página inicial do tipos

Receba por e-mail os posts de Ciência, Tecnologia e outros papos: RSS - Assine os feeds deste blog

Archives

You are currently viewing archive for May 2005

24 May 2005

Pesquisa e Inovação III

O papel da pesquisa e do pesquisador é fundamental para a realização da inovação industrial, que é de longe o principal motor do desenvolvimento econômico e social contemporâneo. Os resultados da pesquisa “Espaços preferenciais e aglomerações industriais”, realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) motivou vários artigos publicados pela imprensa nacional. Esta é a terceira coluna sobre o assunto, em que concluo a repercussão destes artigos, adicionando outros dados e comentários. De acordo com a pesquisa, dentre as 15 aglomerações industriais do país, o Paraná tem dois pólos de inovação industrial: Curitiba e Londrina.


Pesquisa e empreendedorismo

Em 1999, vinte experientes funcionários, com em média 17 anos de casa, deixaram a Companhia Paranaense de Energia (Copel) e fundaram a Automat. O objetivo da empresa criada foi, e continua sendo, o de pesquisar e desenvolver soluções para o mercado de automação e controle. Hoje a empresa tem 40 funcionários diretos e 600 terceirizados. Detém tecnologia para automação e controle no setor elétrico, medição integrada de água, gás e energia elétrica e está se preparando para entrar na monitoração e supervisão do meio ambiente. Seu faturamento médio anual é de R$ 10 milhões e 8% dele é investido em pesquisa e desenvolvimento. O desenvolvimento de sistemas elétricos colocou a empresa entre as 100 melhores em inovação tecnológica na Feira de Hannover, na Alemanha, e também lhe rendeu o Prêmio Finep de Inovação Tecnológica em 2003 e 2004. Das 121.877 empresas de base tecnológica do país, 4.322 estão, como a Automat, no cinturão industrial Curitiba, onde foi criada toda a infra-estrutura necessária para o desenvolvimento industrial de inovação. Por que esta política não foi descentralizada? Nos últimos anos, a duras penas e com tímido apoio governamental, os pólos do interior procuram, com base em seus ativos de recursos humanos de pesquisa, consolidar parques tecnológicos e incubadoras para alavancar o crescimento industrial de base tecnológica. O pólo de Londrina aglutina seis municípios onde 36% das empresas são inovadoras e 53% delas são especializadas em produtos padronizados. O PIB industrial de Londrina é de cerca de R$ 1,4 bilhão, pouco mais de um décimo do PIB do pólo de Curitiba, que é de R$ 11 bilhões. A cidade conta com uma ativa incubadora de empresas, a INTUEL, e um amplo projeto de atividades e infra-estrutura para a inovação conduzido pela ADETEC (www.londrinatecnopolis.org.br).


Santa Rita do Sapucaí

Na coluna número 280, publicada em 08/06/04, tratei em detalhe do caso de Santa Rita do Sapucaí. Cidade no interior de Minas Gerais, com apenas 31.264 habitantes, que, com base numa história de formação de recursos humanos especializados em eletrônica que remonta ao final dos anos 50, conta hoje com 112 indústrias de eletroeletrônica, gerando 6 mil empregos e faturando US$ 150 milhões anuais. Lá, 98,5% dos domicílios tem água encanada, 100% tem energia elétrica, a coleta de lixo atinge 96,8% da cidade, a taxa de analfabetismo é de 13,5% e a renda per capita é de R$315,30. A cidade tem duas incubadoras tecnológicas em funcionamento, com um total de 10 empresas incubadas. As maiores indústrias do polo da região são a Philong do Brasil (fontes de alimentação para celulares), Linear (transmissores de tevê e rádios transmissores), Leucotron (centrais telefônicas), Sense (sensores eletrônicos) e a MCM (nobreaks e estabilizadores). Santa Rita foi objeto de uma matéria publicada na revista Valor Econômico de 25/04/05. A razão da notícia é a polêmica instalada na cidade devido à “explosão” de empregos realizada pela Philong. Desde 2003 a empresa já contratou 2.300 funcionários e pretende contratar outros 700 nos próximos meses, recrutando pessoas também em outros seis municípios vizinhos. O Presidente da Associação Comercial da cidade reclama que o Philong “desestruturou o comércio”, pois muitas pequenas empresas, acostumadas a pagar apenas o salário mínimo de R$ 260,00 para as funções mais simples, perderam funcionários para a Philong, que tem piso salarial de R$ 357,00, paga plano de saúde, seguro de vida e dá tiquete-alimentação. O temor desta contratação em massa é que resulte num aumento da média salarial na cidade e comprometa a competitividade das indústrias do pólo. O Prefeito da cidade diz que “o que eles querem é reserva de mercado e isto é coisa do passado”, e que as empresas da cidade vão ter que aumentar a própria competitividade porque os grandes investimentos são sim muito bem-vindos a Santa Rita. Oxalá mais cidades brasileiras estivessem com este tipo de “bom” problema.

