JC e-mail 3782, de 12 de Junho de 2009.
Sistema Solar é instável, mas não há risco de colisão de planetas
Órbitas seguem ‘caos dinâmico’, mas só em 1% de 2.501 cenários ocorre trombada celeste
Alexandre Gonçalves escreve para “O Estado de SP”:
Há 99% de chance de a Terra e seus três vizinhos - Mercúrio, Marte e Vênus - continuarem seu percurso tranquilamente ao redor do Sol pelos próximos 5 bilhões de anos, sem qualquer colisão ou acidente. Foi o que mostrou um estudo sobre a evolução do Sistema Solar publicado hoje pela revista científica britânica Nature.
Os astrônomos Jacques Laskar e Mickael Gastineau, do Observatório de Paris, simularam 2.501 cenários de evolução das trajetórias dos chamados planetas terrestres - Mercúrio, Vênus, Terra e Marte.
Os programas de computador levaram em conta conhecimentos obtidos no estudo da Lua, da teoria da relatividade geral de Albert Einstein e do estado atual dos planetas. Em 25 projeções (cerca de 1%), houve colisão entre planetas ou destes com o Sol. A pesquisa praticamente descarta qualquer acidente cósmico nos próximos 3 bilhões de anos.
"Em um dos cenários, Marte passa muito perto da Terra", diz Laskar, principal autor do estudo. No evento, que pode ocorrer dentro de 3,3 bilhões de anos, os dois planetas ficariam a apenas 794 km um do outro. "Uma passagem tão próxima é quase o mesmo que uma colisão", afirma o cientista, destacando que tal fenômeno seria devastador. Marte poderia se romper e grandes fragmentos cairiam sobre a Terra.
Partindo do cenário do acidente decorrente da aproximação dos dois planetas, a equipe realizou outras 201 simulações com pequenas alterações verossímeis no eixo de Marte. Em cinco situações, o planeta vermelho foi arremessado para fora do Sistema Solar. Em todas as demais, houve choque de planetas terrestres. Em 29 casos, a Terra batia em Marte. Em 18, colidia com Vênus. Em apenas um, havia acidente entre Mercúrio e Terra.
Caos dinâmico
Após o período estudado, colisões entre planetas deixarão de ser problema relevante. O Sol, que já tem 5 bilhões de anos, continuará brilhando com sua atual intensidade por mais 5 bilhões de anos. Depois, deve converter-se em uma estrela vermelha gigante e engolir Mercúrio e Vênus. A Terra e Marte também podem desaparecer.
Ao Estado, Laskar explica que o estudo tem "importância filosófica" - afinal, não faz sentido se programar para um evento que deve acontecer dentro de bilhões de anos. "Costumávamos imaginar o Sistema Solar como algo estável", diz. "Nosso estudo demonstra a existência de uma instabilidade."
No século 17, Isaac Newton ainda considerava o Sistema Solar um relógio perfeito e irritava-se com a impossibilidade de descobrir equações matemáticas que descrevessem com perfeição o movimento de Saturno e Júpiter no céu.
Os astrônomos já sabem que a rota dos corpos celestes obedece a regras que podem ser descritas como "caos dinâmico". "Há um delicado equilíbrio entre os planetas", explica a física Silvia Maria Giuliatti Winter, da Unesp de Guaratinguetá. Os acidentes descritos no artigo da Nature ocorreriam após Júpiter e Mercúrio entrarem em "ressonância secular", quando a órbita dos dois planetas evolui de forma sincronizada, produzindo grande instabilidade.
Silvia afirma que o estudo responde uma questão antiga sobre nossa percepção do cosmo. "Além disso, as técnicas desenvolvidas para realizar a simulação poderão ser usadas em outros campos do conhecimento", considera. Ela recorda que sua pesquisa de doutorado - que envolvia análise de imagens para identificar satélites - usava técnicas aplicáveis para a descoberta de células tumorais no câncer de mama.
Laskar já planeja empregar os conhecimentos adquiridos para descrever variações climáticas na Terra durante os últimos milhões de anos. (Com AFP)
(O Estado de SP, 11/6)
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=64047
Publicado em 03 de julho de 2009 às 16:56 por appoloni
Meu comentário:
Para quem teve experiência com o fortíssimo ativismo anti-nuclear das décadas de 70 e 80, assim como sua continuidade em tom mais fraco a partir de então, em geral desconectada da realidade da tecnologia nuclear a partir do anos 90, é muito irônico o rumo que a questão do meio-ambiente versus energia nuclear está tomando, como vemos na notícia abaixo, que não é a primeira nesta linha de argumentação, a qual está se fortalecendo cada vez mais. O vilão está virando herói ?!?!
JC e-mail 3795, de 01 de Julho de 2009.
Energia nuclear é inevitável para salvar clima, diz Nobel
Sete laureados reunidos na Alemanha pedem ação imediata contra gases-estufa. "Não deveríamos jogar roleta com o planeta", diz Mario Molina, que elucidou papel de gás industrial no buraco da camada de ozônio
Marcelo Leite escreve para a “Folha de SP”:
Há poucos lugares no mundo, além de Estocolmo, onde se podem juntar numa mesa sete prêmios Nobel de Química. Aconteceu ontem de manhã numa cidadezinha do sul da Alemanha, durante a 59ª Reunião de Prêmios Nobel em Lindau, diante de seis centenas de jovens pesquisadores. Talvez ainda mais raro, todos concordaram: a mudança do clima é criada pelo homem e por ele tem de ser resolvida. Com urgência. E a maioria acha que talvez não dê para abrir mão da energia nuclear.
Se Nobel é sinônimo de craque em ciência, esse grupo deveria bastar para convencer de que o aquecimento global não é invenção de ambientalistas: Gerhard Ertl, alemão (2007); Robert Grubbs, americano (2005); Walter Kohn, austríaco (1988); Harold Kroto, britânico (1996); Rudolph Marcus, canadense (1992); Mario Molina, mexicano (1995); e Sherwood Rowland, americano (1995).
