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25 October 2005

Nobel de 2005

A Fundação Nobel de Estocolmo, Suécia, divulgou os prêmios de 2005. Detalhes sobre os premiados desde ano, de todos os anos anteriores e muitos outros assuntos correlatos estão disponíveis na Internet no site http://www.nobel.se. Indiscutível “termômetro” da excelência acadêmica nas várias áreas, o prêmio também tem provocado varias polêmicas ao ignorar personalidades ilustres, por um lado, e também por indicações, digamos, “inesperadas”, mas nem por isso menos merecidas ou significativas. Neste ano tivemos uma delas.

Nobel da Paz
A grande surpresa deste ano ficou por conta do Prêmio Nobel da Paz, concedido em conjunto para a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e para o seu Diretor-Geral (desde 1997), o egípcio Mohamed El Baradei, 63. A AIEA e seu diretor dividirão o prêmio de R$ 2,8 milhões que será entregue, com medalha e diploma, na cerimônia de gala do prêmio, que será realizada no dia 10 de dezembro em Oslo, Noruega. O Comitê do Nobel justificou a premiação devido aos esforços para evitar a proliferação de armas nucleares, pelo trabalho de fiscalização de equipamentos e centrais nucleares e pela disseminação dos usos pacíficos da energia nuclear. Vários países do mundo, incluindo o Brasil, cumprimentaram formalmente os ganhadores. O recado político do prêmio foi muito claro.

Nobel de Química
Uma pesquisa que não tinha aplicações práticas como objetivo, que pretendia “apenas” conhecer o mecanismo básico de reações orgânicas, levou ao entendimento do processo batizado de metátese, que permite a criação eficiente (e sem resíduos indesejáveis) de compostos orgânicos como medicamentos, herbicidas, aditivos para combustíveis, e feromônios. A indústria petroquímica e farmacêutica já tem se beneficiado da descoberta. A metátese (palavra que pode se traduzida como “troca de lugares” em grego), é uma espécie de “quadrilha” molecular, em que moléculas com átomos de carbono unidos por ligações duplas interagem trocando pedaços de sua estrutura uma com a outra, através da mediação de um átomo catalisador, formando outros compostos num processo que pode ser planejado e controlado. O trio de pesquisadores agraciados com o Nobel de Química foram o francês Yves Chauvin, 74, que explicou a metátese, e os americanos Richard Schrock, 60 e Robert Grubbs, 63, que aperfeiçoaram o processo, pesquisando vários metais na busca dos melhores catalisadores. O Comitê do prêmio, em seu comunicado oficial, declarou: “Logo, a imaginação será o único limite para a construção de moléculas!”

Nobel de Física
Um trio dividirá o Nobel de Física deste ano. Metade do prêmio de US$ 1,29 milhão ficará com o americano Roy Glauber, 80. A outra metade será dividida entre o americano John Hall, 71 e o alemão Theodor Hänsch, 63. No início da década de 60, após a invenção do laser (fonte de luz ou radiação eletromagnética com freqüência e fase específica), Glauber desenvolveu o ferramental teórico para descrever o comportamento dos fótons (partículas de luz) nesta situação e com isto deu origem ao hoje vigoroso campo da óptica quântica – já que tanto efeitos da física clássica (teoria ondulatória de Maxwell) como quânticos aparecem nas situações envolvendo lasers. Hall e Hänsch foram premiados pela contribuição ao desenvolvimento da espectroscopia de precisão usando lasers como ponta de prova. Graças a esta técnica é possível hoje medir freqüências com 15 casas decimais de precisão, com grande impacto em áreas que vão da Metrologia e monitoramento GPS até computadores quânticos.

18 October 2005

Professor

Sábado passado, dia 15 de outubro, foi o Dia do Professor. Me permitam, desta vez, uma coluna mais pessoal. Eu tinha cerca de 14 anos quando comecei a ministrar em casa aulas particulares de matemática para crianças do (hoje) ensino fundamental. Depois, aos 16 anos, num programa do colégio em que eu estudava, ministrei aulas voluntárias de recuperação de matemática aos domingos de manhã, para os alunos com dificuldades nesta matéria. Estava claro no gostaria de trabalhar. O campo mudaria para a Física, mas formar pessoas era a vocação. O respeito que tínhamos pelos professores era um espelho do comportamento da sociedade em geral para com esta profissão, na época. Hoje, depois de quase trinta anos de magistério na universidade, de ter trabalhado com um número enorme de alunos, ministrado aulas para duas gerações (pais e seus filhos já foram meus alunos na UEL), não me arrependo da escolha e agradeço ao plano espiritual por esta oportunidade de aprendizado e crescimento contínuo. Considero os estudantes como parceiros de aprendizagem na fantástica aventura do conhecimento em que vivemos.

