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13 September 2006

O oitavo planeta

Como oportunamente me chamou a atenção Gilberto Sanzovo, astrofísico do Depto. de Física da UEL, a reunião da União Astrofísica Internacional realizada em agosto, assim como as manchetes de toda a mídia, se dedicaram ao debate sobre aumentar o número de planetas para doze ou reduzi-lo para oito, perdendo de vista algo mais importante do que esta questão de nomenclatura: comemorar os 160 anos da previsão e descoberta do planeta Netuno, que é agora o oitavo e último planeta do sistema solar, depois do rebaixamento de Plutão para a categoria geral de planeta anão.

Planeta anunciado

A descoberta de Netuno foi um  marco histórico para a Astronomia pois foi a primeira vez que os astrônomos realizaram cálculos e a partir deles previram a existência de um planeta, que depois foi observado na órbita prevista. Os cálculos, realizados independentemente por Leverrier e  Adams,  se basearam em perturbações observadas na órbita do planeta Urano. Perturbações estas que só poderiam ser explicadas se houvesse um outro planeta, cuja influência gravitacional produzisse os efeitos medidos. Feitas as previsões, Netuno foi observado pela primeira vez pelos astrônomos alemães Johann Galle e Heinrich d’Arrest em 23 de setembro de 1846. Portanto, no próximo dia 23, se completará 160 anos de sua descoberta observacional.

Netuno

Netuno foi o segundo planeta a ser descoberto através de telescópios. O primeiro foi Urano. O nome foi sugerido pelo astrônomo francês U. Leverrier (1811-1977), que o previu, em virtude de sua coloração esverdeada que lembrava Netuno, o deus romano do Mar Verde, equivalente ao deus grego Poseidon. Com um diâmetro de 49.000 km, a uma distância média do Sol de 4.500 milhões de km, Netuno possui vários anéis e 11 satélites naturais confirmados até o momento, dos quais os maiores são Tritão e Nereida. Todos os gigantes jovianos (Júpiter, Saturno, Urano e Netuno) tem anéis. Netuno tem uma composição atmosférica de cerca de 89% de Hidrogênio, 11% de Hélio, traços de metano, água e amônia. Netuno emite 2,7 vezes mais energia do que recebe do Sol, um interessante desafio para os estudiosos do sistema solar.

“Novo” Sistema Solar

Xena (objeto 2003UB313) detonou a questão. Descoberto num órbita solar bastante excêntrica, fora do plano das órbitas dos outros planetas (da mesma forma que Plutão), com diâmetro de cerca de 3.000 km e a uma distância média do Sol de 16 bilhões de km, era candidato a décimo planeta. Dadas suas características, se fosse catalogado como planeta, poderia acarretar a mesma “promoção” para Ceres (fica entre Marte e Júpiter, tem 930 km de diâmetro) e para Caronte (com diâmetro de 1.200 km e considerado um satélite de Plutão, que tem diâmetro de 2.300 km). Chegou-se a noticiar um Sistema Solar de doze planetas. Mas, o resultado da reunião da União Astrofísica Internacional foi alterar a definição de planeta verdadeiro para: (1) gira em torno do Sol; (2) tem massa suficiente para assumir a forma de um esferóide; (3) é o  corpo  dominante em tamanho na sua órbita. Com base nesta definição, o Sistema Solar ficou com oito planetas (de Mercúrio até Netuno), três planetas anões, Ceres, Plutão e Xena (que atendem aos critérios 1 e 2, mas não ao 3 e não são satélites), além dos outros objetos que orbitam em torno do Sol, como asteróides, cometas, etc, que ficam enquadrados na categoria de “pequenos corpos do Sistema Solar”.

Homenagem celeste

Aproveitando que estou falando de "astros",  a Profa. Dra. Rosa Scorzelli (66), do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF, RJ), recebeu uma homenagem inusitada: um asteróide  foi  batizado com seu nome. O asteróide metálico batizado de 7735 Scorzelli está no cinturão de asteróides que orbitam entre os planetas Marte e Júpiter, possui um diâmetro de 10 a 21 km e é composto quase que totalmente de ferro e níquel. A Dra. Scorzelli, dentre outras pesquisas, estuda a composição química de meteoritos e identificou dois minerais que não ocorrem em nenhum outro lugar e não podem ser produzidos  em laboratório.  A direção do CBPF declarou que se trata de homenagem “à Dra. Scorzelli, por seus trabalhos pioneiros, junto com o prof. Jacques Danon (seu orientador), sobre análise de meteoros metálicos, utilizando  o efeito Mossbauer. Esses estudos permitiram compreender o complexo histórico de resfriamento durante a formação do núcleo de planetas minoritários. A Dra. Scorzelli é pesquisadora  titular do CBPF e tem se destacado em vários temas de pesquisa interdisciplinar, em  particular Meteorítica e Arqueometria. Em agosto de 2004, ela presidiu o 670 Encontro Anual da Sociedade  Meteorítica, realizado no RJ. Essa é uma sociedade internacional dedicada  ao ensino e pesquisa sobre meteoros e outros materiais extraterrestres”. Os interessados sem saber mais sobre o 7735 Scorzelli podem acessar o site <neo.jpl.nasa.gov/orbits>.  