Molina, talvez a maior estrela entre os 23 Nobel presentes em Lindau, relacionou o que o planeta está vivenciando: decréscimo de 7% ao ano na extensão das geleiras, duplicação das regiões áridas, aumento estatisticamente significativo de enchentes, incêndios florestais e secas, de 1950 para cá.
"Não deveríamos jogar roleta com o planeta", disse Molina, também conselheiro científico da Presidência dos EUA. "São as atividades humanas que estão mudando o clima, esse é o consenso científico."
O mexicano, da Universidade da Califórnia em San Diego, afirmou que o ritmo, a amplitude e o padrão do aquecimento da atmosfera já observados não se encaixam em nenhum precedente conhecido de alteração do clima em muitos milênios.
Ele deve saber do que está falando. Molina e Rowland dividiram o Nobel de Química de 1995 com o holandês Paul Crutzen por seu trabalho sobre a destruição da camada de ozônio. Foram pesquisas como essas que levaram ao bem sucedido Protocolo de Montreal (1987), banindo os gases CFCs.
Os efeitos de Montreal podem ser sentidos agora. O buraco no ozônio sobre a Antártida e a Patagônia, na primavera, vem diminuindo de tamanho.
Apesar de muito mais grave, a mudança climática global só contou até agora com o modesto e fracassado Protocolo de Kyoto (1997). A expectativa se volta agora para a conferência de Copenhague, em dezembro, que deveria finalizar um tratado sucessor para Kyoto, para vigorar depois de 2012.
A atmosfera demora a reagir. Gases produzidos hoje podem ficar dezenas ou centenas de anos em ação. É o que ocorre com o principal gás do efeito estufa, o dióxido de carbono (CO2). Para estabilizar sua concentração daqui a cem anos, é preciso cortar emissões pela metade nas próximas décadas.
Da plateia veio a pergunta que não queria calar, sobretudo por haver nela 45 pesquisadores indianos e 27 chineses: é inevitável diminuir o crescimento da população ou do nível de vida no planeta para conter a mudança climática?
Mais uma vez foi Molina quem falou pela maioria: "Inevitável, não". Para ele, a humanidade já dispõe das tecnologias para enfrentar o problema.
"Só é um desafio gigantesco."
Na primeira rodada da mesa, cada um havia listado contribuições que a química poderia dar para ajudar a atacar o desafio. Muitas: baterias mais eficientes, novos materiais para abaixar o custo e melhorar o desempenho de painéis fotovoltaicos e de turbinas de vento, processos para retirar CO2 da atmosfera e armazená-lo.
Resvalando da química para a física, a energia nuclear também foi lembrada. A fusão de átomos para obter energia, que três décadas atrás era encarada como a grande solução, permanece ainda como promessa - para daqui a 50 ou cem anos.
Já a fissão (quebrar núcleos atômicos), base das atuais usinas nucleares, tem um papel mais ou menos garantido, reconheceram quase todos, meio a contragosto. No mínimo é preciso intensificar a pesquisa para avançar a nova geração de reatores, mais seguros.
A voz discordante veio de Walter Kohn: "Sou velho o bastante para ter testemunhado as bombas atômicas no Japão e jovem o bastante para ler jornais e saber do que está acontecendo na Coreia do Norte e no Irã". Disse que, para satisfazer as necessidades crescentes de energia, centenas de reatores teriam de ser construídos, trazendo o risco de proliferação.
"Será uma pressão enorme", concordou Harold Kroto, mas com um eufemismo: "A probabilidade de comportamentos repreensíveis aumentará dramaticamente. Temos de pensar nisso com cuidado".
(Marcelo Leite viajou para a Alemanha a convite da 59ª Reunião de Prêmios Nobel em Lindau)
(Folha de SP, 1/7)
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=64432
Publicado em 01 de julho de 2009 às 17:10 por appoloni
JC e-mail 3778, de 08 de Junho de 2009.
Brasil passa a integrar rede mundial que pesquisa nova forma de energia
País fecha acordo com União Europeia para pesquisar fusão nuclear. São Paulo terá laboratório para testes
Eliane Oliveira escreve para “O Globo”:
O governo brasileiro fechou na sexta-feira, com a União Europeia (UE), os termos de um acordo na área de pesquisa em fusão nuclear que deverá ser assinado em outubro, em Estocolmo, Suécia, pelos presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e da Comissão Europeia, o português Durão Barroso. O procedimento é pré-requisito para o país participar do projeto do Reator Experimental Termonuclear Internacional (Iter, em inglês), em construção na França.
— Para se ter uma ideia do potencial da fusão nuclear, tida como a energia do futuro, uma família de quatro pessoas pode ser abastecida por 30 anos tendo como fonte o equivalente a uma banheira com água e uma pilha de lítio — explicou o diretor da Comunidade Europeia de Energia Atômica (Euratom), Octavio Quintana.
Quase todo o planeta já sofre déficit de energia
Ele explicou que esse tipo de tecnologia poderá se consolidar definitivamente até a metade deste século, quando será comprovada a viabilidade comercial da fusão nuclear. A iniciativa, que vem sendo trabalhada por UE, Estados Unidos, China, Rússia, Casaquistão, Índia e Japão, é uma resposta à crise energética prevista para os próximos anos. O déficit de energia já ocorre em praticamente todo o mundo, com algumas exceções, como o Brasil.
O primeiro passo a ser adotado será a construção de um laboratório para testes, no valor de R$ 10 milhões, em Cachoeira Paulista (SP). Dados extraoficiais, porém, apontam para algo em torno de 1 bilhão de euros de investimentos em equipamentos, pesquisas e na implementação de uma base industrial, só do lado brasileiro.
Ao contrário da fissão nuclear, que depende do urânio e é liberada a partir da divisão do núcleo atômico, a fusão nuclear tem como insumos a água e o lítio. Nela, dois núcleos se juntam e formam o plasma atômico, cuja temperatura é equivalente a dez milhões de graus, como se tudo se passasse no centro do Sol.
