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Lições de 2005
Ao encerrarmos o ano de 2005, pródigo em grandes avanços na Ciência e na Tecnologia, inclusive nas terras tupiniquins, a fraude do cientista coreano Woo-Suk Hwang nos remete a reflexões importantes, não somente sobre questões éticas, mas para a pequenez humana. Tanto faz se trata-se de um grande político, um chefe religioso, um jornalista famoso, um cientista, um artista renomado ou um anônimo cidadão: quando o orgulho e a ambição falam mais alto do que qualquer outro objetivo, o resultado, mais cedo ou mais tarde, é sempre o desastre. A cena política brasileira foi pródiga destes exemplos em 2005 e na véspera do Natal foi a vez do pioneiro da clonagem humana, “o orgulho da Coréia”. A grande diferença, em relação aos políticos brasileiros, foi que Hwang curvou a cabeça, pediu desculpas publicamente, demitiu-se de seu cargo e pediu o cancelamento do artigo que havia publicado em maio deste ano na revista Science (www.sciencemag.org). O artigo tratava da obtenção de 11 linhagens pioneiras de células-tronco embrionárias humanas obtidas por clonagem de células adultas de pessoas doentes, mas, na verdade, os dados eram de apenas duas linhagens. Foi um choque para comunidade de biotecnologia, um retrocesso na pesquisa sobre as células tronco e combustível de graça para os conservadores contrários a este tipo de pesquisa, devido a sua oposição à destruição de embriões. Na história recente existem outros casos famosos (e piores) de fraudes científicos, o maior deles foi do físico alemão Hendrick Schön, demitido dos Laboratórios Bell em 2002, depois de ter sido descoberto que “o gênio” havia fraudado 16 de suas 24 publicações, todas realizadas em famosas revistas de ponta, com pareceristas rigorosíssimos - pelo menos quando se trata de artigos enviados por pesquisadores de países que não são do primeiro mundo. . .
Destaques de 2005
Como todo final de ano, a já citada revista Science publica a lista das dez mais importantes realizações científicas do ano, de acordo com o seu corpo editorial. O trabalho de Hwang estava na lista, mas foi retirado assim que ficou claro que ele iria cancelar o artigo. O primeiro lugar da lista ficou por conta de várias pesquisas que confirmam a teoria da evolução de Charles Darwin. Dentre elas, destaca-se a decodificação do genoma do chimpanzé, anunciado em setembro por um consórcio internacional de pesquisadores. O mapa do DNA da espécie mais próxima dos seres humanos apresentou diferenças de 4% em relação ao DNA destes. O segundo lugar foi para a pesquisa espacial. Este ano foi pleno de espetaculares missões não-tripuladas, dentre elas a sonda Cassini em órbita de Saturno, a descida da sonda Huygens na superfície de Titã, o choque planejado da nave “Deep Impact” contra um cometa para o estudo de sua estrutura e composição, e os estudos que os jipes “Spirit” e “Opportunity” continuaram a fazer na superfície de Marte durante todo o ano. Não se pode deixar de lembrar que as Sondas Voyager 1 e 2, lançadas 28 anos atrás, ultrapassaram em 2005 os limites do Sistema Solar (cerca de 14 trilhões de quilômetros) enviando dados importantes. Elas estão agora mais sob a influência do meio interestelar do que solar e com potencial para novidades ainda maiores. Também em terra houve um destaque: o início do funcionamento da maior instalação na Terra para o estudo de raios cósmicos ultra-energéticos (zévatrons), o Observatório Pierre Auger. O Auger envolve um consórcio de 16 países, 250 doutores em física e cem engenheiros especializados e já instalou 1.000 da malha final prevista de 1.600 detectores, em Malargüe, Província de Mendoza, Argentina. Agora Mendoza, além dos ótimos vinhos, da famosa estação de esqui Las Leñas, tem também o “produto ciência”, já que o Centro de Visitação do Observatório Auger virou atração turística. Em 2006 voltarei à lista dos destaques de 2005.