Pesquisador
Como pesquisador, o horizonte de formação de pessoas se amplia tremendamente. Ao invés da interação em apenas uma ou outra disciplina, por apenas um semestre ou um ano, a orientação de iniciação cientifica (que em geral se estende por 3 anos para cada estudante), de mestrado (por dois anos) e de doutorado (por quatro anos), permite um processo de treinamento, desenvolvimento intelectual e produção científica que pode se estender por até 10 anos de convivência e profícuo crescimento intelectual – de ambos. Foram já quase oito dezenas de orientados de iniciação científica e cerca de duas dezenas de estudantes de pós-graduação. Garanto que é uma enorme gratificação formar professores e pesquisadores!

Tristeza
Por outro lado, é muito triste ver como hoje nossa profissão é tratada com desprezo, apesar dos demagógicos discursos de sempre por parte dos políticos e administradores de plantão, com a silenciosa aquiescência de toda a sociedade. No caderno Sinapse da Folha de São Paulo de 27/09 passado, a matéria principal tratava da profissão de professor, com o significativo título “Em risco de extinção – falta de interesse dos profissionais em dar aulas nas escolas aponta um cenário crítico para a docência nos próximos dez anos”. Razões: mal pagos, sem infra-estrutura e alvo da violência dos alunos nas escolas públicas e tratados como serviçais por alunos de escolas privadas.

Esperança
Nas universidades a situação não é menos pior. Aqui no Paraná, depois de anos sem reajuste salarial, os docentes receberam um percentual diferenciado para cada categoria e mesmo aquela que recebeu o maior índice de correção, ficou com apenas metade de suas perdas compensadas. Não se realiza concurso público há quatro anos, apenas processos seletivos para professores temporários, e há quinze anos não temos concurso para professor titular! A prioridade real (e não apenas verbal) para a Educação, questão de segurança nacional para países como o nosso, ainda não aconteceu, apesar dos vários exemplos de países que “saíram do buraco” porque efetivamente priorizaram a Educação e os Educadores. Um dia, quando toda esta lama baixar, demagogos e semideuses arrogantes afastados, haverá espaço para uma política de Estado séria, responsável e continuada para a Educação, valorizando e respeitando os Educadores.

13 October 2005

Coleções Botânicas

Na coluna anterior tratei em geral das Coleções Biológicas, que são de importância estratégica para o país. As Coleções Biológicas abarcam as coleções de história natural (museus e herbários) e coleções vivas (coleções microbianas, bancos de células humanas, vegetais e animais, bancos de germoplasma, e bancos de material sub-celular). Dentre as coleções de história natural, os Herbários constituem fundamental banco de dados sobre a biodiversidade botânica do país. Recentemente o CNPq lançou um edital específico para projetos de coleções biológicas, com R$ 5 milhões de recursos totais. Foram apresentados 105 projetos, somando R$ 62 milhões. Uma demanda de 12:1 em relação aos recursos do edital! Por um lado este dado demonstra o grande volume de pesquisadores e estruturas já estabelecidas para trabalhar com coleções biológicas no Brasil, assim como a capacidade de proposição de projetos por parte destes grupos. Por outro lado, infelizmente, apenas cerca de 7,6% foram aprovados para financiamento. Dentre os oito projetos aprovados em todo o país, dois são do Paraná e um deles é o Projeto de Coleções Biológicas do Paraná. Este projeto abarca coleções botânicas e zoológicas da Universidade Estadual de Londrina, da Universidade Federal do Paraná, e do Museu Botânico Municipal de Curitiba, visando incrementá-las, informatizando os dados dos acervos e disponibilizando-os em rede. Durante esta semana, está ocorrendo em Curitiba, o 56º Congresso Nacional de Botânica (veja o site www.cnb56.com.br). Entre as atividades do evento, estão aquelas que discutem o papel e a situação das coleções botânicas, bem como o seu desenvolvimento. No dia 12/10 acontece uma reunião da Rede Brasileira de Herbários. A atual coordenadora da Rede é a Profa. Ana Odete S. Vieira, da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Para saber mais sobre a Rede Brasileira de Herbários, veja a página www.botanica.org.br/noticias.php?noticia=124.