— Precisamos agora saber se a fonte de energia é factível do ponto de vista comercial — disse Quintana.
Acordo prevê direitos e intercâmbio de informações
Segundo o diretor do Departamento de Temas Científicos e Tecnológicos do Itamaraty, ministro Hadil da Rocha Vianna, o acordo firmado ontem trata de temas como propriedade intelectual, intercâmbio de informações científicas e tecnológicas e de investimentos. Vianna disse o governo estava analisando os termos do entendimento há sete meses.
(O Globo, 6/6)
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=63954
Publicado em 29 de junho de 2009 às 14:44 por appoloni
JC e-mail 3791, de 25 de Junho de 2009.
22. Arqueólogos acham na Europa instrumento musical mais antigo
Flauta alemã de 35 mil anos revela que, à época, cultura já era avançada
Alexandre Gonçalves escreve para “O Estado de SP”:
Uma flauta de osso de pássaro descoberta em uma caverna da Alemanha foi entalhada há cerca de 35 mil anos e é o mais antigo instrumento musical artesanal já descoberto, oferecendo a mais nova evidência de que as primeiras populações humanas da Europa tinham uma cultura complexa e criativa.
Uma equipe liderada pelo arqueólogo Nicholas Conard, da Universidade de Tübingen, na Alemanha, montou a flauta a partir de 12 fragmentos de osso de abutre, espalhados por uma pequena área da caverna de Hohle Fels, no sul da Alemanha.
Juntas, as peças formam um instrumento musical de 22 centímetros com cinco furos e uma extremidade em forma de "V". "É, sem dúvida, o mais antigo instrumento musical do mundo", disse o pesquisador.
A descoberta está descrita na edição desta semana da revista científica Nature.
Outros arqueólogos concordaram com a avaliação de Conard. A arqueóloga especializada no período Paleolítico April Nowell, da Universidade de Victoria, no Canadá, disse que a data da flauta é anterior à de outros instrumentos, "mas não tão mais antiga que chegue a ser surpreendente ou polêmico". Ela não tomou parte no trabalho de Conard.
O pesquisador brasileiro Walter Alves Neves, da Universidade de São Paulo (USP), também considera a descoberta um "grande achado". "Mas ela faz parte de um pacote de criações conhecido como revolução artística do Paleolítico Superior", explica Neves.
Há 40 mil anos, o homem usou signos pela primeira vez para representar conceitos. Surgiram as pinturas nas paredes das cavernas e as primeiras esculturas. O período também conheceu o nascimento da linguagem. "Esperávamos que a música estivesse no pacote", aponta Neves.
Humanidade
A flauta de Hohle Fels é mais completa e um pouco mais velha que fragmentos de osso e marfim de outras sete flautas, também encontradas no sul da Alemanha e documentadas por Conard e colegas nos últimos anos. A equipe escavou o instrumento em setembro de 2008, mesmo mês em que descobriu seis fragmentos de marfim em Hohle Fels que compõem uma estatueta feminina que, acredita-se, é a mais antiga escultura de uma forma humana.
Juntas, flauta e estatueta - descobertas na mesma camada de sedimento - sugerem que seres humanos modernos estabeleceram uma cultura avançada na Europa há 35 mil anos, disse o arqueólogo Wil Roebroeks, da Universidade de Leiden, na Holanda.
"Os primeiros hominídeos surgiram há 7 milhões de anos", afirma Neves, sublinhando o que considera mais interessante na descoberta. "Mas a humanidade nasceu há apenas 40 mil anos, com o aparecimento da capacidade simbólica." (Com AP)
(O Estado de SP, 25/6)
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=64318
Publicado em 27 de junho de 2009 às 18:40 por appoloni
JC e-mail 3786, de 18 de Junho de 2009.
Escola é dominada por preconceitos, revela pesquisa
Onde há mais hostilidade, desempenho em avaliação é pior; deficientes e negros são principais vítimas
O preconceito e a discriminação estão fortemente presentes entre estudantes, pais, professores, diretores e funcionários das escolas brasileiras. As que mais sofrem com esse tipo de manifestação são as pessoas com deficiência, principalmente mental, seguidas de negros e pardos. Além disso, pela primeira vez, foi comprovada uma correlação entre atitudes preconceituosas e o desempenho na Prova Brasil, mostrando que as notas são mais baixas onde há maior hostilidade ao corpo docente da escola.
Esses dados fazem parte de um estudo inédito realizado em 501 escolas com 18.599 estudantes, pais e mães, professores e funcionários da rede pública de todos os Estados do País. A principal conclusão foi de que 99,3% dos entrevistados têm algum tipo de preconceito e que mais de 80% gostariam de manter algum nível de distanciamento social de portadores de necessidades especiais, homossexuais, pobres e negros. Do total, 96,5% têm preconceito em relação a pessoas com deficiência e 94,2% na questão racial.
"A pesquisa mostra que o preconceito não é isolado. A sociedade é preconceituosa, logo a escola também será. Esses preconceitos são tão amplos e profundos que quase caracterizam a nossa cultura", afirma o responsável pela pesquisa, o economista José Afonso Mazzon, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP (FEA). Ele fez o levantamento a pedido do Inep e da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, órgãos do Ministério da Educação (MEC).
Segundo Daniel Ximenez, diretor de estudos e acompanhamento da secretaria, os resultados vão embasar projetos que possam combater preconceitos levados para a escola - e que ela não consegue desconstruir, acabando por alimentá-los. "É possível pensarmos em cursos específicos para a equipe escolar. Mas são ações que demoram para ter resultados efetivos."
