias, tida como a comprovação da existência da "matéria escura". A imagem veiculada foi produzida pelo telescópio orbital Chandra, que opera na faixa dos comprimentos de onda dos raios X. Os raios X têm energia bastante mais alta que a luz visível, apresentando assim uma menor absorção pelo meio interestelar, permitindo visualizar melhor processos que acontecem a grandes distâncias da Terra, com muita poeira e outros objetos no meio. Além disso, muitos fenômenos se caracterizam pela emissão especifica de Raios X. Isso vale também para raios gama, de energia ainda mais alta. Por esta razão, depois do telescópio Hubble, que trabalha na faixa do visível, foram lançados outros telescópios espaciais, que observam o universo em faixas de comprimentos de onda mais curta, de energia mais alta e invisíveis aos nossos olhos, mas importantíssimas para observar os fenômenos de maneira mais detalhada. Chandra enviou a imagem do aglomerado de galáxias 1E0657-556, resultante da colisão de dois aglomerados de galáxias, o evento cósmico mais energético que se conhece, depois do Big Bang, a explosão primordial que teria dado origem ao Universo conhecido. O formato de projétil do aglomerado foi interpretado como uma prova da existência de matéria escura na região. Esta, através da interação gravitacional com a matéria comum (única forma através da qual elas interagem), a distorce e produz uma alteração no espaço-tempo local, desviando a luz emitida pelas galáxias, como uma potente lente, chamada de lente gravitacional. Aqui há uma premissa importante: que a interação gravitacional como a conhecemos é a mesma em diferentes grandes escalas. Nem todos concordam com ela. Veja imagens do Chandra no site chandra.harvard.edu.
Quatro porcento
<> Foi no final dos anos 90, na virada do século, que as evidências observacionais se acumularam e a maioria dos cientistas da área concluiu: tudo o que sabemos sobre o Universo, toda a física com que a ciência trabalha, a matéria e a energia que envolve os processos que compõe os seres vivos, os planetas, as estrelas, enfim, tudo que conhecemos, representa apenas cerca de 4% do Universo, que agora são chamadas de matéria e energia comum. A medida da dinâmica de aceleração dos aglomerados de galáxias no Universo, versus as suas massas inferidas, mostrou que, valendo a teoria gravitacional vigente, assim como a constância da velocidade da luz, há necessidade de muito mais matéria e energia para explicar as observações. Como estas não foram medidas diretamente até agora, foram chamadas de matéria escura e energia escura, calculando-se que representem cerca de 21% e 75% do Universo, respectivamente. Apesar de serem minoria, alguns pesquisadores entendem que teorias modificadas da interação gravitacional (em conjunto ou não com teorias de velocidade da luz variável) expliquem os fenômenos sem a necessidade da matéria e energia escura – mas, atualmente, a maioria duvida que estas novas teorias tenham sucesso em descrever os dados.
Humildade e desafio
<>Se for assim, por maior e mais fantástico que seja o Universo conhecido (e o é!), ele é apenas 4% de algo que não temos a mínima idéia do que seja. . .Um enorme desafio científico e filosófico para o século XXI e um bom argumento para recordar aquela palavrinha quase esquecida: humildade, em todos os sentidos. A humanidade já deveria ter reposicionado o entendimento sobre si mesma e sobre o Cosmos, já que reconhecidamente estamos num planeta minúsculo de uma estrela comum, na periferia de uma galáxia comum com bilhões de estrelas (grande parte delas com outros sistemas planetários), em meio a trilhões de outras galáxias. Agora que sabemos que isto tudo é apenas 4%, precisamos pensar ainda melhor sobre o que estamos fazendo aqui. A Ciência não pára de fornecer dados concretos para um olhar maior, para uma reflexão sobre a insensatez e mesquinharia dos conflitos humanos, dos descaminhos da civilização atual, enfim do mau cheiro a que me referi no início desta coluna. Mas, como um país de alucinados, um planeta de alucinados, seguimos olhando para o umbigo, incapazes ou sem vontade de entender as mensagens que o cosmos nos envia.Frases da semana
" A coisa mais incompreensível acerca do Universo é que ele é compreensível"
"É uma doença natural do homem acreditar que possui a verdade diretamente e disso decorre que está sempre disposto a negar tudo o que lhe é incompreensível. O supremo passo da razão está em reconhecer que há uma infinidade de coisas que a ultrapassam".
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Pascal (em Pensées)
Publicado em 10 de setembro de 2006 às 11:29 por appoloni
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