As Academias de Ciência dos sete países mais ricos e da Rússia (que compõe o chamado Grupo das 8 nações mais influentes do mundo ou G-8), além das Academias do Brasil, Índia, China e África do Sul, reunidas em Moscou, nos dias 19 e 20 de abril, lançaram uma Declaração Conjunta, contendo recomendações sobre sustentabilidade e segurança energéticas, gripe aviária e doenças infecciosas, que serão apreciadas na Reunião de Cúpula do G-8 que acontecerá no dia 18 de julho. O documento foi encaminhado ao presidente Vladimir Putin, que presidirá a reunião do G-8 em San Petersburgo, Rússia. A seguir alguns trechos do importante documento.
Gripe Aviária e pandemias
“No momento o mundo se depara com o problema ocasionado pela disseminação da gripe aviária. É possível que o processo evolua para uma pandemia de gripe humana. Pandemias são raras, mas podem ter conseqüências devastadoras para a saúde pública mundial. A SARS (Síndrome Respiratória Aguda Severa) provocou elevadas perdas econômicas, com estimativas de cerca de trinta bilhões de dólares americanos. As conseqüências sociais e econômicas de uma pandemia de gripe poderiam ser consideravelmente maiores. A gripe aviária é uma das muitas doenças infecciosas com as quais nos deparamos. É, por enquanto, uma preocupação para a saúde animal e para o comércio avícola, tendo potencial para iniciar uma pandemia humana. Atualmente, contudo, não é de forma alguma a preocupação mais relevante para a humanidade como um todo. Enquanto algumas providências que estão sendo tomadas são de relevância apenas para a gripe aviária, outras (por exemplo, o estabelecimento de redes de monitoração nacionais e internacionais de doenças) também serão de utilidade para outras doenças infecciosas. Será de importância crucial para a comunidade mundial não esquecer essas outras doenças enquanto aborda os problemas da gripe aviária. Por outro lado, a gripe aviária poderia se transformar numa catalisadora para melhorar a investigação e a capacidade de resposta à ameaça de doenças emergentes ou re-emergentes. A experiência mais recente tem demonstrado que medidas de controle de zoonoses emergentes, tanto para reduzir sua disseminação, como para diminuir perdas econômicas, têm que ser coordenadas internacionalmente, a fim de prevenir riscos de longo prazo para a saúde humana. Todos os paises do mundo deveriam cooperar na abordagem dos problemas envolvendo a gripe aviária, assim como nas estratégias mundiais de longo prazo quanto a outras doenças infecciosas e emergentes importantes. Isso irá demandar ações coordenadas numa escala mundial de partes interessadas, que incluem governos, cientistas, especialistas em saúde pública, veterinários, economistas, representantes da comunidade empresarial e do público em geral. Apelamos, pois, aos lideres mundiais, em particular aos que participarão da reunião do G8 em julho de 2006, em São Petersburgo, a implementar as recomendações abaixo. Da nossa parte, nós nos comprometemos a trabalhar com os governos e outros parceiros apropriados para atingir essas metas”. Na continuidade o documento detalha as 10 recomendações fundamentais para enfrentar esta questão e depois passa a tratar da questão de sustentabilidade e segurança energéticas.
Sustentabilidade e segurança energéticas
“Um amplo consenso internacional reconhece três componentes principais e inter-relacionados relativos ao desenvolvimento sustentável: a prosperidade econômica , o desenvolvimento social e a proteção ambiental. O suprimento sustentável e confiável de energia é uma das principais condições para atingir três objetivos para todos os países do mundo: se a sustentabilidade e a segurança energética falharem, os objetivos principais do desenvolvimento humano não serão atingidos. No ano passado as Academias de Ciência abordaram os grandes desafios das mudanças globais. Esses desafios estão predominantemente relacionados aos sistemas e uso da energia. (...)