10 September 2006

Choque de galáxias

O Céu e a Terra

<> Nestes últimos tempos a astronomia e a astrofísica têm nos proporcionado notícias do Cosmos bem mais interessantes que os acontecimentos na Terra, onde, seja localmente ou em nível global, não pára de crescer um tremendo cheiro de podridão, hipocrisia, preconceito, falta de ética e sectarismo. Se houvesse vida inteligente em outro lugar do sistema solar, certamente estaríamos sendo processados por "degradação do meio ambiente psico-social do sistema solar". Bem, parto da premissa (otimista) de que existe vida inteligente aqui. . .<>

<> 

Colisão cósmica

<> No final do mês passado a Astronomia conseguiu o raro feito de colocar na primeira página de quase todos os principais jornais do mundo uma grande foto mostrando o choque de dois aglomerados de galáxias, tida como a comprovação da existência da "matéria escura". A imagem veiculada foi produzida pelo telescópio orbital Chandra, que opera na faixa dos comprimentos de onda dos raios X. Os raios X têm energia bastante mais alta que a luz visível, apresentando assim uma menor absorção pelo meio interestelar, permitindo visualizar melhor processos que acontecem a grandes distâncias da Terra, com muita poeira e outros objetos no meio. Além disso, muitos fenômenos se caracterizam pela emissão especifica de Raios X. Isso vale também para raios gama, de energia ainda mais alta. Por esta razão, depois do telescópio Hubble, que trabalha na faixa do visível, foram lançados outros telescópios espaciais, que observam o universo em faixas de comprimentos de onda mais curta, de energia mais alta e invisíveis aos nossos olhos, mas importantíssimas para observar os fenômenos de maneira mais detalhada. Chandra enviou a imagem do aglomerado de galáxias 1E0657-556, resultante da colisão de dois aglomerados de galáxias, o evento cósmico mais energético que se conhece, depois do Big Bang, a explosão primordial que teria dado origem ao Universo conhecido. O formato de projétil do aglomerado foi interpretado como uma prova da existência de matéria escura na região. Esta, através da interação gravitacional com a matéria comum (única forma através da qual elas interagem), a distorce e produz uma alteração no espaço-tempo local, desviando a luz emitida pelas galáxias, como uma potente lente, chamada de lente gravitacional. Aqui há uma premissa importante: que a interação gravitacional como a conhecemos é a mesma em diferentes grandes escalas. Nem todos concordam com ela. Veja imagens do Chandra no site chandra.harvard.edu.

 

Quatro porcento

<> Foi no final dos anos 90, na virada do século, que as evidências observacionais se acumularam e a maioria dos cientistas da área concluiu: tudo o que sabemos sobre o Universo, toda a física com que a ciência trabalha, a matéria e a energia que envolve os processos que compõe os seres vivos, os planetas, as estrelas, enfim, tudo que conhecemos, representa apenas cerca de 4% do Universo, que agora são chamadas de matéria e energia comum. A medida da dinâmica de aceleração dos aglomerados de galáxias no Universo, versus as suas massas inferidas, mostrou que, valendo a teoria gravitacional vigente, assim como a constância da velocidade da luz, há necessidade de muito mais matéria e energia para explicar as observações. Como estas não foram medidas diretamente até agora, foram chamadas de matéria escura e energia escura, calculando-se que representem cerca de 21% e 75% do Universo, respectivamente. Apesar de serem minoria, alguns pesquisadores entendem que teorias modificadas da interação gravitacional (em conjunto ou não com teorias de velocidade da luz variável) expliquem os fenômenos sem a necessidade da matéria e energia escura – mas, atualmente, a maioria duvida que estas novas teorias tenham sucesso em descrever os dados.

 

Humildade e desafio

<>Se for assim, por maior e mais fantástico que seja o Universo conhecido (e o é!), ele é apenas 4% de algo que não temos a mínima idéia do que seja. . .Um enorme desafio científico e filosófico para o século XXI e um bom argumento para recordar aquela palavrinha quase esquecida: humildade, em todos os sentidos. A humanidade já deveria ter reposicionado o entendimento sobre si mesma e sobre o Cosmos, já que reconhecidamente estamos num planeta minúsculo de uma estrela comum, na periferia de uma galáxia comum com bilhões de estrelas (grande parte delas com outros sistemas planetários), em meio a trilhões de outras galáxias. Agora que sabemos que isto tudo é apenas 4%, precisamos pensar ainda melhor sobre o que estamos fazendo aqui. A Ciência não pára de fornecer dados concretos para um olhar maior, para uma reflexão sobre a insensatez e mesquinharia dos conflitos humanos, dos descaminhos da civilização atual, enfim do mau cheiro a que me referi no início desta coluna. Mas, como um país de alucinados, um planeta de alucinados, seguimos olhando para o umbigo, incapazes ou sem vontade de entender as mensagens que o cosmos nos envia. 

Frases da semana

" A coisa mais incompreensível acerca do Universo é que ele é compreensível"

Albert Einstein

 

"É uma doença natural do homem acreditar que possui a verdade diretamente e disso decorre que está sempre disposto a negar tudo o que lhe é incompreensível. O supremo passo da razão está em reconhecer que há uma infinidade de coisas que a ultrapassam".

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<>Pascal (em Pensées)