11º Destaque Tecnológico de Londrina
Foram anunciados os vencedores da 11a edição do Prêmio Destaque Tecnológico Banco do Brasil, cuja solenidade de premiação está marcada para o dia 14 de março de 2006 às 20:00 h, durante o jantar anual da ADETEC. Criado pela ADETEC em 1995 para homenagear pessoas, empresas e instituições que a cada ano se destaquem na pesquisa, fomento ou desenvolvimento de novas tecnologias na região, o Destaque 2006 teve uma disputa particularmente acirrada na categoria pesquisa. A seguir a relação dos vencedores, selecionados por um grupo técnico designado pela Assembléia Geral da ADETEC.
Destaque Empresa: Identech Produtos Eletrônicos.
Destaque Pesquisa: Dr. Paulo H. Caramori (Iapar). Destaque Software: MABTEC Software. Destaque Incentivo: Codel - Companhia de Desenvolvimento de Londrina. Destaque Especial: Unopar Virtual. Destaque Especial: Londrina Convention & Visitors Bureau. Fonte: Boletim da ADETEC (www.adetec.org.br).
58a Reunião Anual da SBPC
A 58a Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) será realizada de 16 a 21 de julho de 2006, no campus da Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis. O tema central do evento será “SBPC&T Semeando Interdisciplinaridade”. As inscrições já estão abertas! Para maiores informações sobre a reunião, visite o site www.sbpcnet.org.br/eventos/58ra.
Cerca de 2.200 pessoas participaram da 3a Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, realizada em Brasília de 16 a 18 de novembro. Apesar das autoridades comemorarem as boas notícias, como a Lei de Inovação e sua regulamentação, e a recente Medida Provisória “do Bem”, não deixou de ser frustrante constatar que as conclusões do evento, que teve como tema “Desenvolvendo idéias para desenvolver o Brasil”, foram praticamente as mesmas da primeira conferência, realizada 20 anos atrás. Como a maior parte das propostas da primeira conferência não foram implementadas, o Brasil “perdeu vários bondes” e vimos países, como a Coréia do Sul, realizar nos anos 80 aquilo que aqui não saiu do papel, tendo como resultado o expressivo crescimento econômico e social que constatamos hoje. O diagnóstico central atual - e o de vinte anos atrás - é o da falta de investimento em pesquisa e desenvolvimento tecnológico (P&D) por parte das empresas. Embora o Brasil ocupe a 17a posição no ranking da produção científica internacional, está em 41o lugar em produção de tecnologia e em 55o em competitividade. Em 2004 o Brasil registrou 106 patentes nos EUA, enquanto a Coréia do Sul registrou 4.428. O Ministério da Ciência e da Tecnologia, criado em 1985, só começou a falar em Inovação em 2000, demonstrando quão recente são as ações governamentais nesta área. Mas, desta vez, o empresariado participou significativamente da conferência, sinalizando que, apesar dos vinte anos de atraso, o cenário começa a se transformar concretamente. O material produzido pela conferência é bastante volumoso. Todas as apresentações multimídias realizadas durante as 35 sessões paralelas e nove plenárias da conferência, assim como os documentos finais das conferências regionais e da nacional, podem ser acessados no site http://www.cgee.org.br/cncti3. Em janeiro, será lançada em CD e DVD a íntegra das palestras apresentadas. Dentro os anúncios e promessas realizados aproveitando a conferência, o Presidente Lula comunicou que a reserva de contingência dos Fundos Nacional de Ciência e Tecnologia (FNDCT) estará limitada a 40% em 2006 e que as alíquotas cairão progressivamente a zero até 2009. Isto significará uma liberação de R$ 1,2 bilhão para o FNDCT em 2006, ao invés dos R$ 860 milhões previstos sem o limite na contingência. Já o Ministro da C&T, Sérgio Rezende, anunciou que o MCT investirá cerca de R$ 250 milhões em Inovação em 2006.