19 May 2005

Física é cultura ! Hoje é o Dia Nacional da Física.

2005 foi escolhido como o Ano Mundial da Física.
Por quê?
Cem anos atrás, em 1905, Einstein publicou três artigos fundamentais para a Física, para a Filosofia e para a civilização humana, não importa qual religião, qual região do mundo, qual cor de pele e qual preferência sexual você tenha.
Um destes artigos tratou da explicação do movimento browniano, ou seja, sobre o movimento de partículas pequenas, básicamente determinado pelo seu tamanho e pela temperatura, que explica um monte de fenômenos, deste as partículas suspensas na atmosfera, como o pólen das plantas, até fenômenos mais básicos como o alargamento térmico da temperatura dos átomos num cristal em função da temperatura - isso precisa ser levado em conta para que muitos do equipamentos eletro-eletrônicos que você usa rotineiramente funcionem adequadamente.
O outro artigo introduziu a Relatividade Especial. A partir do principio de que a velocidade da luz é a mesma em qualquer referencial e que as leis da Física são as mesmas em um referencial parado em relação a você ou um referencial em velocidade constante em relação a você, a consequência foi a famosa equação E=mc2, que explica como energia pura e massa são auto-conversíveis, assim como coordenadas espaciais e o tempo fazem parte de um conjunto interligado de coordenadas, o espaço-tempo, em que uma inflenciam as outras, tendo, entre outras consequências,a possibilidade da dilatação temporal, dependendo do referencial em que você está, dada pelo famoso “paradoxo dos gêmeos”.
O outro artigo foi a explicação do efeito fotoelétrico, que introduziu a noção de quantização da energia, ou seja, o conceito de que a energia não varia continuamente, mas é sempre múltiplo de um número básico, inteiro, o “pacote mínimo” de energia. Este conceito foi uma das bases da Mecânica Quântica, que trata da cinemática e da dinâmica do mundo macroscópico, com algumas diferenças profundas em relação à física do mundo macroscópico, que estamos acostumados no dia a dia. Mas as consequências são muito concretas. Quando você usa seu computador, seu toca CD, seu MP3, seu celular e “n” outros equipamentos do cotidiano contemporâneo, você está usando dispositivos que funcionam à base de propriedades quânticas da matéria, impensáveis antes da Mecânica Quântica.
Além das questões tecnológicas, tanto a Relatividade Especial (e depois a Relatividade Generalizada) quanto a Mecânica Quântica, mudaram (e ampliaram) radicalmente nosso entendimento do Universo, tanto o micro quanto o macro Cosmos, com profundas implicações filosóficas e em outras áreas do conhecimento, como, por exemplo, a Biologia e a Química.
Por isso Física é cultura! Não se restringe apenas em si mesma, tem implicações diretas e indiretas em todos os ramos do conhecimento, inclusive na História, já que como o homem vê a si mesmo e sua posição no Universo depende de seu conhecimento do Física ao longo dos tempos.
Por isso 2005 é o ano Mundial da Física e hoje, dia 19 de maio de 2005, comemoramos o Dia Nacional da Física!
Esqueça os eventuais professores de Física “inadequados” e de pouca visão que vocé teve e lhe deixaram com traumas em relação a esta área.
Olhe as imagens fantásticas que telescópios espaciais como o Hubble lhe proporcionam do Universo. Veja o que a Física Nuclear, bem empregada, proporciona à humanidade, como, entre outros exemplos, a tomografia médica (de transmissão, PET e NMR), com resultados inegáveis para a Medicina e a saúde da humanidade. Veja o que métodos não-destrutivos da Física Atômica e Nuclear permitem descobrir sobre objetos arqueólógicos e de arte, alargando nosso entendimento sobre a Cultura Humana. Isto apenas como amostra de uma lista de centenas de itens que vão desde aplicações na Agricultura à Indústria Siderúrgica, da Biologia à Engenharia de Petróleo, da Física de Solos ao entendimento da Filosofia e História da Ciência. Física e Filosofia estão totalmente interligadas. É impossível ter um completo e concreto entendimento dos Sistemas Filosóficos sem entender o contexto da Física da época de cada um deles.
A Física é a mais básica das ciências, por isso é parte intrínseca da Cultura da Humanidade. Física é Cultura, no seu mais amplo sentido possível.