Tornou-se crescentemente claro que existem várias dificuldades sérias relacionadas à sustentabilidade e segurança energéticas. Essas incluem:
· Significativos impactos globais e regionais sobre o ambiente, sobre as mudanças climáticas e sobre a saúde baseada na extrapolação do uso das atuais fontes e sistemas de energia;
· Uma clara percepção de que a demanda por fontes de energia limpa e de custo razoável crescerá progressivamente, requerendo investimentos para criar um eficiente sistema de suprimento de energia;
· Tensões, especialmente no suprimento de energia para os sistemas de transporte;
· Correlações geográficas progressivamente piores entre fontes e usuários de energia;
· Uso ineficiente e desperdício de recursos energéticos;
· Aumento acelerado e flutuação nos preços do gás e do petróleo;
· Provimento de combustíveis e eletricidade para uma parcela significativa da população mundial para ajuda-la a melhorar sua qualidade de vida;
· Impactos dos desastres naturais, colapso de sistemas e atos humanos na infra-estrutura energética.
Encontrar soluções para a sustentabilidade e segurança energéticas exigirá muitas vigorosas ações a nível nacional e considerável cooperação internacional. Essas ações e medidas cooperativas necessitarão ser baseadas em apoio público de amplo espectro, especialmente na exploração de caminhos em direção ao uso eficiente de energia. Em segundo lugar, será necessário desenvolver e disponibilizar novas fontes e sistemas para o suprimento de energia, incluindo o uso limpo de carvão e de recursos fósseis não convencionais, sistemas nucleares avançados e energia renovável. A diversificação de combustíveis para motores, o uso crescente de tecnologias de baixa emissão no transporte pessoal e maior ênfase na oferta de transporte urbano de massa poderia introduzir a tão necessária flexibilidade e economia num mundo com rápida urbanização crescente. As mudanças necessárias e as transições nos sistemas de energia e seus paradigmas não serão possíveis sem atingir muitos objetivos desafiadores no campo científico, técnico e econômico e irão requerer o investimento de uma enorme soma de recursos de maneira sustentada ao longo de décadas. Elas irão igualmente exigir uma grande abertura e transferência de conhecimento, tecnologia e capital. Atingir um nível aceitável de sustentabilidade e segurança energéticas a nível global demandará, portanto, o foco governamental e a cooperação internacional no sentido de identificar prioridades estratégicas nas políticas de energia e a implementação sustentada das políticas, ações e investimentos nacionais. Será igualmente crítico envolver o púbico e as lideranças industriais para que estabeleçam e atinjam as prioridades chave, se quisermos coletivamente lidar com as ameaças à sustentabilidade e segurança energéticas a tempo de evitar enormes danos econômicos, ambientais e políticos. (...) Conclamamos os lideres mundiais, especialmente aqueles que se reunirão na Cúpula do G8 em julho de 2006 a:
· Articular a realidade e urgência das preocupações com a segurança energética global;
· Planejar investimentos maciços em infra-estrutura e a estabelecer prazos necessários para a transição para sistemas sustentáveis de energia limpa, a custos aceitáveis e sustentáveis;
· Intensificar a cooperação com os países em desenvolvimento a fim de desenvolver sua capacidade doméstica para usar sistemas energéticos existentes e inovadores, incluindo a transferência de tecnologia;
· Promover, através de políticas e instrumentos econômicos adequados o desenvolvimento e a implementação de tecnologias de combustíveis fósseis, nucleares e renováveis a custos competitivos, ambientalmente benéficas e aceitáveis pelo mercado;
· Assegurar , em cooperação com a indústria, que tecnologias sejam desenvolvidas e implementadas e que ações sejam tomadas para proteger a infra-estrutura energética, de desastres naturais, falhas tecnológicas e ações humanas;
· Enfrentar a séria inadequação do financiamento em P&D e prover incentivos para acelerar P&D avançados relacionados à energia, também em cooperação com companhias privadas;
· Implementar programas de educação para aumentar a compreensão do publico sobre os desafios energéticos e prover capacitação e competência na engenharia relacionada.
· Focalizar os esforços governamentais em pesquisa e tecnologia em eficiência energética, hidrocarbonetos não convencionais e carvão “limpo” com seqüestro de CO2 , energia nuclear inovadora, sistemas de distribuição de potência, fontes renováveis de energia, produção de biomassa e conversão de biomassa em gás para combustíveis”.
Espero que os líderes de todos os países do mundo, em especial aqueles que compõe o G-8, sejam sensíveis às propostas apresentadas pelas Academias de Ciência. O documento completo está disponível no site da Academia Brasileira de Ciências (ABC), www.abc.org.br, assim como foi publicado na íntegra no número 578 do Jornal da Ciência (versão impressa), de 30/06/06.
Publicado em 21 de julho de 2006 às 00:00 por appoloni