Bullying
A pesquisa mostrou também que pelo menos 10% dos alunos relataram ter conhecimento de situações em que alunos, professores ou funcionários foram humilhados, agredidos ou acusados injustamente apenas por fazer parte de algum grupo social discriminado, ações conhecidas como bullying. A maior parte (19%) foi motivada pelo fato de o aluno ser negro. Em segundo lugar (18,2%) aparecem os pobres e depois a homossexualidade (17,4%). No caso dos professores, o bullying é mais associado ao fato de ser idoso (8,9%). Entre funcionários, o maior fator para ser vítima de algum tipo de violência - verbal ou física - é a pobreza (7,9%).
Nas escolas onde as agressões são mais intensas, o desempenho na Prova Brasil é menor. "É lamentável e preocupante verificar que isso ocorre, mas os dados servem como alerta para que a escola possa refletir e agir para modificar esse cenário", diz Anna Helena Altenfelder, educadora do Cenpec. "As pessoas não são preconceituosas por natureza. O preconceito é construído nas relações sociais. Isso pode ser modificado." (Simone Iwasso e Fábio Mazzitelli)
Homens e religiosos discriminam mais
Além do preconceito generalizado que aparece entre todos os atores escolares, a pesquisa feita pela Faculdade de Economia e Administração da USP aponta algumas características que influenciam nas diferenças de preconceito dos alunos. O principal dado mostra que os homens são mais preconceituosos e discriminadores do que as mulheres. Por exemplo, homens têm 9% mais preconceitos contra negros, 8% mais preconceito contra portadores de deficiências e 7,7% mais preconceito contra pobres.
Outro fator relevante estatisticamente é a participação religiosa. Estudantes que afirmaram ter uma participação religiosa forte são mais preconceituosos em geral e têm 2,2% mais preconceitos contra mulheres, 2,1% contra gerações e 6,1% contra homossexuais. "É interessante analisar detalhadamente por que a religião torna os jovens mais preconceituosos", afirma o autor da pesquisa, José Afonso Mazzon.
Na outra ponta, o acesso à mídia (jornais, televisão, livros) contribui para que o preconceito diminua. Em geral, estudantes bem informados se mostraram menos preconceituosos. "A pesquisa é muito importante e mostra como só com o aumento da inclusão, com a presença desses atores discriminados na escola, vamos conseguir combater esse preconceito", analisa Cláudia Werneck, fundadora da Escola de Gente. (Simone Iwasso)
(O Estado de SP, 18/6)
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=64156
Publicado em 21 de junho de 2009 às 15:28 por appoloni
JC e-mail 3786, de 18 de Junho de 2009.
Tesouro brasileiro na internet
Lançado oficialmente com acesso on-line a cerca de 3 mil documentos, o projeto Brasiliana Digital deverá disponibilizar integralmente o acervo de 40 mil volumes raros doados por José Mindlin à USP
Fábio de Castro escreve para a “Agência Fapesp”:
Foi lançado oficialmente, na última terça-feira (16/6), o projeto Brasiliana Digital, que disponibilizará pela internet, com acesso livre, a coleção de cerca de 40 mil volumes da Biblioteca Guita e José Mindlin, doada à Universidade de São Paulo (USP) em 2006, além de outros acervos da USP.
A versão inicial, que já está funcionando, oferece acesso a 3 mil documentos da coleção reunida por Mindlin ao longo de mais de 80 anos. O lançamento do projeto, realizado em conjunto com uma homenagem ao bibliófilo, ocorreu durante a cerimônia de abertura do seminário Livros, Leituras e Novas Tecnologias, no Museu de Arte de São Paulo (Masp), na capital paulista.
“Desde que comecei a coleção, já sabia que a biblioteca não podia ser para sempre um patrimônio particular. Estava claro que éramos depositários e formadores desse conjunto, mas sem o viés da propriedade. Como toda minha família tem forte relação com a USP desde a década de 1930, quando entrei no curso de Direito da universidade recém-inaugurada, não tive dúvidas sobre a escolha da instituição para a qual deveria doar esse patrimônio”, disse Mindlin.
A fase piloto de implantação do projeto conta com apoio da Fapesp, por meio da modalidade Auxílio a Pesquisa – Regular. Os recursos fornecidos pela Fundação permitiram a compra de um sistema integrado de digitalização robotizada de livros encadernados.
“O robô foi adquirido em janeiro e neste primeiro semestre parte da nossa equipe foi para os Estados Unidos receber treinamento para operá-lo. Há sete semanas estamos trabalhando com ele. O robô permite digitalizar cerca de 2,4 mil páginas por hora, o que equivale a cerca de 40 livros por dia”, disse Pedro Puntoni, professor do Departamento de História da USP e coordenador da Brasiliana Digital.
A Biblioteca Guita e José Mindlin reúne diversos tipos de livros, folhetos e manuscritos sobre assuntos brasileiros. “O acervo cobre áreas como literatura, prosa e poesia, história, relatos de viagens, crítica literária, ensaios, filologia, dicionários, obras de cronistas, história natural, botânica e zoologia. Nem tudo está em português, mas tudo diz respeito ao Brasil”, explicou Puntoni.
Segundo ele, o projeto permitirá aliar a conservação das obras – muitas delas com vários séculos de existência – e a universalização do acesso a elas. “O governo brasileiro, em suas três esferas, tem investido muito em inclusão digital, que deverá aumentar imensamente a parcela da população brasileira com acesso à internet. A Brasiliana Digital dará acesso a esse acervo riquíssimo, preservando-o ao mesmo tempo”, afirmou.
O historiador explicou que ainda não há previsão do tempo necessário para a digitalização integral do acervo doado por Mindlin. Mas, com a tecnologia de digitalização avançada e um sistema de gestão de informação adequado, a equipe está pronta para ampliar o ritmo do projeto.
“Como o prédio no qual o acervo será instalado ainda não está pronto, não pudemos ainda definir a dinâmica do processo. O robô, apelidado pela equipe de Maria Bonita, é operado por conservadores. Quando lidamos com um livro do século 16, por exemplo, temos que diminuir o ritmo. Estamos ainda aprendendo a lidar com o equipamento”, disse.