10 May 2005

Pesquisa e Inovação II

Continuo a repercutir e comentar um artigo recentemente publicado na imprensa sobre um assunto estratégico para o país: o impacto da pesquisa e do pesquisador na inovação industrial, que é o principal motor do desenvolvimento econômico e social contemporâneo. O artigo, publicado no caderno de economia do jornal “O Estado de São Paulo” de 24 de abril, traz quatro matérias com os auto-explicativos títulos: “Brasil tem 15 pólos de inovação industrial”, “Com mais tecnologia, mais renda e educação”, “A feliz união de pesquisa com o espírito empreendedor” e “Pesquisador deve estar na empresa”. A base para estas matérias foi o resultado da pesquisa “Espaços preferenciais e aglomerações industriais”, realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).


Aglomerações Industriais

Na coluna passada detalhei quais são os 15 pólos de inovação industrial do país, constituído de 254 cidades integradas numa rede de negócios, formando em torno de si um cinturão de desenvolvimento. Comparando o perfil de cidades onde estão empresas inovadoras com aquelas que não as têm, depreende-se claramente a diferença não apenas econômica, mas social e cultural, mostrando o impacto regional destas aglomerações.


Inovação gera dois Brasis

Empresas que inovam e diferenciam produtos estão presentes em apenas 465 municípios, dentre o total de 5.560 cidades brasileiras. Neste pequeno grupo de localidades o percentual médio de pessoas com educação superior é de 13,74%, o número médio de domicílios com rede de esgoto é 90,87%, a população envolvida é de 84,9 milhões e a renda per capita é de R$ 419,52. Nos outros 5.042 municípios onde não existem empresas que inovam e diferenciam seus produtos, os dados são: o percentual médio de pessoas com educação superior é de 4,21%, o número médio de domicílios com rede de esgoto é 63,38%, a população envolvida é de 84,8 milhões e a renda per capita é de R$ 175,92. O contraste é muito claro. São dois Brasis de cerca de 85 milhões de pessoas cada um, um deles tem o triplo de pessoas com nível superior e a renda 2,4 vezes maior que o outro.


Produtos padronizados

A presença de empresas especializadas em produtos padronizados se dá em 1.561 municípios, nos quais o percentual médio de pessoas com educação superior é de 11,51%, o número médio de domicílios com rede de esgoto é 85,74%, a população envolvida é de 121,2 milhões e a renda per capita é de R$ 361,69. Nas 3.946 cidades onde não existe este tipo de empresa, o percentual médio de pessoas com educação superior é de 2,87%, o número médio de domicílios com rede de esgoto é 55,68%, a população envolvida é de 48,5 milhões e a renda per capita é de R$ 138,20.


Empresas sem inovação

Mesmo este terceiro tipo de empresa, no contraste com a ausência total de atividade industrial, gera impacto positivo, embora bem menor que as outras duas categorias de empresas acima citadas. A presença de empresas que não diferenciam produtos e tem produtividade menor se dá em 2.100 municípios, nos quais o percentual médio de pessoas com educação superior é de 10,99%, o número médio de domicílios com rede de esgoto é 84,30%, a população envolvida é de 131,9 milhões e a renda per capita é de R$ 347,73. Nas 3.407 cidades onde não existe sequer este tipo de empresa, o percentual médio de pessoas com educação superior é de 2,31%, o número médio de domicílios com rede de esgoto é 52,16%, a população envolvida é de 37,8 milhões e a renda per capita é de R$ 123,49.


Pesquisador na empresa

O que faz a diferença é a existência de pesquisa na empresa. Para isso são necessárias universidades formando quadros de alto nível, com fortes grupos de pesquisa interagindo com as empresas e estas incentivadas a contratar pesquisadores e realizar pesquisas de desenvolvimento, o que ocorre, em maior ou menor monta, nas 15 aglomerações citadas. Nos países desenvolvidos mais de metade dos cientistas estão nas empresas, no Brasil são apenas 23% - realidade que precisa urgentemente ser mudada.

