Brasileiro no espaço
Às 20h48 de 8 de abril, terminou a missão espacial de 10 dias do primeiro astronauta brasileiro, o tenente-coronel Marcos Cesar Pontes, 43. A missão transcorreu como previsto, desde o lançamento no dia 29 de março às 23h29 (horário de Brasília) no Cosmódromo de Baikonur (Cazaquistão), a viagem até o atracamento na Estação Espacial Internacional (ISS), o período de 8 dias a bordo da ISS, a viagem de volta e o pouso em Arkalyk, região central do Cazaquistão. A viagem de Pontes deveria ter acontecido anos atrás, em 2000 ele foi declarado apto para vôo espacial. Mas, o atraso na participação financeira do Brasil na construção da ISS (planejada desde 1997), e o trágico acidente com o ônibus espacial americano Columbia, em 2003, alteraram os planos. Ao invés do moderno (e problemático) ônibus espacial americano, Pontes acabou voando com a velha (e confiável) nave russa Soyuz TMA-7, pouco diferente da primeira versão da Soyuz de 1967. Muita gente chegou a pensar (inclusive o próprio) que o primeiro astronauta brasileiro não chegaria a voar. Bem, voou e voltou! Realizou tudo que foi planejado para sua missão, homenageou Santos-Dumont durante o vôo, realizou duas entrevistas ao “Jornal Nacional”, da Rede Globo (que comprou diretamente com os russos o tempo de transmissão da ISS), fez uma terceira entrevista coletiva para jornalistas brasileiros, além de conversar com o Presidente Lula. A Missão Centenário 1906-2006 (em homenagem ao pioneirismo do vôo do 14-Bis de Santos-Dumont na França) fez parte da 16a expedição à ISS e oitavo vôo da Soyuz. Durante a missão foram realizados oito experimentos de microgravidade, entre eles o de germinação de plantas. No entanto, enquanto no espaço tudo ia bem, aqui em terra o debate sobre a real importância da missão pegou fogo.
Controvérsia
O ufanismo das comparações de Pontes com Santos-Dumont e Ayrton Senna mostraram bem como as pessoas podem perder o foco e a noção das coisas e nem merecem maiores comentários. Alguns centraram fogo no investimento direto de cerca de R$ 10 milhões para a Missão Centenário, taxando-o de improdutivo, esquecendo-se do retorno com a experiência que Pontes trará para a formação de novos astronautas, dos projetos de microgravidade realizados e a visibilidade para o Programa Espacial Brasileiro. Os títulos de alguns artigos, cuja leitura recomendo, são auto-explicativos: “É importante para o Brasil lançar astronautas ao espaço?”, de Luiz Gylvan Meira Filho e “Pontes está longe de ser o prato forte do programa espacial brasileiro”, de José Montserrat Filho, respectivamente nas páginas A32 e A33 do jornal Folha de São Paulo de 26/03; “150 doutores foram para o espaço”, de Fernando Reinach, publicado no Jornal da Ciência e-mail de 05/04 e o artigo “O Brasil no espaço, um programa estratégico”, do Ministro da C&T, Sergio Machado Rezende, na página A3 do jornal Folha de São Paulo de 09/04. Neste último, entre outras questões, o Ministro da C&T lembra que o investimento total do país na ISS (incluindo a Missão Centenário) representou menos de 1% do orçamento do MCT para 2006. Apenas a soma dos 47 editais para seleção de projetos de pesquisa lançados em fevereiro deste ano foi de R$ 745 milhões. Controvérsias à parte, esperamos que esta missão efetivamente atinja todos os objetivos diretos e indiretos, esperados e não-esperados, no sentido de reforçar o Programa Espacial Brasileiro.
Biossensores
Gostaria chamar a atenção para o artigo “Arte e Pesquisa no espaço”, de Salvador Nogueira, publicado na página 9 do Caderno “Mais!” do jornal Folha de São Paulo de 19/03, sobre um dos experimentos conduzidos por Pontes. Trata-se de um experimento híbrido de ciência e arte, de filmagem da interação entre nuvens atomizadas de luciferina e luciferase, que reunidas produzem a bioluminescência dos vaga-lumes. No ambiente de microgravidade, em que não há correntes de convecção, a reação poderá ser estudada sem os efeitos que mascaram o processo aqui na Terra, melhorando o entendimento do processo que poderá auxiliar no desenvolvimento de biossensores. A análise das imagens será feita no ambiente imersivo de uma “cave”, mais conhecida pelos artistas do que por cientistas, em uma sala de projeções em que o processo da interação entre as nuvens de proteínas será recriado em três dimensões.
Publicado em 11 de abril de 2006 às 00:00 por appoloni
Um Abraço