O projeto recebeu da Fapesp até o momento cerca de US$ 980 mil, usados para a compra do robô e apoio a 15 bolsistas. Segundo Puntoni, a equipe envolvida com o projeto tem cerca de 30 integrantes, entre pesquisadores, bibliotecários, analistas e programadores.
A base do projeto Brasiliana Digital, segundo Puntoni, é o projeto Brasiliana USP, coordenado por István Jancsó, do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP. “A Brasiliana USP é um projeto da reitoria da USP que permitirá o acesso para pesquisa e ensino da maior coleção de livros e documentos de e sobre o Brasil custodiada por uma universidade em escala mundial, tornando-a disponível na internet”, explicou Puntoni.
Para abrigar o acervo doado por Mindlin e a nova sede do IEB, a Brasiliana USP está construindo um edifício com cerca de 20 mil metros quadrados no centro da Cidade Universitária, em São Paulo. O projeto foi desenvolvido pelos arquitetos Eduardo de Almeida e Rodrigo Mindlin Loeb, com a assessoria da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP.
“O contrato com a construtora prevê o prédio pronto no fim de outubro, incluindo toda a parte estrutural, como ar-condicionado, cadeiras do auditório, elevadores, etc. A partir daí será preciso trabalhar na instalação de equipamentos, sistemas de segurança e no acabamento. Acreditamos que em 2010 o novo prédio estará operacional”, disse Puntoni.
A parte do prédio onde ficará o IEB, no entanto, deverá levar aproximadamente mais dois anos para ser finalizada. “A parte da construção voltada à coleção Mindlin foi privilegiada, para podermos trazer logo o acervo. Precisaremos ainda levantar recursos para a finalização da outra parte”, disse.
Integração digital
Segundo Jancsó, a concepção básica do projeto Brasiliana USP parte da ideia de criar uma estrutura de conservação de uma parcela do patrimônio cultural da nação, que é a Biblioteca Guita e José Mindlin.
“A partir daí, poderemos investir na conservação do extraordinário acervo documental guardado pela USP. A universidade tem, em suas bibliotecas, cerca de 6,5 milhões de livros. Tudo isso hoje está à disposição dos interessados quase que exclusivamente mediante acesso presencial”, disse.
A ideia do projeto, segundo Jancsó, é contribuir para a conservação de todo o acervo da USP por meio da constituição de um centro de formação de restauradores que levará o nome de Guita Mindlin – a esposa de José Mindlin, morta em 2006 aos 89 anos, pioneira nas ações de restauro de livros e documentos no Brasil.
“Por outro lado, é papel da universidade pública fazer com que a visão patrimonial seja superada e fazer com que esse acervo custodiado pela USP possa estar ao alcance, de modo universal e irrestrito, a todos os brasileiros interessados”, afirmou.
De acordo com Jancsó, os acervos do IEB e da Biblioteca Guita e José Mindlin são complementares e, juntos, deverão formar a principal coleção existente de livros e documentos voltados aos estudos brasileiros. “A construção desse prédio no centro da USP resgata a ideia de que essa universidade foi criada para pensar o Brasil”, disse.
Jancsó conta que a USP investiu R$ 15 milhões para a construção do novo prédio e o projeto captou mais R$ 18 milhões junto a fundações e recursos provenientes de mecanismos de renúncia fiscal. Já os recursos da Brasiliana Digital foram integralmente fornecidos pela Fapesp. “Agora, conseguimos autorização para captar mais R$ 11 milhoes pela lei Rouanet, para finalizar a obra. E vamos ter que buscar mais recursos. A obra é do tamanho do projeto”, destacou.
O site Brasiliana USP reúne informações sobre o projeto, sobre a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin e Brasiliana Digital, com destaques como o primeiro livro impresso no Brasil (A Relação da Entrada[...], por Antonio Isidoro da Fonseca), cenas da vida urbana de Jean-Baptiste Debret (1768-1848) e o relato do marinheiro Hans Staden (1525-1579), de 1557.
“A edição de 1557 de Marpurg é a verdadeira primeira edição da obra de Hans Staden. Comprei-a encadernada com mais três livros (Varthema, Federman e um romance de cavalaria alemão), numa encadernação de 1558. A biblioteca possui também uma edição pirata de Frankfurt, provavelmente do mesmo ano, que, não dispondo das matrizes da primeira edição, foi ilustrada com gravuras da viagem de Varthema ao Oriente, sem qualquer relação com o Brasil e com os índios”, disse Mindlin.
Brasiliana Digital: http://www.brasiliana.usp.br/bbd
(Agência Fapesp, 18/6)
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=64157
Publicado em 20 de junho de 2009 às 18:53 por appoloni
JC e-mail 3778, de 08 de Junho de 2009.
Cai taxa de formação de doutores no país
Crescimento no número de titulados era de 15% ao ano em média no início da década e baixou para 6% de 2004 em diante. Só 24% dos professores das instituições de ensino superior possuem título; no ano passado, foram formados 10.711 doutores
Eduardo Geraque escreve para a “Folha de SP”:
A letra do zoólogo Paulo Vanzolini ilustra bem a situação do sistema de pós-graduação nacional: "De um lado tem maré alta, do outro praia de fora."
O país rompeu a barreira simbólica da formação de 10 mil doutores em 2008. Segundo número ainda não divulgado pelo governo, 10.711 receberam o título. Porém, a taxa de aumento de titulados, que era de 15% em média ao ano no início da década, caiu para 6% de 2004 em diante - com uma tendência de alta no último ano.
Dados mostram que a carência do setor acadêmico no Brasil continua enorme. De todas as instituições de ensino superior do país, entre particulares e públicas, só 24% dos professores são doutores.
E há três anos, pelo menos, a taxa relativa mostra que o Brasil ainda está longe de alcançar o número de formação dos americanos. O resultado da divisão do número de titulados nos EUA pela quantidade anual de doutores brasileiros - um dos indicadores mais usados pelos estudiosos - está estagnado em 21%.