03 May 2005

Pesquisa e Inovação I

As 15 Aglomerações Industriais Espaciais do Brasil

Neste e em outros próximos dois posts, vou repercutir dois artigos recentemente publicados na imprensa nacional sobre um assunto estratégico para o país: o impacto da pesquisa e do pesquisador na inovação industrial, que é o principal motor do desenvolvimento econômico e social contemporâneo. Apresentarei uma síntese dos principais dados desses ótimos artigos (cuja leitura aconselho fortemente), juntamente com meus comentários. O primeiro deles, publicado no caderno de economia do jornal “O Estado de São Paulo” de 24 de abril, traz quatro matérias com os auto-explicativos títulos: “Brasil tem 15 pólos de inovação industrial”, “Com mais tecnologia, mais renda e educação”, “A feliz união de pesquisa com o espírito empreendedor” e “Pesquisador deve estar na empresa”. A base para estas matérias foi o resultado da pesquisa “Espaços preferenciais e aglomerações industriais”, realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).


Concentração dos pólos de inovação

A pesquisa do Ipea levantou que existem no país 15 centros industriais de municípios integrados, que estabelecem relações produtivas entre si, beneficiando toda a região onde estão, com empresas consideradas de nível A, que inovam e diferenciam seus produtos, investem em pesquisa e desenvolvimento e, por isso, têm resultados de competitividade, lucratividade e exportações acima da concorrentes. Estas 15 aglomerações respondem por 85% do valor da transformação industrial, mais de 90% das exportações e 70% da renda e do pessoal ocupado do país – este número restrito de aglomerações representa uma tremenda concentração! Segundo o João Alberto De Negri, do Ipea, “A desigualdade no Brasil não é apenas social, é também tecnológica e produtiva”. Os pesquisadores alertam que se faz necessário uma política industrial integrada com uma política de regionalização da infra-estrutura para indústrias do nível A, para que a política industrial em curso não fortaleça ainda mais esta concentração mapeada pelo estudo do Ipea.


Os 15 aglomerados

O maior aglomerado industrial do país fica no estado de São Paulo, envolvendo 120 cidades, centrado em São José dos Campos, São Carlos e Campinas - este conjunto é responsável por 42% de tudo que se produz no país! Ainda na região Sudeste, existem outras cinco Aglomerações Industriais Espaciais (segundo a denominação do Ipea), envolvendo 43 cidades, que detêm 15% da produção industrial brasileira. Os pólos principais são Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Volta Redonda e Vitória. Na região Sul estão outros cinco aglomerados, envolvendo 66 cidades, centrados em Porto Alegre, Curitiba e Joinville, que respondem por 13% da produção brasileira. A região Nordeste tem quatro aglomerações, abarcando 25 municípios e realizando 6% da produção nacional. A região Norte não tem aglomerações industriais e a Zona Franca é considerada um enclave, pois não produz desenvolvimento fora de Manaus. Além das 15 aglomerações que totalizam 254 municípios, a pesquisa do Ipea identificou outras 465 cidades isoladas que abrigam empresas de maior grau tecnológico. Como o Brasil tem 5.560 municípios, apenas 12,9% deles abrigam empresas de base tecnológica.


Retorno social

Segundo De Negri, “há uma via de mão dupla na situação social dessas cidades com a qualidade das empresas instaladas”. Nesses municípios, em média, 13,7% dos habitantes têm educação superior, 90,8% das casas tem rede de esgoto e a renda per capita (incluindo crianças e idosos) é de R$ 419,52. Moradores com melhor nível educacional, escolas, universidades e infra-estrutura atraem empresas de maior conteúdo tecnológico, cuja presença, por sua vez, faz com que as cidades se desenvolvam ainda mais para ofertar a infra-estrutura adequada, num círculo virtuoso. Tratarei ainda neste bloco de três colunas, do caso “extremo” de Santa Rita do Sapucaí, onde o problema agora é o excesso de oferta de empregos! A diferença é, portanto, a existência das atividades de desenvolvimento de processo e/ou de produto, ou seja, de pesquisa na empresa. Para isso são necessárias universidades formando quadros de alto nível, com fortes grupos de pesquisa interagindo com as empresas e estas incentivadas a contratar pesquisadores e realizar pesquisas de desenvolvimento, como o que já ocorre, em maior ou menor monta, nas tais 15 aglomerações acima descritas.