Herbário da UEL
O Herbário da UEL foi iniciado em 1982. Em 1985 já contava com um acervo que permitiu sua inclusão no Index Herbariorum, (http://sciweb.nybg.org/science2/IndexHerbariorum.asp), que é o cadastro internacional dos herbários. O Herbário está no departamento de Biologia Animal e Vegetal, onde estão alocados os docentes da área de botânica e ecologia vegetal. Além das atividades de pesquisa do departamento, o Herbário da UEL atende pesquisadores e alunos de graduação e pós-graduação dos cursos de Ciências Biológicas, Agronomia, Química, Farmácia e Tecnologia de Alimentos e Medicamentos. O Herbário apresenta uma série de intercâmbios de material com mais de 40 instituições nacionais e estrangeiras, além de visitas de pesquisadores. No Herbário da UEL estão mantidas, atualmente, cerca de 40.000 amostras, principalmente sob a forma de material seco, predominando as Angiospermas. Estas amostras provêm em sua maioria do Estado do Paraná, mas estão incluídos materiais de quase todos os estados do Brasil. A principal coleção é da bacia do rio Tibagi, que corta o estado do Paraná no sentido Sul-Norte, por cerca de 550 km, que já incluiu coletas que expandiram a distribuição geográfica conhecida para diferentes espécies e a descrição de novas espécies de árvores. As coleções de algas em meio líquido somam aproximadamente 650 amostras de fitoplâncton e perifíton, sendo a quase totalidade da bacia do rio Tibagi. A coleção de macro-fungos foi iniciada recentemente incluindo predominantemente material do município de Londrina. Você pode entrar em contato com o Herbário da UEL através do e.mail herbariofuel@uel.br.

04 October 2005

Coleções Biológicas

As Coleções Biológicas, incluindo as coleções de história natural (museus e herbários) e coleções vivas (coleções microbianas, bancos de células humanas, vegetais e animais, bancos de germoplasma, e bancos de material sub-celular) compõe a infra-estrutura básica de suporte para o desenvolvimento científico e a inovação tecnológica nas áreas de saúde, agricultura, meio ambiente e indústria. Nos países desenvolvidos, as coleções biológicas estão passando por um processo de readequação tecnológica e gerencial, visando a incorporação de novos métodos e processos, que permitem a rápida caracterização e documentação do acervo, assim como a introdução de procedimentos gerenciais que permitem a rastreabilidade do processamento das amostras e informações associadas. No Brasil, país mega-diverso detentor de mais de 10% da diversidade global, a situação das coleções biológicas está muito longe de ser considerada adequada. Muitos dos acervos existentes encontram-se em condições precárias de manutenção, em decorrência de problemas de infra-estrutura física ou da falta de recursos humanos especializados. Se for mantido o quadro atual, será muito difícil para o país explorar de maneira sustentável o capital natural associado à diversidade de ecossistemas e riqueza de seus recursos genéticos.

Biodiversidade brasileira
A base do conhecimento sobre a biodiversidade brasileira é incipiente e desagregada. Estima-se que existem cerca de 2,5 a 3 bilhões de amostras depositadas em coleções biológicas internacionais. Deste montante, os acervos brasileiros contribuem com cerca de 30 milhões de amostras, o que corresponde a cerca de 1% do total, o que é muito pouco representativo, levando-se em conta a dimensão da nossa biodiversidade. Outro problema a ser equacionado é a ampliação do acesso a informações sobre biodiversidade. As informações existentes estão dispersas e, via de regra, não disponíveis na forma digital. O desenvolvimento de políticas e estratégias de desenvolvimento sócio econômico sustentável depende do acesso facilitado a informações sobre a biodiversidade. É crescente a demanda por informações técnico-científicas de qualidade, no equacionamento de problemas associados à liberação de organismos transgênicos no ambiente, na definição de estratégias e prioridades de conservação de áreas naturais, na adoção de medidas de contenção de espécies invasoras e pragas agrícolas, e na prevenção e controle de doenças endêmicas.

Área estratégica
O texto dos dois blocos anteriores constituíram parte da apresentação do workshop “Diretrizes e Estratégias para a Modernização de Coleções Biológicas Brasileiras e a Consolidação de Sistemas Integrados de Informação sobre a Biodiversidade”, que foi realizado em julho deste ano, no Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), em Brasília. Para a realização deste evento foram produzidos vários documentos que diagnosticam a situação das coleções biológicas brasileiras, tratando de impedimentos ao seu desenvolvimento e propondo estratégias e metas para os 10 próximos anos. A utilidade destes documentos não se restringe apenas aos pesquisadores, mas vai do público leigo interessado na área até aqueles envolvidos com as políticas institucionais para as áreas correlatas, passando pelos que atuam no jornalismo científico. Os documentos estão divididos em três grandes grupos: Botânica, com 8 textos; Zoologia, com 9 textos; Microbiologia, com 6 textos e Informação, com 4 textos. Exemplos de alguns deles: “Checklists de Floras Regionais e Flora do Brasil”, “Coleções de Tecido - O Banco de DNA da Biodiversidade Brasileira”, “Autoridades Depositárias de Material Biológico para Fins de Patente”, “Coleções Biológicas e Sistemas de Informação”. Você pode acessar todos os documentos na página www.cria.org.br/cgee/col.