"É bastante preocupante", afirma Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor-científico da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de SP). O fato de o intervalo entre os dois países não diminuir, para o pesquisador e dirigente científico, impede que o Brasil se aproxime das estatísticas de países mais desenvolvidos.
Apesar de considerar que as taxas de formação de doutores, mesmo em queda, estão altas, Eduardo Viotti, economista especialista em política científica, concorda que o número de professores universitários que possuem título de doutorado ainda é muito reduzido e precisa ser elevado. Ele é um dos autores de um estudo sobre ensino superior publicado pelo CGEE (Centro de Gestão e Estudos Estratégicos) em 2008.
O ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, vê o quadro com mais naturalidade e com menos preocupação. "Não é possível que um sistema de pós-graduação cresça tanto por um tempo muito longo", disse ele à Folha.
O Plano Nacional de Pós-Graduação do Brasil prevê para o fim do próximo ano a cifra de 16 mil doutores em um ano - número que dificilmente será atingido. Mas o titular do MCT sabe onde está um dos gargalos: a inovação brasileira, no setor privado, ainda não ocorre na velocidade desejada.
Federais
Mesmo com as particulares fora da conta, o número de doutores entre os professores do terceiro grau é baixo. Quando são analisadas apenas as universidades federais, por exemplo, a cifra é de 50%.
Das 55 universidades federais que o Brasil tem hoje, 9 (16,3%) não poderiam ter mais esse nome se a discussão da reforma universitária, estagnada no Congresso há anos, já tivesse sido encerrada. Pelo Projeto de Lei, cada instituição deve ter pelo menos 25% de doutores no quadro de docentes para ser denominada "universidade".
Em São Paulo, onde existem ilhas de excelência, a taxa média nas três universidades estaduais é de 93%. Nos EUA, que possui universidades mais voltadas para a pesquisa e outras focadas quase exclusivamente no ensino, as mesmas taxas ficam ao redor dos 73%.
Jarbas Bonetti, professor e pesquisador na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), diz que a menor busca dos alunos por doutorado pode ter a ver com a maior dificuldade para a obtenção de bolsas e falta de perspectiva de emprego após conseguir o título.
Já Adalberto Vieyra, coordenador de área da Capes e professor da UFRJ, diz que os programas de pós-graduação cresceram em número e tamanho, especialmente a partir de 2003. "Mas o corpo de orientadores qualificados, de formação demorada e cuidadosa, cresceu de forma muito lenta, passando de 32 mil para 35 mil."
Segundo ele, o desafio não é só superar o fosso dos 0,6 doutores por 1.000 habitantes contra os 30 da Alemanha, por exemplo. "É preciso formar pessoas capazes de liderar a abordagem de complexos problemas nas fronteiras do conhecimento, no mesmo nível que nos países desenvolvidos."
Para o consultor e ex-reitor da USP, Roberto Leal Lobo e Silva Filho, é importante aumentar a incorporação de doutores tanto na iniciativa privada, para a inovação, quanto no setor acadêmico.
(Folha de SP, 8/6)
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=63939
Publicado em 17 de junho de 2009 às 18:14 por appoloni
JC e-mail 3779, de 09 de Junho de 2009.
Astronomia indígena prevê ocorrência da pororoca
Índios brasileiros sabiam da influência da lua sobre as marés muito antes de Galileu e Newton. Assunto será abordado na 61ª Reunião Anual da SBPC, em Manaus, no próximo mês de julho
Ao observarem atentamente o céu quando as águas dos mares e rios se agitavam, os indígenas brasileiros fizeram uma descoberta que Galileu Galilei ignorou e Isaac Newton chegou à mesma conclusão somente quase um século depois: que a lua é a principal causadora das marés.
E que a pororoca, o fenômeno provocado por elas, em que as águas bravias do mar se chocam violentamente contra as de rios, como do Amazonas, dando origem a grandes ondas, ocorre próxima às fases da lua nova e cheia, conforme hoje se sabe e eles já descreviam em seus antigos mitos.
Em 1632, Galileu Galilei publicou o livro “Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo: ptolomaico e copernicano”, em que afirma que a principal causa das marés seriam os dois movimentos circulares da Terra: o de rotação em torno de seu eixo, que ocorre todos os dias, e o de translação em torno do sol, que acontece anualmente, desconsiderando a influência da Lua. Somente em 1687, Isaac Newton demonstrou que a causa das marés é a atração gravitacional do sol e, principalmente, da lua sobre a superfície da Terra.
Mas, antes da publicação da obra de Newton, em 1614, o missionário capuchinho francês Claude d’Abbeville publicou em Paris o livro ““Histoire de la mission de pères capucins en l’Isle de Maragnan et terres circonvoisines”. Na publicação, d’Abbeville narra suas observações do convívio por quatro meses com índios tupinambás, da família dos tupi-guarani, no Maranhão, localizados perto da Linha do Equador.
Uma das anotações do missionário francês diz que “os tupinambás atribuem à lua o fluxo e o refluxo do mar e distinguem muito bem as duas marés cheias que se verificam na lua cheia e na lua nova ou poucos dias depois”. O que confirma o conhecimento por esses povos da relação entre as marés e as fases da lua muito antes das teorias de Galileu e de Newton.
“Todas as civilizações antigas, antes de terem escrituras e se tornarem de nômades a sedentários, liam os astros para construírem calendário e buscarem orientações para regular suas vidas”, aponta o autor da descoberta, o astrônomo Germano Bruno Afonso, professor visitante do CNPq na Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS). O especialista abordará esse assunto em uma conferência que fará na 61ª Reunião Anual da SBPC, que acontece de 12 a 17 de julho, em Manaus (AM).