O prêmio Ig Nobel (um trocadilho com “ignóbil”), criado em 1968, é concedido a pesquisadores ou instituições que tenham dado contribuições consideradas inúteis à ciência durante o ano. Em 1999 o físico britânico Len Fisher, da Universidade de Bristol ganhou o “prêmio” de sua categoria com uma equação que fornece a melhor maneira de mergulhar um biscoito em um copo de leite. Um dos mais famosos ganhadores foi o Presidente da França, Jacques Chirac, na modalidade Paz em 1995, devido à “grande idéia” de realizar testes de armas nucleares no oceano Pacífico, exatamente no cinqüentenário da bomba de Hiroshima . . .Bem, o Ig Nobel de 2005 foi entregue em cerimônia no Teatro Saunders da Universidade de Harvard (EUA), no dia 6 de outubro passado, por três ganhadores de Prêmio Nobel (de verdade). Citarei a seguir quatro dentre as dez categorias premiadas. Paz: dois neurocientistas do Reino Unido (Claire Rind e Peter Simmons, Universidade de New Castle) monitoraram a atividade de neurônios de um gafanhoto enquanto o inseto assistia ao filme “Guerra nas Estrelas”, o objetivo era testar como um conjunto de neurônios do sistema visual do inseto responderia a objetos em rota de colisão com ele. Química: Edward Cussler e Brian Gettelfinger (respectivamente das Universidades de Minnesota e Wisconsin, EUA) realizaram cuidadoso experimento para resolver uma questão de fundamental importância – as pessoas nadam mais depressa em melado ou em água? Biologia: Benjamin Smith (Universidade de Adelaide – Austrália), duas empresas (Firmenich e ChemComm) e mais quatro pesquisadores australianos, cheiraram e catalogaram odores produzidos por 131 espécies de sapo em situação de estresse. Dinâmica dos fluidos: Victor b. Meyer-Rochow (Universidade Internacional de Bremen, Alemanha) e Jozsef Gal (Universidade Loránd Eötvös, Hungria) realizaram cálculos físicos da pressão que se acumula no intestino do pingüim no ato de defecar. Sem comentários.
Recente pesquisa realizada pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) mostrou que 74% dos empresários não conhecem a Finep e 90% deles não conhece o CNPq! Como fazer inovação tecnológica se o empresariado não conhece sequer as duas principais agências federais de fomento à inovação? Dentre as indústrias que conhecem as agências de fomento e que realizaram projetos com elas, é relativamente baixo o grau de uso: Fapesp, 76,7%; Finep, 63,3%; BNDES, 55,8%; CNPq, 90,3%. Das indústrias que realizaram projetos com as agências, a avaliação de desempenho sobre os diversos aspectos em nota de bom e ótimo teve como média geral: Fapesp, bom/ótimo, 68,7%; Finep, péssimo/ruim, 51,9%; BNDES, péssimo/ruim, 63,0%; CNPq, péssimo/ruim, 71,4%. Estas informações mostram a urgência de ampla divulgação entre o empresariado brasileiro do sistema nacional de ciência, tecnologia e inovação, assim como uma reflexão, por parte das agências, da baixa avaliação que tiveram por parte das empresas usuárias do sistema de C&T. Os resultados da pesquisa da Fiesp estão disponíveis no site www.fiesp.org.br. Uma outra pesquisa, recentemente realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) junto a 743 empresas, levantou outros dados importantes. 81% das empresas planejavam investir em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) este ano, mas aplicar no máximo 2% do seu faturamento nestas atividades. Cerca de 76% das empresas planejam comprar máquinas e equipamentos e 65% pretendem se concentrar no aperfeiçoamento de processos produtivos e dos seus produtos. Apenas 20% planejam construir laboratórios de pesquisa e só 21% prevêem no orçamento gastos com aquisição de tecnologias desenvolvidas fora da companhia. Para mais detalhes veja também os números 563 e 564 do Jornal da Ciência, da SBPC.