Descobertas – No final da década de 70, Afonso fez seu doutorado na França, onde teve acesso ao livro de d’Abbeville, em que o capuchinho francês menciona alguns nomes de constelações em tupi, tais como, “curuçá” (cruzeiro do sul), “seichu” (plêiades), “tuibaé” (velho) e “nhandutim” (ema). Ao analisá-los mais detidamente, constatou que as constelações tinham correspondentes em guarani, hoje, embora estejam separadas pela distância – em mais de três mil quilômetros - e pelo tempo, em cerca de quatrocentos anos. Baseado nessa descoberta, começou a estudá-las em todas as regiões do Brasil.
“Em outros países, essa disciplina, a etnoastronomia, é muito estudada. Já se sabe muito sobre os incas, maias e navajos, por exemplo. Mas sobre os índios brasileiros, não se conhece nada. Só é possível ampliar o conhecimento sobre eles em trabalhos de campo, porque não existe nada nas bibliotecas”, avalia o especialista, que fez outra grande descoberta ao justamente se embrenhar em um desses trabalhos de campo.
Em 1991, arqueólogos acharam às margens do Rio Iguaçu, no Paraná, onde estava sendo construída uma hidrelétrica, um material arqueológico que não conseguiram entender seu significado. Ao estudar a rocha vertical, o pesquisador identificou que se tratava de um instrumento de observação solar, conhecido como “gnômon”. “Ele tinha quatro faces talhadas para os pontos cardeais. Fui falar com os guaranis daquela região, para ver se aquilo tinha sentido para eles, e percebi que havia. Depois, encontrei instrumentos semelhantes a ele em diversos outros locais do Brasil”, conta.
De acordo com o pesquisador, um dos principais objetivos práticos da astronomia indígena era sua utilização na agricultura. Por meio da observação da lua, eles sabiam, por exemplo, que há uma maior incidência de mosquitos na lua cheia do que na lua nova. O que poderia ser útil para os órgãos de saúde no Brasil combaterem hoje o mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, determinando qual o melhor período para promover ações de dedetização.
A palestra do astrônomo Germano Bruno Afonso será realizada no dia 17 de julho, às 10h30, no campus da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). A Reunião Anual, cujo tema é “Amazônia: Ciência e Cultura”, contará com 175 atividades, entre conferências, simpósios, mesas-redondas, grupos de trabalho, encontros e sessões especiais, além de apresentação de trabalhos científicos e minicursos.
Veja a programação em http://www.sbpcnet.org.br/manaus
(Assessoria de Imprensa da SBPC)
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=63966
Publicado em 16 de junho de 2009 às 12:24 por appoloni
JC e-mail 3782, de 12 de Junho de 2009.
Superlotação na Estação Espacial é desafio
Pela primeira vez, 13 pessoas compartilharão o laboratório no espaço e trabalharão juntas
Astronautas se preparam para uma das mais ambiciosas experiências já realizadas na Estação Espacial Internacional (EEI): ter 13 pessoas a bordo, evitar conflitos e, ao mesmo tempo, manter a produtividade num ambiente completamente isolado e cheio de potenciais desafios.
Com a chegada da tripulação do ônibus espacial Endeavour — cujo lançamento está marcado para sábado —, o número de pessoas na estação chegará ao recorde de 13. A previsão é de que eles cheguem à estação menos de três semanas depois do lançamento.
— Eu não sei como vai ser isso — afirmou o comandante da Endeavour, Mark Polansky, um veterano de duas missões espaciais. — Mas sei que será um desafio ter 13 pessoas a bordo.
Atualmente, a estação está bem maior do que na última visita de Polansky, há mais de dois anos. Quatro novos módulos foram acrescentados à estação, avaliada em US$ 100 bilhões, que orbita a Terra a cerca de 360 quilômetros de distância.
São cerca de 700 metros cúbicos de área útil. São três laboratórios, cinco módulos com camas, dois banheiros e duas cozinhas. Os módulos japoneses e americanos oferecem ainda acomodações temporárias para mais dois tripulantes.
A tripulação da Endeavour vai levar para a estação e instalar uma plataforma externa para experiências científicas que deve ser exposta ao ambiente espacial.
Os sete astronautas do ônibus espacial se reunirão, na estação, ao europeu Frank De Winne, ao canadense Robert Thirsk e ao russo Roman Romanenko — que chegaram no último dia 29 a bordo de uma cápsula russa Soyouz para assumir a nova missão — e também ao japonês Koichi Wakata, ao americano Michael Barratt e ao russo Gennady Padalka, que estão de malas prontas para voltar.
Medo de “bater cabeça” nas tarefas a bordo
Trata-se da primeira vez que astronautas provenientes de todos os países parceiros da estação se reunem no laboratório ao mesmo tempo. A estação é coordenada por EUA e Rússia, com as parcerias das agências espaciais de Europa, Japão e Canadá.
— Todo mundo sabe o que é ter parentes e amigos em casa nos feriados — comparou Thirsk, em entrevista concedida antes de embarcar. — Tem que ter fila no banheiro, turnos na cozinha. Todos perdem um pouco de sua privacidade, mas todo mundo quer participar daquilo.
Os astronautas da Endeavour disseram que se esforçarão para serem convidados discretos, mas já avisaram que terão de usar os banheiros da estação.
É que, normalmente, toda a urina gerada no ônibus espacial é lançada no espaço — prática que terá de ser evitada para não poluir a área externa a ser instalada na estação. Para Polanksy, um dos maiores problemas será ter um monte de gente querendo ajudar nas tarefas.
— Às vezes, fazemos menos com mais gente. Temos que nos manter concentrados.
(O Globo, 12/6)
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=64046
Publicado em 14 de junho de 2009 às 18:49 por appoloni
JC e-mail 3775, de 03 de Junho de 2009.
Centenário da descoberta da doença de Chagas, artigo de Charles Mady
“O que faz esse eminente cientista brasileiro ter um lugar por poucos ocupado é o fato de, além de ter descrito a doença que leva o seu nome, com todas as implicações clínicas, ter identificado o agente transmissor e também o organismo causador desse mal”
Charles Mady, professor associado da Faculdade de Medicina da USP, é diretor da Unidade de Miocardiopatias do InCor. Artigo publicado em “O Estado de SP”:
Neste ano de 2009 comemoramos os cem anos da descoberta da doença de Chagas. Trata-se de fato extremamente importante do ponto de vista médico e científico, mas que, infelizmente, não recebeu nem recebe a importância devida e merecida.
Carlos Ribeiro Justiniano Chagas, ou simplesmente Carlos Chagas, ilustre brasileiro, nasceu em 1879. Formou-se pela então Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1903, dedicando-se posteriormente ao estudo de doenças infecciosas e parasitárias.
Oswaldo Cruz, outro ícone da medicina de nosso país e seu mentor no Instituto de Manguinhos, enviou seu discípulo a um ramal da Estrada de Ferro Central do Brasil, na cidade de Lassance, no norte de Minas Gerais, região do Rio das Velhas, para investigar um surto de malária que lá estava ocorrendo.
Instalou consultório, laboratório e dormitório num vagão ferroviário do ramal que estava sendo construído, de forma precária e com poucos recursos técnicos à disposição. Ao examinar uma menina de 2 anos de idade chamada Berenice, entre tantos outros pacientes, notou, com a acurácia dos grandes propedeutas, quadro clínico diverso da enfermidade que motivara sua viagem.
Colheu amostra de sangue da criança e detectou o parasito causador desse mal, dando-lhe o nome de Trypanosoma cruzi, em homenagem a seu mestre, e de cepa Berenice à amostra colhida dessa menina. A paciente foi reencontrada em 1961, sendo examinada e estudada e, como fato científico importante, ainda era portadora da mesma cepa do parasito.
Faleceu em 1981, mas não dessa doença. Carlos Chagas fez o relato de sua descoberta na literatura médica em 1909 e a moléstia recebeu seu nome por indicação de seus pares, em sinal de total reconhecimento. Na ocasião, foi enaltecido por Oswaldo Cruz como a maior das glórias de Manguinhos.
Continuou seus estudos em seres humanos e animais silvestres e de laboratório, divulgando suas observações em inúmeras revistas científicas. Foi indicado ao Prêmio Nobel, que injustamente não lhe foi atribuído, por motivos que permanecem obscuros até hoje.
Acredita-se que essa doença exista no continente americano desde os tempos em que o ser humano passou a habitá-lo. Múmias bem conservadas de 9 mil anos de idade, descobertas no Deserto de Atacama, tinham fragmentos do parasito em seus tecidos.
Charles Darwin, em seus relatos, comenta ter sido picado por um inseto hematófago que, pela impressionante clareza de sua descrição, deve ter sido o agente transmissor da doença de Chagas. Morreu na Inglaterra de insuficiência cardíaca, provavelmente causada por esse mal.
Qual é a situação dessa doença nos dias atuais? Por incrível que possa parecer, não temos medicamentos seguros e eficientes para tratar a infecção humana. Em contraste, temos drogas e equipamentos altamente sofisticados e caros para tratar as consequências mais graves da doença, como a insuficiência cardíaca. Sabemos transplantar corações de pacientes infectados, mas não sabemos tratar a causa desse mal.
Programas de erradicação do inseto transmissor foram aplicados em algumas áreas endêmicas, com sucesso. Mesmo assim, a maioria das regiões acometidas não recebe das autoridades responsáveis o tratamento devido. Doenças menos prevalentes, mas importantes por visões políticas e de mídia, recebem atenção bem maior do que essa.
Carlos Chagas, em 1911, dizia que medidas sanitárias simples, modificando as condições de habitações, dariam grandes resultados. Em sua visão humanista e de cientista idealista, também dizia que certamente não nos faltariam energia e vontade política para resolver o problema. Infelizmente, como acontece com a maioria daqueles que produzem para a evolução do bem-estar social, as suas previsões não se concretizaram.
Em 1944, Portinari retratou em sua tela Lavadeiras uma criança apresentando os sinais típicos da doença. Hoje, na América Latina, 25% da população, ou seja, 90 milhões de pessoas, estão expostas ao contágio. Acreditamos que haja 16 milhões de pessoas infectadas, com 6 mil mortes por ano, 91% das quais com comprometimento cardíaco.
Isso tudo após Carlos Chagas ter dado o alerta em 1911. Por acometer preferencialmente populações de regiões pobres, socialmente excluídas, estas recebem menos atenção dos órgãos responsáveis, representando um mercado de pouca expressão e levando ao desinteresse político por essa doença. Nas últimas décadas, resultado de um grande esforço da comunidade científica latino-americana, houve redução da transmissão em extensas áreas trabalhadas, demonstrando objetivamente a possibilidade de erradicação da doença.
Deve-se salientar que essas iniciativas não foram fruto de políticas de Estado, pois as vontades sociais, políticas e mercadológicas para a implementação do controle da doença são mínimas. Para agravar a situação, com a febre da globalização, estamos "exportando" a doença para a América do Norte, a Europa, o Japão e a Austrália, com a emigração de membros de nossa população.
Essas regiões não faziam testes de rotina em seus hospitais e bancos de sangue para detecção da doença, vivendo hoje todas as consequências desse fato. Carlos Chagas dizia, do alto de sua sabedoria, que não há doenças exclusivas dos trópicos. Mais uma lição desse mestre que deveríamos já ter aprendido.
O que faz esse eminente cientista brasileiro ter um lugar por poucos ocupado é o fato de, além de ter descrito a doença que leva o seu nome, com todas as implicações clínicas, ter identificado o agente transmissor e também o organismo causador desse mal. Essa tríplice descoberta faz do autor uma presença quase única na história das ciências médicas no Brasil e no mundo. Carlos Chagas deve, portanto, ser reverenciado como um dos maiores cientistas que nosso país produziu em toda a sua História.
(O Estado de SP, 30/5)
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=63863
Publicado em 04 de junho de 2009 às 12:45 por appoloni