Recentemente circulou pelas Instituições de Ensino do Paraná um documento intitulado “Plano Estadual de Educação – PEE PR”, com o subtítulo “Uma construção coletiva”, datado de setembro do corrente. Em especial, o Capítulo 2 do PEE, que trata da “Educação Superior”, foi objeto de análise e alguma discussão nas universidades estaduais. Tratando-se de um documento emanado do próprio governo estadual, é bastante interessante como dados sempre maquiados, e às vezes até negados, pelo Executivo Estadual, agora emergem como moto para propostas dentro do PEE. Como o atual governo está para iniciar seu último ano de gestão, fica claro que se trata de um documento visando as próximas eleições, com objetivo de seduzir as pessoas com propostas interessantes para a área da educação, com vistas à manutenção deste grupo no poder. Se fosse real intenção do governo implementá-las, porque sequer começou faze-lo durante estes três anos de mandato já decorridos?
Investimentos do Tesouro do Estado
Nos três primeiros anos da atual gestão do governo do estado os recurso repassados para as Instituições de Ensino Superior - IEES (5 Universidades e 12 Faculdades), de longe não acompanharam o crescimento da arrecadação estadual. Em 2003 foi um total de R$ 403,8 milhões, sendo que deste total 92,57% foram para gastos com pessoal, 6,96% com outras despesas correntes e 0,47% com investimentos. Em 2004 foi um total de R$ 423,7 milhões, sendo que deste total 91,61% foram para gastos com pessoal, 7,65% com outras despesas correntes e 0,74% com investimentos. Em 2005 foi um total de R$ 439,5 milhões, sendo que deste total 90,10% foram para gastos com pessoal, 9,70% com outras despesas correntes e 0,20% com investimentos. Veja agora um trecho do documento que segue à tabela que contem os dados que apresentei: “(...) os recursos destinados aos gastos com investimento representam menos de 0,5%. Esta diferença comprova que, nos últimos anos, o Tesouro do Estado arca quase que exclusivamente com as despesas de pessoal. O evidente valor inexpressivo das despesas com investimento está diretamente relacionado com as precárias condições em que se deu a expansão do ensino superior público no Estado do Paraná: houve ampliação no número de cursos, vagas e matrículas sem o crescimento correspondente e necessário aos recursos financeiros. Desta forma, as IEES desenvolvem suas atividades-fins premidas pela escassez de recursos, deparando-se com a defasagem salarial, a evasão de professores, a depreciação de suas infra-estruturas e a impossibilidade de novos concursos públicos”. Incrível, levaram três anos para concluir isso!!! Situação esta que já vinha dos oito anos do governo anterior!
ICMS versus Ensino Superior
Outro trecho do documento: “Uma análise dos valores correntes da receita proveniente da arrecadação do ICMS e da despesa do Estado com a Educação e com o Ensino Superior na última década demonstra que não há correspondência entre o crescimento da arrecadação e o investimento na educação superior. Enquanto a receita do ICMS cresceu 3,6 vezes, a despesa com o Ensino Superior cresceu 2,7 vezes. Verifica-se uma flutuação do percentual de participação da despesas com o Ensino Superior em relação à arrecadação do ICMS, que já alcançou 12,9% em 1997, chegando a 5,0% em 2005”. Os valores deste percentual tem decrescido sistematicamente desde o ano 2000, quando foi de 12%, sendo que em 2004 foi de 6% e o projetado para 2005 é de 5%. Estes dados mostram a real falta de prioridade para o Ensino Superior no Paraná. O documento por fim, nas páginas 23 a 25, coloca a necessidade de uma “Política de Estado” para o Ensino Superior (por fim as palavras mágicas que os governos deste estado, incluindo o atual, nunca tiveram) e relaciona 26 propostas neste sentido, a grande parte delas absolutamente necessárias, mas sem cronograma, nem os mecanismos de como atingi-las. Enfim, um documento que pode ser ainda bastante melhorado e servir como propostas para o Ensino Superior por parte de todos os candidatos ao governo do Estado do Paraná em 2006.